quinta-feira, 8 de julho de 2010

Algum lugar próximo a Paratinga!

Chove Torrencialmente! 26/10/2009 – 04h53

Toda vez que enfrento uma tempestade estou em uma área de risco! Isso devido à minha comodidade e imprudência. Quando parei de remar ontem queria mesmo é descansar e me refazer do susto causado pela ameaça sofrida em Mangal.

Mas o prenúncio da tempestade iminente estava no horizonte: rio abaixo, na altura de Paratinga, onde as nuvens e os relâmpagos anunciavam presença. Mesmo assim montei minha barraca a poucos metros do rio, em terreno quase plano, uma praia de areia, em uma ilha, que aqui chamam de “coroa” (e pronunciam “croa”).

A chuva chegou às 03h00, com força máxima e permaneceu intensa por mais de uma hora. O problema, no entanto, não é aqui, pois essa água engrossará o rio mais abaixo. O meu risco vem da montante do rio. Pode nem estar chovendo aqui e o rio trazer uma inundação!

Ainda estou muito tenso com essa possibilidade, pois não existe um “plano B” desta vez, a não ser jogar tudo dentro da canoa e sair puxando praia acima até que não haja mais praia; e então só restaria mesmo navegar, sob risco ainda maior, pois as águas trazem consigo todo tipo de entulho, inclusive troncos e árvores.

Amanhece mesmo assim. A luz do dia penetra nas frestas da barraca, coberta completamente com a lona da outra barraca avariada. Pelo menos, até agora, estou seco e aquecido. Ouço o barulho de um motor de barco passando, mas não sei como está o rio, pois não tenho nenhuma visibilidade do exterior da barraca.

Quem sairia de barco com esse tempo? E se o rio estiver subindo e o pescador acampado ao meu lado tiver abandonado o seu barraco? E se forem os capangas que vieram me observar para saber se não estou descumprindo a ordem de não parar em comunidades? Será que por aqui tem alguma comunidade?

As surpresas são muitas nessas viagens de aventura, pois vejo que nada conheço deste rio, de seu clima e ciclos sazonais, de seu povo, seus costumes... sou um novato e inexperiente!

Tenho mesmo que me apressar rio abaixo, tentando chegar o mais rápido possível a Barra e, depois, a Xique-Xique. Preciso sair logo dessa região onde a influência do lago de Sobradinho sobre o clima e o comportamento do rio gera muitos imprevistos.

Na verdade, quero mesmo encurtar meu tempo no rio, buscando apenas a essência de cada lugar, e deixando a vivência para outros projetos, não o meu. Já me arrisquei demais, me comprometi demais com problemas que não me dizem respeito.

Provavelmente, quando terminar minha expedição, essas pessoas com as quais convivi por esse tempo que, para mim, foi muito e, para eles, apenas uma passagem irrelevante, essas pessoas terão se esquecido de mim e nada significarei para elas... até mesmo minhas mensagens serão esquecidas e todos voltarão à sua rotina.

Ainda sem destino...

Saí daquela praia e remei forte, correndo contra o tempo, pois sabia que as chuvas não tinham se acabado. Falei com o Juliano, que estava em Paratinga, e contei-lhe em essência o que tinha acontecido; ele me disse que as pessoas que estavam no barranco, em Mangal, ficaram sem entender meu comportamento.

Ele participara de um encontro e resolveu me esperar para conversarmos com mais calma. Precisávamos entender o que houve e tentar descobrir as causas da ameaça, para ir atrás dos prováveis suspeitos de cometer esse tipo de violência.

Mas o tempo novamente não me deixou chegar a Paratinga; fui alcançado pela tempestade e parei em outra praia, armei a barraca bem longe do rio, desta vez, e permaneci por lá enquanto a chuva caía intensamente sobre o rio. Desta vez fiquei tranqüilo porque tive tempo para escolher o local e fixar bem a barraca.

Não sei que horas são, pois meus celulares ficaram sem bateria de tanto falar com o Juliano, e não sei onde deixei o relógio; deve estar na canoa, mas com esse tempo prefiro ficar sem saber as horas. Não pude fazer o jantar e, pelo terceiro dia, só comi castanhas e tomei leite com chocolate. Água ainda tenho.

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