quinta-feira, 8 de julho de 2010

Barra, 06/11/2009 – 05h30

Cheguei a Barra no dia 2 de novembro. O rio se alarga muito à entrada da barra devido ao encontro com seu último afluente perene, o rio Grande. O visual é magnífico, Barra à frente, bem acima do nível do rio, com suas belas construções clássicas de casarões do século XIX, tendo à esquerda o prédio avermelhado do Mercado Municipal e ao centro as torres da Igreja Matriz.

vento forte e constante dificultou bastante a navegação, e por diversas vezes tive problemas com as “maretas” e com grandes embarcações que passaram por mim sem se preocupar com as ondas, empurrando-me para cima dos barrancos e das ilhotas.

Encostei o barco diante de uma das escadarias que levam à rua da orla, uns dez metros acima na época em que aportei. À minha direita avistei um hotel a poucos metros dali. Não havia ninguém à minha espera e teria que me virar sozinho, como na maioria das vezes. Alguns garotos que brincavam na água se ofereceram para me ajudar e logo aceitei. Eram cinco meninos.

Levamos tudo para o hotel em duas viagens, a segunda só para transportar a canoa. Gratifiquei os garotos em dinheiro, mas havia uma menininha, a quem dei algumas sacolas de macarrão e suco. A recepcionista do hotel, Conceição, me disse que a mãe da menina se prostituiu depois de ser abandonada pelo companheiro. São histórias tristes e muito comuns em regiões pobres.

Eu me instalei, tomei banho, arrumei minhas coisas, lavei algumas roupas e saí à procura de um restaurante, para almoçar. Encontrei o São Francisco, uma casa grande de “self-service”, mas que mantinha o padrão de oferecer arroz, feijão, macarrão, farinha de mandioca, abóbora, carne e uma salada, o que eu mais precisava.

Do restaurante, caminhei pela área central da cidade, em um reconhecimento dos edifícios históricos, que eu depois fotografaria, como a igreja de Bom Jesus, o Mercado, a Prefeitura e o Palácio Episcopal, que fica defronte a uma bela praça com árvores antigas e de troncos retorcidos, além de um coreto!

Por uma feliz casualidade, saía do palácio uma senhora, a quem me apresentei; era a dra. Eloá, dentista que servia ao bispo Dom Cappio desde que ele se instalara em Barra, há muitos anos. Dra. Eloá convidou-me a acompanhá-la; tomamos um sorvete e fomos à casa de uma freira, a Irmã Maria Isabel, diretora do colégio católico; havia um grupo de pessoas, missionários e religiosos, assistindo a uma missa, ministrada por frei Benjamin.

Ao término da missa fui apresentado aos presentes, e seguiu-se um jantar, para o qual também fui convidado, onde conversamos descontraidamente, eu tendo a oportunidade de relatar a viagem. Fiquei impressionado com a receptividade e o carinho com que fui recebido, um estranho que ninguém conhecia nem ouviram falar.

À saída, dra. Eloá convidou-me a me transferir do hotel para as instalações do palácio, falando em nome de Frei Luiz. Disse-me que eu era bem-vindo e frei Luiz gostaria muito de ouvir minhas histórias. Aceitei prontamente a oferta e disse-lhe que me mudaria pela manhã, já que a diária estava paga e precisaria arrumar um transporte, uma carroça... voltei ao hotel em seguida.

Pela manhã, por recomendação de dra. Eloá e indicação da CPT de Bom Jesus da Lapa, procurei o sr. José Bonifácio, espécie de administrador da Casa Paroquial. Ele estava tomando seu café da manhã e mandou-me esperá-lo no palácio. Aguardei por quase duas horas; finalmente, ele apareceu na porta da Casa Paroquial, não me cumprimentou, perguntou o que eu queria; expliquei-lhe minha expedição, a indicação da CPT e de dra. Eloá, e aguardei sua resposta. Depois de alguns constrangidos minutos de silêncio, ele me disse que poderia trazer minha bagagem e a canoa.

Voltei ao hotel, passando antes pela praça do Mercado, onde contratei uma carroça. Depois de acertar minhas contas no hotel, acomodamos tudo na carroça e desfilamos pelo centro da cidade, passando defronte à igreja e atraindo a curiosidade da população. Ao chegar ao palácio, ficamos mais de uma hora esperando que o sr. José Bonifácio terminasse uma ligação telefônica para autorizar a abertura do portão. Por fim, o carroceiro desistiu, e deixou-me com toda bagagem no meio da rua.

Depois de mais esse constrangimento, consegui me instalar em um amplo cômodo com banheiro privativo, dos dormitórios reservados para os encontros das comissões pastorais da igreja. Nos dias 3 e 4 de novembro seria realizada a Assembléia Geral da CPT em Barra, e eu poderia compartilhar meus relatos com um grande número de pessoas vindas de toda região, além de reencontrar Samuel e Djanete, bons amigos de Bom Jesus...

Saí a passeio e fotografei a maioria dos lugares que selecionara na véspera! Era uma cidade bonita, limpa, de pessoas educadas e cultas, um padrão diferente do que estava acostumado a encontrar nas cidades anteriores que visitara. Sempre fui muito bem recebido, em todos os lugares por que passei, mas Barra tem um diferencial de formação histórica que a torna diferente.

Durante muitos anos, Barra foi um centro regional, ponto de convergência de pessoas ilustres da Corte de Portugal, e espécie de entreposto comercial por onde passavam as grandes embarcações que faziam o percurso de Pirapora a Juazeiro, nos bons tempos dos vapores, com seu luxo e beleza. A cidade perdeu sua riqueza, mas não perdeu a pose e a arrogância.

Fui convidado a participar da Assembléia Geral da CPT, onde seria feita uma avaliação das ações realizadas em 2009, algumas das quais eu fiz parte enquanto permaneci na Lapa, e por isso aceitei de imediato, mesmo sabendo que, com isso, minha viagem se atrasaria mais uma semana. Mas eu não poderia ir embora sem conhecer Frei Luiz Cappio, que estava em viagem há dias.

Frei Luiz é admirado e respeitado por toda comunidade religiosa desde Barra até Bom Jesus, pelas suas posições polêmicas em defesa do povo ribeirinho, oprimido e sofrido, injustiçado e perseguido pelas poderosas “elites” de fazendeiros latifundiários. Está há trinta anos nessa região; durante anos não tinha paróquia e fazia suas peregrinações pelos lugares mais perigosos de Xique-Xique, Pilão Arcado, Barra, onde havia muito banditismo.

Foi ameaçado e perseguido, mas acabou sendo nomeado Bispo da Diocese de Barra, onde se encontra há doze anos. Nesse período fez uma grande peregrinação desde a nascente até a foz do rio São Francisco, que durou um ano, tendo se iniciado no dia 3 de outubro de 1992, utilizando todo tipo de transporte, inclusive a pé. Foi sua primeira grande manifestação em defesa do rio!

Depois, em 2005, voltou a protestar, dessa vez em virtude das obras de transposição do rio São Francisco, divulgada intensamente pelo governo federal. Dom Cappio, não conseguindo convencer as autoridades a avaliar outras propostas, entrou em greve de fome na cidade de Cabrobó, onde ficou durante doze dias.

Apesar de não conseguir o seu intento, de paralisar as obras, frei Luiz acatou as recomendações de seus devotos e suspendeu a greve de fome, com o compromisso do governo de atender a suas reivindicações. Mais uma vez não foi atendido e, em 2007, voltou a se retirar para uma capela, desta vez em Sobradinho, para um jejum que durou 22 dias e o levou a um hospital. E novamente não conseguiu demover as autoridades federais, que prosseguem com as obras da transposição, que custarão mais de seis bilhões de reais aos cofres públicos, sem considerar a urgência de um projeto de revitalização do rio São Francisco. Esse é Dom Luiz!

Pela manhã do dia 4 de novembro fotografei todos os edifícios que me interessavam, inclusive o interior da Capela do Palácio, onde existem várias obras de arte sacra de inspiração barroca.


Voltei ao hotel onde deixara algumas roupas para lavar e, para minha surpresa, lá estavam, à minha espera, os garotos que me ajudaram a sair do rio. Eles disseram que queriam me ajudar a transportar de volta ao rio a minha bagagem e não sabiam que eu tinha me transferido para o Palácio Episcopal.

Fui até a igreja matriz para fotografar o seu interior, com um séquito de meninos, chamando a atenção de todos pelas ruas. Ao sair da igreja, convidei os garotos para tomar um sorvete, pois estava muito quente; um rapaz de moto parou na rua e chamou um dos garotos; percebi que ele chamava a atenção do menino, mas não dava para ouvir o que eles falavam. Ao voltar à mesa, perguntei a ele, mas não quis me dizer a razão da “bronca”.

Voltei ao palácio, parando em uma “lan house” para atualizar meu blog e assim terminou o meu dia. Eu tomava café da manhã e almoçava com os padres e com a Irmã Irene, uma senhora de uns oitenta anos, muito simpática e amável, que me tratava como a um filho. Foram dias inesquecíveis, não fosse um contratempo muito desagradável, um mal-entendido que comprometeu, em mim, a imagem dessa cidade e desse povo de forma definitiva.

Depois de participar de todas as atividades na reunião da CPT, à noite o Samuel e a Djanete me chamaram à parte e me disseram que eu estava sendo investigado pelo Conselho Tutelar e pela Polícia Militar por envolvimento em ações de aliciamento de menores e suspeita de pedofilia! Fiquei estupefato! Logo eu???

Protestei veementemente e lhes perguntei se acreditavam naquela barbaridade. Relatei tudo o que de fato aconteceu, a ajuda das crianças, o dinheiro, o sorvete e só... era tudo o que eu sabia. Eles me recomendaram cautela, perguntaram se eu tinha alguma suspeita de quem fizera esta denúncia, e sugeriram que eu procurasse o Conselho Tutelar e a Polícia para esclarecimentos.

Pela manhã, depois de passar toda noite sem dormir e revoltado com as denúncias, sem acreditar que isso estava acontecendo comigo, relatei o ocorrido à dra. Eloá, que já sabia do fato, assim como todos os padres e funcionários do palácio. Senti-me traído!

Fui primeiro ao Conselho Tutelar, acompanhado de dra. Eloá, e fiz uma veemente declaração de protesto a essa infâmia, uma ofensa a minha dignidade pessoal e um atentado moral à minha pessoa. Falei de meu projeto e de minhas qualificações como ambientalista, minhas certificações como mergulhador e montanhista, as referências do secretário do Meio Ambiente de Ribeirão Preto, de minha história sem máculas e nenhum passado que me envolvesse em qualquer ação dessa natureza.

Depois de ser informado que não havia nenhuma denúncia contra mim no Conselho Tutelar, comecei a suspeitar das origens dessa denúncia, e me dirigi à Polícia Militar, sempre acompanhado de dra. Eloá, como testemunha do que eu estava dizendo.

Depois de esperar por um bom tempo, fui atendido pela policial Yara, que registrou cada detalhe de minha história, outro depoimento enfático de protesto àquela agressão moral contra mim. Assinei o documento, mas ainda não informei a ela as minhas suspeitas. Queira completar o quadro e voltei ao palácio.

Depois soube que quem fez a denúncia foi uma pessoa de nome Mauro, o motoqueiro que passou pela sorveteria e admoestou rudemente uma das crianças, ao invés de me procurar e pedir esclarecimentos. Aqui, as pessoas “se emprenham pelo ouvido”, como dizia um ex-diretor do supermercado onde trabalhei em Recife. É um triste hábito das pessoas que não têm o que fazer senão bisbilhotar a vida de outros, sem mesmo os conhecer...

Procurei Samuel e Djanete e lhes informei a respeito de minhas ações e de minhas suspeitas: contei-lhes como fui recebido pelo sr. José Bonifácio, como fui tratado por ele até mesmo sem me conhecer, e como fui recebido por um dos padres; eles imediatamente chamaram José Bonifácio e me pediram para repetir tudo o que dissera. Reafirmei minhas ações e suspeitas, sob o silêncio constrangedor desse personagem.

Foi quando me disseram, Samuel, Djanete e José Bonifácio, que havia mais um personagem que eu não conhecia: o policial que fizera a denúncia, e que todos eles sabiam quem era e não me informaram! Soube que seu nome era Chagas e levei essa informação à delegacia, complementando o meu depoimento.

Horas depois esse policial apareceu no Palácio para se explicar, se desculpar pelo “mal-entendido” (sic!) e que, em nenhum momento eu era “suspeito” de nada. Fora apenas cautela, uma vez que ele era um dos responsáveis por combater a prostituição infantil e a pedofilia nesta cidade.

Esclarecidos todos os pontos, ficou em mim esse sentimento de ter sido traído por aqueles que me acolheram e afirmavam sua amizade e respeito... tudo mentira? Fui iludido por todos? Sentia-me aliviado, embora a indignação não pudesse ser contida, pela gravidade das acusações e pela forma como foram conduzidas. Lembrei-me de meus primeiros contatos com a CPT e com sua ONG em Salvador, “SOS São Francisco”; diversos emails sem resposta, mensagens evasivas, atitudes cautelosas, e nenhum comprometimento.

Por outro lado, eu sempre me ofereci de “peito aberto” a servir de arauto à sua causa, sem preconceitos, sem exigências, sem requisitos... percebi, em um momento, o quanto fui ingênuo em acreditar nessas pessoas que me davam apoio, condicionado a me avaliar cada gesto, cada palavra, cada ato. Ficou em mim o gosto amargo da traição, do oportunismo, da desconfiança que jamais seria superada e que, pouco depois, determinaria o fim de um acordo que nunca existiu. Senti-me expropriado, e desisti de confiar em alguém.

No dia 5 de novembro Frei Luiz Cappio retornou de sua viagem e fez o encerramento do encontro da CPT. Fui recebido pelo Bispo de Barra às 15 horas daquele mesmo dia; relatei minha expedição, meus propósitos preservacionistas, minha atuação junto à CPT de Bom Jesus da Lapa e o lamentável incidente de Barra, assim como minhas suspeitas... ele ficou estupefato!

Disse-lhe que isso maculava minhas convicções a respeito da lealdade daqueles que me trataram bem no passado, mas não apagaria minha crença nas lutas pelas injustiças sociais, em que me envolvi tão completamente, de corpo e alma, até ser vítima de outro atentado, anterior à minha chegada em Barra, e talvez de maior gravidade, pois colocara em risco minha integridade física.

Porém, o atentado à minha integridade moral foi o que mais me impactou, e selou minha dissociação definitiva desse movimento coordenado pela Comissão Pastoral da Terra de Barra e de Bom Jesus da Lapa.

Falei a Dom Luiz sobre minhas visitas às comunidades ribeirinhas, a quem dediquei boa parte de meus esforços e de meu tempo, levando a eles minha mensagem preservacionista, mas também meu compromisso em defender seus direitos e lutar por eles.

Frei Luiz é uma pessoa carismática, de uma expressividade intensa e uma paz interior cativante, e me ouviu pacientemente. Surpreendeu-se com os dois lastimáveis eventos dos quais fui protagonista e vítima, manifestando sua solidariedade.

Ficarei em Barra até domingo, quando pretendo seguir para Xique-Xique, de onde irei percorrer o lago de Sobradinho, provavelmente de carona em barcos de pescadores, passando por Pilão Arcado, Remanso e Sobradinho, e transpondo a barragem em direção a Petrolina e Juazeiro, onde começa o submédio São Francisco, e será a penúltima etapa de minha viagem. O ponto de mutação será em Paulo Afonso.

Hoje frei Luiz Cappio deu sua bênção a minha mãe, a meu pedido, e por telefone, e também a mim e minha canoa, desejando-me sucesso no restante de minha jornada pelo rio São Francisco.

Vivo uma contradição ideológica entre minha posição agnóstica e meu descrédito religioso, e a convicção do importante papel que essa igreja progressista e libertária tem no resgate desse povo. Não posso afirmar minha fé, que não a tenho, mas também não posso renegar essa parceria que existiu, pois acreditei, por algum tempo, nos mesmos ideais que eles defendem e buscam. Seguirei o meu caminho com a certeza de minha coerência nos princípios e valores éticos que nos movem, uma quase aliança não concretizada, mas que deu seus frutos e que vivi intensamente.

Este é o meu momento, espelho de minha alma controvertida e vibrante, embora transpareça em meu semblante a paz que busco nas memórias de meu pai e nas lembranças de minha infância, desde cedo atormentada pelas questões metafísicas que ainda hoje me perseguem e atormentam. A busca da verdade e da razão primordial das coisas e da vida nunca será concretizada. No entanto, é essa a motivação maior de nossas vidas!

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