quarta-feira, 14 de julho de 2010

MEU LIVRO "VIRTUAL"

Meus caros amigos


Não era esse o livro com o qual sonhara quando terminei minha expedição pelo rio Sâo Francisco. Queria um livro impresso, ilustrado com dezenas de fotos da imensa coleção dos instantes que captei ao longo do caminho. Queria compartilhar esses longos dias que passei remando, pensando, sonhando com um mundo melhor, imaginando que meus esforços resultariam positivos para que algo transformasse a realidade que não queremos ver, de degradação e morte espalhadas pelas águas do rio, arrastadas para suas margens e para os povos ribeirinhos, vítimas finais dessa destruição sem fim.

Mas ainda não consegui viabilizar meu projeto. Passei meses tentando obter o apoio financeiro necessário para publicá-lo, sem sucesso. Porém eu nunca desisto; e resolvi encarar esse novo desafio de divulgar minhas memórias para o maior público possível e, enquanto não sai o meu livro impresso, este foi o veículo escolhido: um novo blog, apenas com as páginas desse livro, conforme fora concebido, com dedicatória, agradecimentos, prefácio e tudo o que haveria em páginas impressas.

Ao contrário de outros blogs, este nasce pronto, com todo seu conteúdo terminado, sem nada mais a ser acrescentado nos tempos que virão. Mas gostaria de contar com sua participação, escrevendo comentários, dando sugestões, manifestando seus sentimentos ao percorrer as páginas desse inusitado "livro". Façam-no nos rodapés dos textos e ele se enriquecerá com seus pensamentos, assim como me enriqueci com a vivência nesse rio fantástico!

Mais do que ler, divulguem minha mensagem; passem adiante o endereço deste blog para que outras pessoas, milhares delas, possam saber o que se faz contra o meio ambiente, contra os ribeirinhos e contra a humanidade, atirando lixo e produtos químicos em suas águas, devastando e queimando suas matas, matando seus animais selvagens, humilhando o povo simples e humilde que dele retira tudo o que necessita para sua sobrevivência!

Mandem mensagens para meu email: jotafig@hotmail.com, reafirmando seu compromisso com nossas teses preservacionistas. Este site contém mais de 100 postagens, equivalentes a 500 páginas de texto impresso e ilustrado com mais de 300 fotografias. Vocês também podem baixar o livro em PDF a partir do Overmundo: "Meu Velho Chico: uma expedição solitária" ou do SCRIBD: "Meu Velho Chico: uma expedição solitária"

Boa leitura!

João Carlos Figueiredo

Ambientalista, canoeiro, indigenista, mergulhador, espeleólogo, montanhista
Porém, mais do que tudo isso, um amante incondicional da NATUREZA!

quinta-feira, 8 de julho de 2010

AOS MEUS AMORES

À minha mãe querida, Dinorah, minha primeira professora, que durante toda sua vida só nos concedeu carinhos e cuidados, doando dias e noites à família, abandonando seus sonhos e ilusões para nos dedicar todo seu amor.
Ao meu querido netinho Nícolas, que me trouxe de volta a esperança e sinalizou que a vida continuará, a despeito das fraquezas humanas, e que vale a pena lutar por uma causa justa, não importam os sacrifícios.

Às minhas queridas filhas, Luciana Harumi e Mônica Yuri, razões maiores de meu viver, que me tornaram melhor e inspiraram meus sonhos e o desejo de realizá-los, ainda que o caminho fosse longo, difícil e improvável.

À minha querida Mory, paixão eterna, amor incondicional, mulher exemplar e digna, generosa e sábia, que me fez enfrentar e superar todos meus medos e limitações, tornando possível o sucesso em todos os meus empreendimentos.

Ao meu pai querido, Ulysses, homem sábio, digno e justo, humilde e generoso, presente em todos os momentos especiais de minha vida, que me ensinou o que sei e aquilo que não fui capaz de compreender.

A todos vocês, o meu carinho.

AGRADECIMENTOS

Foram tantas as pessoas que me apoiaram e me acolheram nessa longa jornada que temo cometer injustiças. No entanto, não posso deixar de agradecer especialmente a algumas pessoas muito especiais, que cito abaixo, sem uma ordem pré-definida, sem prioridades ou critérios estabelecidos.

Comunidades Quilombolas de:

-Tomé Nunes e, em especial, a Joanita e Maria Clara;

-Barra do Parateca e, em especial, a Elson, Alex e sua mãe;

-Piranhas e, em especial, a Miguel, Jaqueline, Dai, Rosa e crianças;

-Boa Vista do Pixaim e, em especial, a Jailson, Aléssio e família;

-Torrinha e, em especial, a Juarez e membros da Associação;


-Mangal / Barro Vermelho que, devido a uma ameaça de atentado à minha vida, feita por jagunços de latifundiários, fui impedido de visitar


Comunidades indígenas
Truká de Cabrobó e Truká Tupã de Paulo Afonso, em especial a Ednaldo Cirilo e Cacique Neide, a Alzeni Tomaz e Paulo, e a professora indígena Tumbalalá, Maria José, de Cabrobó

Comissão Pastoral da Terra de Bom Jesus da Lapa, em especial a Juliano Vilas Boas, Samuel Britto das Chagas, Marilene, Djanete, Julita, e outros tantos que me acompanharam durante parte do percurso na Bahia

Dr. Avelar Amador, que me deu apoio e companhia nas visitas a museus e ao Clube Náutico de Petrolina, e me conseguiu contatos decisivos em Santa Maria da Boa Vista, Cabrobó e Piaçabuçu

Closé Limongi, que me acompanhou em Iguatama e Pirapora, publicou reportagens, cedeu-me fotos de minha saída dessas cidades, e viabilizou meu retorno ao rio em Três Marias, com seu apoio, amizade e sugestões

Prefeitura de Santa Maria da Boa Vista, ao prefeito Leandro Duarte, e seu incansável e atencioso assessor Adelmir, grande companheiro

Prefeitura de Cabrobó e seu secretário de Finanças, Paulo Teógenes, que me concedeu seu tempo e prestígio durante minha visita

Prefeitura de Iguatama, especialmente à comunidade acadêmica, prefeito Leonardo Carvalho Muniz e ex-prefeito Manoel Bibiano que me acolheram e me hospedaram

Prefeitura de Três Marias, que me hospedou, e a Elias, secretário de Turismo e seu assessor José Arnaldo, que me acompanhou por vários dias na visita à cidade

Prefeitura de Piaçabuçu, que me apoiou na chegada à foz e me acompanhou em visitas às dunas e ao Pontal do Peba

Prefeitura de Ribeirão Preto, em particular a dr. Joaquim Rezende, secretário do Meio Ambiente, que emitiu ofício apoiando a expedição

Carmen Kawall e sua empresa Tui Alimentos, que me forneceu 120 ótimas refeições que me alimentaram durante toda a expedição

Marina Cromberg e Nikon Udenio, que viabilizaram uma câmera Nikon P80, e me proporcionaram magníficas fotografias

Dom Frei Luiz Cappio, bispo de Barra, dra. Eloá Sayão, Irmã Irene e funcionárias do Palácio Episcopal de Barra, que me hospedaram e me acolheram com muito carinho durante quatro dias

Gutinho e sua família, de Paratinga, que me concederam apoio, orações e companhia em minhas horas mais difíceis

Ivan Marinovic Brscan, Embrapa Tabuleiros Costeiros, que conseguiu importantes contatos e entrevistas com a imprensa, além do transporte e da guarda da canoa desde Piaçabuçu até Aracaju

Jojô e Wilson, meus queridos amigos de Malhada, que me acolheram com carinho, me deram companhia e conduziram minhas visitas às comunidades quilombolas

Amigos do Acampamento 17 de Abril, em especial ao Geraldo, seu líder

Lázaro, da CHESF de Xingó, que me proporcionou visita à usina hidrelética

Willams, gerente do Banco do Brasil de Piranhas, que me hospedou em sua casa e viabilizou minha visita a Xingó

Meus amigos e afilhados Paulo Eduardo Chagas e Heitor Luiz Arrais, que me conduziram a São Roque de Minas, me estimularam e me acompanharam na trilha da Serra da Canastra e me apoiaram na viagem

Armando Gonçalves Junior, que passou muitas informações preliminares sobre o Velho Chico durante toda a fase de planejamento da expedição

Marcelo Rosa, da CHESF Sobradinho, que me propiciou visita à usina hidrelétrica

Dra. Virgínia Molinar e Dr. Bruno Sales, que cuidaram de meus dentes antes de minha viagem, garantindo minha saúde e conforto

Lúcia Figueiredo e Luciana Harumi, que tiveram a paciência e o cuidado de revisar meus textos, tornando-os melhores e mais expressivos

Mônica Yuri, que me acompanhou no início da expedição, em São Roque de Minas, confeccionou bonés, faixa, cartões e camisetas, editou meus blogs, visitou-me e me brindou com seu amor e carinho em Bom Jesus da Lapa, e fez todo o trabalho de criação gráfica e editoração deste livro

Aos pescadores e ribeirinhos, que me acompanharam em todo o percurso e a tantos outros que cruzaram meu caminho e me concederam sua atenção e cuidados


A todos vocês, minha eterna gratidão!


João Carlos Figueiredo

PREFÁCIO

Existem pessoas que nasceram para medir o imensurável. João Carlos é uma delas, cujo espírito livre em algum momento da vida aflorou e tomou conta da sua vida para todo o sempre, mudando, sobretudo sua visão, que agora enxerga uma janela tão vasta, que dela pode-se ver o mundo.

Nas conversas durante as escaladas em que juntos repartimos a corda, João Carlos me falara do seu projeto de remar solitário pelo São Francisco e depois escrever o livro que agora temos o prazer de ter em mãos.

Foi com grande satisfação que soube de sua partida e acompanhei a expedição de um homem que não só buscava a aventura, mas perseguia, acima de tudo, em sua jornada, entender a alma do rio, que a ele se mostrou.

E, nas páginas a seguir, João Carlos nos presenteia com suas descobertas, impressões, sentimentos, alegrias e tristezas sobre os dias em que passou nas águas do mítico São Francisco.

Eliseu Frechou - Guia de Montanha

ORAÇÃO DO VELHO CHICO

Senhor, fazei-me instrumento de vossa generosidade!

Onde houver
Seca, que eu espalhe as Águas da Fertilidade!

Onde houver
Miséria, que eu distribua a Fartura das Colheitas!

Onde houver
Sertão, que eu me torne o Mar da Vida!

Onde houver
Trevas, que eu conceda a Energia e a Luz!

Onde houver
Isolamento, que eu mostre os Caminhos da Integração!

Onde houver
Fome, que eu fertilize e irrigue, com minhas águas, as Plantações!

Onde houver
Discórdia, que eu seja o Reencontro e a Harmonia!

Que meus braços se estendam e se multipliquem pela expansão de meus domínios, levando ao Sertão e ao Agreste a transpiração de minhas águas férteis, para que...

...Onde houver
Desespero, que eu seja a Esperança!

MOTIVAÇÕES

Uma busca incessante
Quando relatamos nossos feitos, nossas aventuras aos amigos, muitos acreditam que somos loucos e ricos!

Loucos por buscarmos a emoção extrema do perigo inconseqüente; ricos por nos darmos ao luxo de viajar para lugares em que a maioria dos seres humanos jamais cogitaria estar!

Mas não há loucura em nossas aventuras; apenas planejamento, técnicas e habilidades desenvolvidas, um bom preparo físico e determinação e vontade à prova de tudo.

A maioria de nós também não nasceu em "berço de ouro"; apenas optou por prioridades diferentes, deixando de lado o luxo dos hotéis “cinco estrelas” pelos acampamentos selvagens de bilhões de estrelas, no meio do mato, abrindo mão de outras vaidades para poder se equipar para a aventura.

São poucos os aventureiros que conseguem patrocínio para suas atividades extremas. Geralmente aqueles que já provaram seu pioneirismo e competência nas conquistas de picos acima dos 8.000 metros, ou velejaram solitários pelos mares distantes, ou se arriscaram escalando paredes que parecem não ter fim...

Nós, reles mortais aventureiros, não tivemos acesso às grandes marcas; compramos nossos equipamentos em "feirinhas da pechincha" ou economizamos durante anos para comprar um GPS¹, mochilas, barracas e sacos de dormir confortáveis, cordas, mosquetões...

A tarefa mais árdua de nossa jornada é, justamente, obter os recursos necessários para viabilizá-la, seja tirando as últimas moedas do "cofrinho", seja pedindo um empréstimo a se pagar até o fim da vida... mas perseveramos mesmo assim, pois não é apenas a aventura em si que nos impulsiona para a frente: são os nossos ideais!

Queremos fazer a diferença, não doando nossas vidas aos empresários insaciáveis de seus lucros, mas lutando por causas perdidas, como a preservação da Natureza, para que nossos filhos possam também se aventurar, ou pelo menos assistir, em algum canal de documentários, como seria nosso planeta sem a perversidade humana, repleto de vida selvagem, de lugares mágicos, de cavernas adornadas com seus espeleotemas, de cachoeiras cristalinas, de praias paradisíacas e de paisagens submersas intocadas...

Queremos acreditar que o Ser Humano ainda tem jeito, que o mundo não se acabará em chamas ou congelado, que o aquecimento global será controlado, que nossas espécies animais, as mais belas e raras, ainda estarão caminhando pelo Kalahari², pela Amazônia ou Mata Atlântica quando já não estivermos mais aqui.

Se a adrenalina já penetrou em nossas veias e estimulou nosso coração a bater tão forte que mal se contém dentro do peito, se nossa vista já se embaciou de lágrimas ao contemplar um pôr-do-sol nas montanhas silenciosas ou às margens de um rio, então não tem mais jeito: não mais pertencemos à "civilização comportada e apática"!

Somos diferentes! Não melhores, mas diferentes; apenas não nos contentamos com o pouco que o mundo civilizado pode nos proporcionar; precisamos estar naqueles lugares onde os sonhos se confundem com nossas próprias visões de Shangrilá...

¹ GPSGlobal Positioning System ou Sistema de Posicionamento Global: equipamento que se conecta a uma rede de satélites artificiais e, por um processo similar ao de “triangulação”, consegue localizar geograficamente a origem do sinal.

² Kalahari – uma das mais belas savanas africanas onde habitam milhões de espécies de grande porte, como guepardos, leões, hienas, gnus, gazelas, elefantes, girafas, hipopótamos, rinocerontes, crocodilos, promovendo permanentes migrações devido aos ciclos de chuva e estiagem, por centenas de quilômetros de trilhas.

Minhas Razões

Comecei a pensar no Velho Chico quando Dom Cappio1 iniciou sua segunda greve de fome contra a Transposição2. Pensei em como alguém, principalmente um religioso, tomaria atitude tão drástica em defesa de uma idéia... o que o levara a essa decisão extrema, contrariando os princípios de sua religião? Lembrei-me dos monges budistas no Vietnam3, nos idos de 1970. Um monge em particular... creio que seu nome era Thich Quang Duc. Esse místico imolou-se ateando fogo ao próprio corpo, em protesto contra as barbáries da guerra!

Os EUA abandonaram o Vietnam depois de mais de 10 anos de luta. Morreram aos milhares, mataram muitas vezes mais... deixaram um rastro de destruição, degradação e miséria, cidades inteiras incendiadas com bombas napalm, velhos e crianças incinerados junto aos guerrilheiros vietcongs, soldados viciados em heroína por não saberem por que estavam lá, tão distantes de seu país, defendendo uma causa que não era a sua... corrompendo, roubando, assassinando, prostituindo...

Dom Cappio devia saber muito bem por que jejuava, assim como Thich Quang Duc sabia porque se imolava. Mas eu não sabia o que era “transposição” e nem tinha consciência da importância desse grande rio nacional, de sua gente, seus dramas, seus costumes, sua história...

Em fins de novembro de 2008 eu voltava de uma expedição pela Chapada Diamantina, que me marcou intensamente, porque me colocou diante de meus dilemas mais profundos. Até então eu praticava esportes da Natureza (ditos “radicais”) sem grandes envolvimentos com as questões de preservação ambiental e sustentabilidade, embora procurasse sempre agir corretamente quanto às minhas relações com o meio ambiente, sem agredi-lo, sem deixar lá os meus rastros...

¹ Dom Frei Luiz Cappio – bispo de Barra, defensor do rio São Francisco e de sua gente, realizou duas greves de fome, em 2005 e 2008, tentando sensibilizar o governo federal para alternativas de revitalização do rio, sem impactos tão graves ao meio ambiente (como as obras de transposição), com maior alcance social e custos muito inferiores aos divulgados.

² Transposição – projeto de desvio das águas do rio São Francisco em dois canais, um a norte, a partir de Cabrobó, e outro a leste, na região de Floresta, cujo objetivo é perenizar alguns rios que abastecem as cidades do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco. Seu custo está orçado em R$6,6 bilhões, mas problemas geológicos, burocracia e corrupção deverão aumentar significativamente esse valor.

³ Guerra do Vietnam: começou em 1948 como um movimento de libertação. Na época, o Vietnam era uma colônia da França. Com a vitória do líder Ho Chi Min, a França abandonou o país e os americanos enviaram seus adidos militares para dar apoio e orientação militar à resistência do Vietnam do Sul. O conflito durou cerca de 20 anos.

O rio São Francisco

MapaCPT Bahia

Percebi que isso não me bastava mais e decidi conhecer melhor o contexto do Velho Chico. Soube que é a maior bacia hidrográfica totalmente inserida em território nacional, com mais de 640 mil km²; isso é mais do que a área de cada um dos territórios dos estados de Minas Gerais e Bahia.

Esse grande rio, com mais de 2.800 km de extensão, foi descoberto em 1501 por Américo Vespúcio, navegador italiano (Amerigo Vespuccii) nascido em Florença em 9 de março de 1454, e falecido em Sevilha em 22 de fevereiro de 1512; mercador, geógrafo, cosmógrafo e explorador de oceanos, ele viajou pelo Novo Mundo com Cristóvão Colombo, escrevendo sobre estas terras a oeste da Europa.

Vivem, em sua área, cerca de 15 milhões de pessoas em mais de 500 municípios, e dele tiram seu sustento, para subsistência ou consumo. Muitos ainda pescam para sobreviver; alguns ainda caçam em suas matas, mas ninguém pode prescindir de suas águas. A vazão média do rio em sua foz é de 2.700 m3/s, ou seja, dois milhões e setecentos mil litros de água são despejados por segundo no oceano Atlântico! É muita água! Mas já foi muito mais, nos tempos do Descobrimento... mais de cinco vezes isso, conforme estudos recentes de especialistas!

Possui cerca de 160 afluentes, dos quais 100 são perenes e, destes, a maioria nasce e desagua no São Francisco dentro do estado de Minas Gerais. São, no entanto, milhares de outros pequenos cursos de água, drenando as montanhas e contribuindo para a formação e perenização do Velho Chico.

Desde a década de 1950 o Velho Chico vem sendo aprisionado em barragens, cujos objetivos são de regular sua vazão e assegurar a produção de energia elétrica, que abastece mais de 80% das necessidades do Nordeste. Em termos de precipitação pluviométrica, a bacia do São Francisco tem variações de 1.500 mm/ano, no Alto São Francisco (predominantemente em Minas Gerais), a 300 mm/ano na região do semi-árido.

Nesta região, onde as chuvas são poucas e os rios perenes também escasseiam, 75% do volume das chuvas se evapora e apenas 25% contribui, efetivamente, para a manutenção do volume de águas do São Francisco. Isso, sem falar na evaporação da própria água que o rio transporta em seu longo percurso, das bombas e canais de irrigação que retiram volumes expressivos de água do rio, e das represas, onde o índice de evaporação está relacionado com a extensão em área desses grandes lagos artificiais. A perda de águas, portanto, é crescente a partir do seu último afluente perene: o rio Grande, que encontra o São Francisco na cidade de Barra, na Bahia. Daí em diante, é só perda de água, na estiagem, sem outras fontes de reposição.

Suas represas são Três Marias, em Minas Gerais, Sobradinho e Luiz Gonzaga entre a Bahia e Pernambuco, e Xingó entre a Bahia, Alagoas e Sergipe. Suas principais hidrelétricas são Três Marias, Sobradinho, Paulo Afonso (I, II, III e IV), Itaparica, Moxotó¹ e Xingó, e geram cerca de 10 mil megawatts de potência (Itaipu gera 14.000 MW). Hoje, Três Marias é mais importante como reguladora da vazão do rio do que como produtora de energia.

Em termos de volume útil armazenado, Sobradinho possui cerca de 34 bilhões de metros cúbicos de água, mais do que o dobro de Três Marias e 14 vezes mais que Itaparica. Em termos de comparação, a baía da Guanabara tem apenas 3 bilhões de metros cúbicos de água. Até 2007 Sobradinho era o maior lago artificial do mundo. Atualmente, é o segundo maior do mundo, um gigante cujas águas deixaram submersas cinco cidades da Bahia.


"Adeus, Remanso, Casa Nova, Sento-Sé.

Adeus, Pilão Arcado, vem o rio te engolir.
Debaixo de água lá se vai a vida inteira.
Por cima da cachoeira o gaiola vai, vai subir.
Vai ter barragem no salto do Sobradinho,
e o povo vai-se embora com medo de se afogar.
O sertão vai virar mar.
Dá no coração
o medo que algum dia
o mar também vire sertão"

— Guttemberg Guarabyra

Dizem que o Rio São Francisco, o Velho Chico ou Opará (seu nome indígena, o “Rio-Mar”), também conhecido como o “rio da integração nacional”, tem sua nascente localizada na Serra da Canastra, no sul do Estado de Minas Gerais, próximo a São Roque de Minas. Mas há os que questionam essa informação, pois seu primeiro grande afluente, o Samburá, é o mais extenso, desde a nascente, e tem maior volume de águas quando se encontra com o São Francisco. Por isso se fala em uma nascente histórica, na serra da Canastra, e uma nascente geográfica, no planalto do Araxá, município de Medeiros.

Existe uma divisão geográfica que desmembra a bacia em quatro sub-regiões: o Alto São Francisco, que vai da nascente até a cidade de Pirapora/MG; o Médio São Francisco, de Pirapora até Remanso/BA; o Submédio, de Remanso até Paulo Afonso/BA; e o Baixo São Francisco, que se estende de Paulo Afonso até a foz.

Essa divisão é política e não representa a diversidade geográfica, geológica, social e ambiental da bacia. Em nosso entendimento, para se estudar a bacia do São Francisco, primeiramente, há que se segregar as áreas represadas do curso natural do rio. Também é importante discernir entre os diferentes biomas do Alto São Francisco: a região do planalto da Serra da Canastra, tipicamente uma área de cerrado, localizada em altitudes médias de 1.300 metros; a região de montanha, de matas tropicais, onde o rio desce cerca de 300 metros em menos de 100 km, produzindo corredeiras rápidas, em contraste com o percurso restante do rio, descontadas as barragens, cuja declividade é de cerca de 15 cm por quilômetro!

Finalmente, deve-se distinguir entre as diferentes interferências humanas em cada região, que estão relacionadas às lendas, tradições, formação cultural, etnias, lavouras, costumes... dessa forma, o trecho compreendido entre a barragem de Três Marias e a cidade de Pirapora não pode estar na mesma sub-região do trecho compreendido entre a confluência do rio Samburá com o São Francisco e o início do lago da represa de Três Marias. As diferenças não se resumem à geologia e à biologia, mas à própria presença e concentração humana em cada trecho.

Para melhor compreender o rio São Francisco e ter uma posição sustentável a respeito do projeto de transposição, seria necessário conviver com esse rio em sua intimidade. Havia, no mínimo, uma tremenda contradição entre constatar que o rio está morrendo, e dele retirar tal volume de água. Seria como retirar sangue de um enfermo em estado grave para cuidar de outro doente terminal! Foi justamente essa contradição que me convenceu a prosseguir.

¹ Moxotó – construída na década de 1970 para servir de reservatório de reposição às usinas de Paulo Afonso, atualmente é conhecida como Usina Apolônio Sales, em homenagem ao idealizador da CHESF.

Meu Projeto

Minha expedição começava a se delinear e tomar forma. Comprei e li todos os livros que encontrei, li artigos e debates na Internet a respeito da polêmica do desvio das águas, acompanhei por incontáveis vezes o traçado do rio no Google Earth e nos mapas geográficos do IBGE para os estados de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas, por onde passaria.


Faltava definir o meio de transporte que mais se adequasse ao grande rio. Deveria ser de fácil manobra e transporte, capacidade de carga para 120 dias e ser eficiente em corredeiras... apesar de não ser o barco ideal para corredeiras, optei pela canoa canadense¹ pela sua versatilidade e grande capacidade de carga. Outro aventureiro já havia feito esse percurso em 2004, com sucesso, e também de canoa canadense.


Junior, em sua viagem, coletou amostras da água em diversos pontos do rio para uma equipe de pesquisadores de uma Universidade Federal. Achei a ideia interessante e me propus a atualizar esses dados com novas coletas. Até obtive os kits de coleta de uma indústria. No entanto, infelizmente não consegui contato, em tempo hábil, com esses pesquisadores e com outros centros de estudo, e a proposta foi inviabilizada. Lamentei muito isso...

Aproveitei seu projeto no que pude e obtive dele todo apoio e ajuda para desenvolver o meu próprio projeto. Pretendia identificar minha expedição com as questões ambientais que predominam nas acaloradas discussões sobre a revitalização do São Francisco, mais importantes do que as razões, verdadeiras ou não, da transposição de suas águas, de cunho essencialmente político e eleitoreiro, menos do que as razões econômicas ou sociais, propaladas aos quatro cantos pelos seus defensores.

Meu projeto teria que finalizar com um produto relevante: a publicação de um livro ilustrado, um documentário com meu entendimento do rio e de seus dilemas, uma radiografia leiga e apaixonada daquilo que minha visão pudesse captar de seu meio ambiente e sua população.

Um lugar que há muito tempo pretendia visitar e deveria ser incluído em meu roteiro é o Parque Nacional Cavernas de Peruaçu. É uma região pouco visitada, pois o parque ainda não tem plano de manejo aprovado pelo IBAMA². Lá se encontram grutas de rara beleza e grande importância cultural, científica (espeleológica) e turística para a região e para o Brasil. O Parque Nacional “Cavernas de Peruaçu” localiza-se entre os municípios de Itacarambi e Januária, ao norte de Minas Gerais. Meu propósito inicial era permanecer por lá durante cerca de uma semana e percorrer parte do vale do rio Peruaçu.

Em minha passagem pelas cidades, pretendia conversar com a população, ouvir suas histórias, conhecer seu entendimento a respeito do rio São Francisco e, se possível, apresentar minhas próprias idéias a respeito da preservação ambiental, expondo-lhes as experiências pelas quais passei e as informações que obtive de pescadores, de outros ribeirinhos e da própria Natureza a respeito da situação ao longo do rio. Afinal, somente eles poderiam assegurar a preservação ambiental de sua região, com atitudes corretas e conscientes.

Era meu propósito levar comigo um documento que denominei “Protocolo do São Francisco”, espécie de compromisso público para o qual pretendia obter o apoio e a adesão de políticos, empresários e da população local, como um compromisso e um plano de ação destinado a assegurar a recuperação e a revitalização do rio São Francisco em um prazo razoável e de forma permanente e sustentável.

Muitas outras possibilidades poderiam ser aventadas, enriquecendo a expedição e seus resultados, mas preferi focar mesmo nesses aspectos ambientais, e não na imagem de aventureiro e canoísta. Seria, certamente, a maior viagem de minha vida, reservando intensas emoções desde seu início. Sentia-me pronto, preparado, motivado e ansioso por começar. Os preparativos duraram 5 meses, até maio de 2009.

Cada detalhe havia sido previsto, embora soubesse que, na prática, a realidade seria bem diferente, e estaria exposto a situações nunca antes vivenciadas. Uma aventura, de verdade! Minha maior preocupação era o volume e o peso das cargas que teria de transportar, uma vez que o propósito inicial era de não depender de nenhum apoio externo... uma expedição auto-suficiente, mesmo com meus eventuais encontros com a população. Constatei, ao longo do caminho, que era um propósito purista e equivocado.

¹ Canoa Canadense – pequeno barco a remo, de 4,55 m por 0,80 m com as extremidades levemente curvas e fundo arredondado e sem quilha. Fabricada com fibra de vidro, seu peso é de 23 kg. Utiliza apenas um remo de única pá, alternando-se as remadas com ambas as mãos. Possibilita diferentes técnicas de remada, o que lhe confere grande versatilidade de estilos e facilidade de manobras. Adequada a águas tranquilas  apresenta maior fragilidade em ambientes de águas revoltas e corredeiras.

² IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis.

Patrocínios

A busca por patrocínio foi um esforço inútil... as empresas só se interessam por aquilo que lhes traga benefícios, não importam os valores sociais, econômicos, culturais e ecológicos de um trabalho sério e responsável. Enviei mais de 200 solicitações de apoio para as grandes organizações que se dizem comprometidas com o meio ambiente, principalmente da região. Quase todas que me responderam, cumprimentaram minha iniciativa pela importância de meu projeto e declinaram do apoio, sem justa razão que eu pudesse compreender.
Mas consegui dois importantes patrocínios: o primeiro foi da proprietária da Tui Alimentos, empresa de Limeira, interior do estado de São Paulo¹, Carmen Kawall. Ela me forneceria todas as refeições desidratadas para 120 dias de expedição. Comida excelente, vegetariana, com um sabor excepcional e de fácil preparo. Apreciei cada uma delas, e me senti muito disposto todos os dias. Complementei essas refeições com leite em pó, chocolate, granola, sementes e castanhas, além de damasco e banana passa. Nas cidades e povoados comeria o que me oferecessem.


A outra oferta partiu da Udenio, representante da Nikon, fabricante de máquinas fotográficas², através de Marina Cromberg, que me forneceu uma câmera Nikon P80 de 10,1 megapixels, leve e de fácil manuseio, com recursos de zoom óptico, além de facilidades de repetição de fotos com alvos em movimento e fixação de foco para alvos móveis. Excelente equipamento, que me gerou belas fotos.

¹ TUI Alimentoswww.tuialimentos.com.br
² Nikon Udeniowww.nikonbrasil.com.br

Preparação

Minha preparação física vem sendo feita durante os últimos 10 anos em que me dedico a vários esportes da Natureza: mergulho equipado (SCUBA1), trekking2, hiking3, mountain bike4, escalada em rocha, espeleologia5... eu os complementei durante o ano de 2008 com práticas de musculação e corridas diárias de até 10.000 metros, em esteiras da academia ou no parque (“Curupira6) da minha cidade.


Vivendo 24 horas focado nesse projeto, busquei o conhecimento em livros e sites que tratavam do rio São Francisco e da região do semi-árido brasileiro. Eram informações para um leigo, mas intensas e diversificadas: as viagens de Teodoro Sampaio pelo rio São Francisco e a Chapada Diamantina, as análises da potencialidade do semi-árido brasileiro, feitas por Manoel Bonfim Ribeiro, o lirismo poético de Carlos Rodrigues Brandão, construindo suas próprias lendas sobre o rio São Francisco, “o meu destino”, a viagem às nascentes do Velho Chico realizadas por Auguste de Saint-Hilaire...

Para minha estranheza e decepção, muito pouco se escreveu sobre nosso grande rio em seus 500 anos de história. Ao menos que eu saiba e tenha tido acesso em minha pesquisa. Caberia, portanto, mais uma versão, a minha, para colaborar com o entendimento das suas mazelas e atrocidades, vítima que foi de uma exploração descontrolada e predatória, desde a extinção de grande parcela de mata ciliar durante a época da navegação a vapor do início do século passado, até a construção das represas, causando enormes impactos ambientais, a despeito dos seus benefícios indiscutíveis.

Assim, já podia levar em minha bagagem um pouco de conhecimento sobre o que viria a constatar nessa incrível viagem: redução da oferta de peixes em toda sua extensão, desaparecimento de muitas espécies animais e de sua flora, desabamento de barrancos e assoreamento do rio, com a conseqüente diminuição de sua profundidade média, redução da oferta de água de seus afluentes, muitos deles extintos pela eliminação da mata ciliar que os protegia, contaminação das águas dos rios com agrotóxicos e esgoto urbano... um extenso rol de problemas a serem comprovados, discutidos, avaliados.

Porém, muitas surpresas haveria, certamente, em meu caminho! A diversidade biológica ainda impressiona a todos que percorrem esse caminho mágico: aves em grande quantidade e variedade, onças negras, pardas e pintadas, lobos-guará, capivaras, peixes, tartarugas, quatis, jacarés, macacos...

Afora essas questões ambientais, está o homem: sua presença altera tudo, seja pela destruição que causa, seja pela diversidade de profissões que desenvolveu ao longo do tempo, em suas margens: barqueiro7, lavrador de áreas de lameiro8 (vazanteiro9), pescador, brejeiro10, carvoeiro11, garimpeiro, artistas de teatro mambembe12, caixeiro viajante13, artesão, vaqueiro, comerciante de todo tipo de produto (inclusive através de práticas freqüentes de escambo14)...

É necessário e urgente que se tomem ações efetivas de revitalização do rio São Francisco, sem demagogia e sem interesses eleitoreiros. Só quem viveu um pouco em seus domínios pode compreender a essência e a profundidade desse apelo, pelo entendimento do gigantismo dessa nação chamada “São Francisco”.

1 SCUBA – Self-Contained Undewater Breathing Apparatus (equipamento de respiração sob a água compreendendo o cilindro de ar, regulador de pressão do ar e colete equilibrador).

2 Trekking – atividade esportiva de percurso de trilhas a pé, geralmente com duração de mais de um dia.

3 Hiking – atividade esportiva de percurso de trilhas a pé, de curta duração e sem pernoite.

4 Mountain Bike – descida de montanha com o uso de bicicletas preparadas para esse tipo de atividade.

Espeleologia – estudo multidisciplinar do meio ambiente das cavernas, grutas e abismos.

6 Curupira é uma figura do folclore brasileiro. Ele é uma entidade das matas, um anão de cabelos compridos e vermelhos, cuja característica principal são os pés virados para trás. (Wikipédia).

7 Barqueiro – proprietário de barcos, é também o comerciante e capitão da embarcação. Costuma fazer o transporte de mercadoria entre as cidades ribeirinhas, adquirindo-as e vendendo-as nas feiras livres.

8 Lameiro – área de terreno alagável, enriquecido pelo barro trazido pelas cheias dos rios. Embora utilize áreas de preservação permanente às margens dos rios, esse tipo de lavoura não costuma causar impactos significativos no meio ambiente, pois explora áreas já alagáveis, sem provocar desmatamento.

9 Vazanteiro – lavrador que trabalha as áreas de terreno alagáveis, durante o período de vazante dos rios.

10 Brejeiro – lavrador que vive e trabalha em terras alagadas, de brejos situados nas proximidades do rio São Francisco. A região de Barra até Xique-Xique possui muitas terras habitadas por esses trabalhadores.

11 Carvoeiro – atividade ilegal de produção de carvão vegetal a partir de lenha retirada da Caatinga e do Cerrado. Muitas indústrias de transformação, principalmente mineradoras, ainda utilizam esse combustível em suas fornalhas, causando grande devastação e desmatamento em áreas de preservação, além de exploração de trabalho escravo e de mão de obra infantil.

12 Mambembe – teatro itinerante, similar aos saltimbancos da Idade Média, que percorre o sertão em caminhões, apresentando peças de gosto popular e atividades circenses.

13 Caixeiro Viajante - é uma profissão antiga, de uma pessoa que vende produtos fora da região onde eles são produzidos. Antigamente, quando não havia a facilidade do transporte entre as cidades, os caixeiros-viajantes eram os únicos a comercializar produtos entre diferentes regiões fora das grandes cidades. (Wikipédia).

14 Escambo – antiga prática de troca de mercadorias, muito comum na Idade Média, quando não havia moeda impressa ou cunhada, nem dinheiro circulante. Ainda é muito usual nos vilarejos do Sertão Nordestino.