quinta-feira, 8 de julho de 2010

As cascatas do Velho Chico, 04/06/2009 – 18h30

Sul: 20° 21´ – Oeste: 46° 18´ – Altitude: 746 metros


Hoje foi um dia excepcional para mim! Passei boa parte da manhã limpando e secando meus apetrechos, mas isso não me tirou a certeza de que conseguiria transpor meu maior obstáculo até agora. Estou mais confiante, preciso dessa certeza para prosseguir.

Despedi-me das cachoeiras gêmeas e de seu lago esverdeado, depois de um bom banho gelado, com certa tristeza, pois raras vezes presenciei um lugar tão belo e completamente selvagem e preservado! Enchi meu galão de água, filtrando-a do lago.

Coloquei toda minha bagagem de volta à canoa sem muita preocupação em organizar as coisas, pois apenas voltaria ao ponto em que quase fui tragado pela corredeira.

Amarrei bem a canoa e refiz todo percurso sobre o barranco, que deveria transpor ao longo do dia. Em alguns trechos até dava para andar sobre as pedras, outros estavam cobertos de um limo escorregadio e molhado. Tentei marcar um trajeto mais seguro antes da portagem.

Havia trechos que só dava para passar agarrando-me às rochas, como em uma parede de escalada, ou andando muito próximo das cachoeiras. Tentei decorar esse trajeto.

Revisei mentalmente meus planos e retornei ao barco, parado em um remanso, protegido das corredeiras. Montei um esquema de controle e transporte do barco, com duas cordas amarradas à proa e à popa, permitindo conduzi-la como marionete, de cima das pedras.

Descarreguei todos os sacos e demais pertences da canoa e dei início à transposição, ora arrastando-a sobre as pedras, ora deslizando-a pela água e conduzindo-a pela margem do rio. Nos pontos de escalada montei um sistema de cordas que permitia transportá-la pelo alto do barranco, vencendo cada etapa com muita dificuldade, muito lentamente.

Às vezes o barco escorregava perigosamente sobre meu corpo, ameaçando atirar-nos direto sobre a cachoeira. Movimentava-me com todo cuidado para não errar. Depois de algumas horas cheguei ao ponto de onde iria lançá-la ao rio através de um sistema de roldanas. Farei isso pela manhã, e deixei-a no alto das pedras.

Como o dia estava muito favorável, transportei todo material e refiz as sete sacolas grandes de forma mais prática. Hoje percebo que levo uma mochila com material que nunca utilizarei na viagem. Alguns até se danificaram sem terem sido usados, tais como a máscara de mergulho, cuja alça arrebentou. Nem sei bem porque a trouxe para cá... na verdade, pretendia usá-la nos canyons do Xingó, entre Paulo Afonso, na Bahia, e Canindé de São Francisco, em Sergipe.

Montei o acampamento mais cedo e me permiti um descanso merecido... e seco! De dentro de minha barraca ouço muito forte o barulho das águas, trovejando a pouco mais de três metros daqui. Nem sei se conseguirei dormir com esse som assustador. Uma chuva mais pesada seria um pesadelo para mim, aumentando perigosamente o volume dessas águas.

Ao mesmo tempo em que fico entusiasmado com meu trabalho de portagem, sinto uma grande tristeza em deixar esse pequeno paraíso intocado. Hoje à tarde avistei dois tucanos voando juntos por sobre a copa das árvores, mas não deu tempo de filmá-los. Também vi um casal de gaviões voando suavemente a grande altitude, com seu piado longo e triste, sua postura elegante e majestosa. Como é bela a Natureza! Que privilégio!

Passaria mais dias aqui, se pudesse me comunicar com minha família e tranqüilizá-los. Imagino que estejam preocupadas ao perceber que não me desloquei nada nestes últimos dois dias... deve ser difícil ficar imaginando o que está acontecendo...

Encontrei meu canivete! Estava sob a grama, ao lado da barraca. Também achei os produtos de limpeza. Ainda bem. Seria vergonhoso, para um ambientalista, deixar esses objetos para trás... agora não sei onde deixei meus óculos! Estou apenas com um reserva e não posso perdê-lo. Acho que o stress desses últimos dias está afetando minha memória.

Bem, vou tentar dormir. Hoje tudo está seco e não sentirei frio esta noite. Este local é bem abrigado dos ventos e longe dos excrementos das vacas que pastavam perto de minha barraca pela manhã... onde estariam seus donos? Como deixam esses animais assim? É curioso como eles perambulam abandonados pelos pastos, sem que nenhum peão os acompanhe. Será que existe algum controle sobre o gado? Devem perder muitos...


Há ruídos estranhos lá fora, além da cachoeira. Estou praticamente sob a mata, entre o rio e as rochas e não há como chegar até aqui, exceto para os animais. Não sei que tipo de animal noturno faz suas caçadas por aqui. Só espero que eles não se interessem por mim, minhas mochilas, minha barraca...

“Leave no trace”, 5 de junho de 2009 – 03h40


Uma questão para os puristas do “pega leve"¹ refletirem...

Estou acampado à margem do rio, sobre pedras e bem distante de locais que possam ser usados como “banheiro”: 60 metros da água, solo macio para cavar um buraco, enterrar...

Minha preocupação com a Natureza tem sido uma constante, procurando não deixar vestígios de minha passagem por todos os locais. No entanto, acordei com uma carência urgente de atender às minhas necessidades fisiológicas... o que fazer?

Bem, na falta de alternativas, procurei as areias mais distantes (apenas 3 metros da água), fiz o buraco mais fundo que pude (uns 15 cm) e dispersei meus dejetos de modo a facilitar sua decomposição. Não havia alternativa, e não poderia levá-los...

De qualquer modo, os animais deixam seus restos em qualquer lugar e, por alguns meses, eu estarei me comportando como um deles, vivendo ao relento, defecando...

Às vezes torna-se quase impossível cumprir esses preceitos teóricos. Em uma expedição longa como essa, nem sempre é possível escolher uma área de acampamento adequada. Hoje estou neste local por absoluta falta de alternativas.

Até porque tal proximidade do rio se torna um risco exagerado no caso de uma enchente repentina. Eu não teria condição de sobrevivência, uma vez que não há saída rápida deste local. Estando dentro da barraca, nem perceberia a sua chegada...

Mas, não havendo escolha, a decisão está tomada. A única prevenção que adotei foi escolher a época do ano em que as chuvas já seriam mais escassas e improváveis.

¹ Pega Leve – versão brasileira do movimento internacional conhecido como “leave no trace”, ou “não deixe rastros”; estimula atividades limpas em contato com a Natureza e estabelece parâmetros de orientação para quem os quer adotar (http://www.pegaleve.org.br/home.htm).

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