quinta-feira, 8 de julho de 2010

Comunidade Extrativista Quilombola de Piranhas, 26/10/2009 – 00h12

Sul: 12º 42' 01” – Oeste: 43º 15' 14” – Altitude: 418 metros

Saí de Bom Jesus da Lapa dia 23 de outubro, depois de oito dias de permanência! Segui rio abaixo e entrei no canal que liga o São Francisco à lagoa das Piranhas... belíssimo local, preservado e rico em vida natural, com cerca de dois quilômetros de mata fechada! Os pássaros são um espetáculo de diversidade e beleza!


A lagoa surge aos poucos, revelando sua extensão e tranqüilidade... remei lentamente, saboreando toda paisagem ao meu redor... um espelho d'água onde alguns poucos barcos se movimentavam, transportando a produção de lavradores, ou os peixes trazidos do rio. O silêncio só era quebrado pelo canto dos pássaros e pelo meu remo roçando a água com cuidado para não quebrar aquele encanto!

Fui seguindo a margem à procura da aldeia, sem perguntar a ninguém, acreditando apenas em minha intuição que, a cada dia se tornava mais aguçada e eficiente. Depois de algum tempo avistei algumas casas na encosta, e um pequeno porto. Parei ali, amarrei o barco sob um arbusto, retirei apenas meu equipamento eletrônico e subi em direção à vila. Procurava a casa de Miguel, líder comunitário e presidente da Associação dos Moradores da Comunidade de Piranhas.

Encontrei a casa, mas ele não estava; somente sua filha, Jaqueline, que me atendeu e me disse para procurar Dai, um pescador que conheci no CTL, em Bom Jesus da Lapa. Encontrei um pequeno restaurante instalado na frente da casa dele, muito simples, e falei com sua esposa, Rosa, que logo me convidou a sentar e preparou um almoço: arroz, feijão, macarrão, farinha de mandioca e abóbora, além de uma fritada de mandi¹. Estava tudo muito saboroso! As crianças logo me cercaram e perguntaram sobre minha viagem, o que eu fazia lá e essas coisas que só mesmo uma criança pode perguntar.

No início daquela semana houve um atentado à comunidade; eles vivem cercados por uma grande fazenda e foram vítimas da truculência dos filhos do fazendeiro, que aprisionaram vários animais que atravessaram sua cerca. Dizem os moradores que os próprios fazendeiros mandaram derrubar a cerca para os animais atravessarem.


Esses animais ficaram presos sem alimentação e sem água, e os agressores exigiam o pagamento de dez reais por cada animal que fosse solto. Para piorar, eles espancaram os animais: uma fêmea que acabara de ter um filhote, e o macho, que foi castrado rudemente, com um canivete sem corte. O filhote, que também tinha sido aprisionado, acabou morrendo devido à falta de alimentos e de água.

Quando foi apresentada queixa na delegacia de Carinhanha, eles soltaram os animais, e isso coincidiu com minha chegada à comunidade. Depois de almoçar, fotografei e filmei o pobre animal castrado; disseram-me que o bichinho era tão manso que comia à mesa junto com a família de Dai. Agora estava ali, com um grave ferimento infectado, correndo o risco de morte, sem assistência veterinária, que não existe na aldeia.


Esses quilombolas, descendentes de escravos, vivem nesse local há mais de um século, sem a titularidade das terras que ocupam e cuidam, à margem da lagoa. Estranho é que, mesmo tendo provas de sua presença no local, não conseguem o registro de propriedade das terras. Até vestígios de ossos humanos com mais de cem anos existem em suas propriedades, além da anciã com mais de 100 anos, já falecida.

Visitei as mandalas, técnica de plantio irrigado por gotejamento, implantada sob orientação do SEBRAE. São dez mandalas², cada uma sob os cuidados de várias famílias. Em cada plantação existem muitas variedades de hortaliças, como tomate, alface, mandioca, batata, melancia, abóbora, coco e outros de escolha dos lavradores.

Na vila residem mais de setenta famílias, quase metade ainda em casas de taipa, que serão todas substituídas por casas de alvenaria através de financiamento do governo, em um programa nacional de erradicação dos focos de besouros transmissores da Doença de Chagas. Esse cenário é usual nas comunidades do oeste baiano.


Outro projeto desenvolvido em Piranhas é a criação e comercialização de tilápias, mantidas em viveiros dentro da lagoa. Hoje são vinte gaiolas e chegarão a sessenta, com uma produção anual estimada em sessenta toneladas de pescado. Esses peixes são transferidos para uma Central de Processamento composta de duas grandes salas de preparação, um frigorífico, uma doca de expedição, além das instalações de administração, com computadores e todo mobiliário. O projeto é financiado pelo governo e será pago com a receita proveniente da comercialização do pescado.


De todas as comunidades que visitei, a de Piranhas foi a que mais se desenvolveu através de treinamentos e implantação de tecnologias modernas de produção. No meu entendimento, casos bem sucedidos como este deveriam servir de modelo para que outras comunidades consigam superar a situação de pobreza e estagnação.

Pernoitei na casa de Miguel, depois de conhecer toda comunidade. Visitei uma pequena e antiga capela, as ruínas da sede da fazenda do século XIX, os restos de um pilão de uma antiga fábrica de farinha de mandioca, um curral de madeira, hoje abandonado, além dos cemitérios dos ricos (fazendeiros) e dos pobres (escravos)!

Lá estava o túmulo de uma senhora, filha e neta de escravos, que viveu 115 anos! Foi ela quem comprovou sua origem e assegurou à comunidade o título de quilombolas. Toda terra é muito bem cuidada e protegida por cercas. As crianças nos acompanharam por toda visita; é muito emocionante ver como essa gente simples trata de suas crianças, com todo respeito e atenção, e como essas crianças são educadas e atenciosas conosco.

Saí pela manhã do dia 24 de outubro, com a intenção de cumprimentar os acampados do Movimento 17 de abril. Durante minha estada em Bom Jesus da Lapa fizemos uma visita a esse acampamento, que é controlado pela CETA, Central Estadual de Trabalhadores Rurais Assentados e Acampados, dissidência do MST.


Nossa visita ao acampamento foi motivada por uma homenagem a um líder comunitário assassinado por capangas mandados por fazendeiros. Chamava-se Afonso e sua mulher, Marilene e suas filhas estavam presentes ao encontro, além dos membros da CPT.

Foi uma homenagem muito bonita; fizemos discursos, uma passeata pelo acampamento e foram lembradas as qualidades de liderança de Afonso que durante anos coordenou atividades nos acampamentos da CETA naquela região. Havia um cacto, um mandacaru plantado no meio do terreno, próximo às barracas de lona preta.

Esse cacto representava a tenacidade e determinação dos acampados em prosseguir em sua luta, a despeito das adversidades. Lá no 17 de abril existem cerca de 80 famílias; já foram 120 quando realizaram a invasão, há seis anos. Eles vivem sob a ameaça de um despejo provocado pelas ações de reintegração de posse.

Por tudo isso, retornei ao acampamento quando saí de Piranhas. Eles queriam se despedir de mim, e acabei passando o resto do dia por lá. Conversamos muito, jogamos dominó, assisti a uma partida de futebol, fizemos almoço, jantamos e pernoitei em um dos barracos de lona depois de muitas brincadeiras de memória.

Pela manhã do dia seguinte retomei minha viagem às 06h30, com o propósito de chegar à comunidade de Mangal / Barro Vermelho até o final do dia. Passei por trás de uma ilha que separa o acampamento da cidade de Sítio do Mato, na outra margem do rio. Na ilha ganhei duas melancias de um dos acampados, que as cultiva por lá.


No entanto, um incidente muito grave mudou meus planos e afetou todo resto de minha expedição. Ainda não sei a motivação dessa ameaça que sofri, e talvez nunca venha a saber, mas imagino que esteja relacionada com minhas atividades junto à CPT e meus discursos nas comunidades, sempre em defesa dos mais fracos e oprimidos4.

Eu já tinha remado algumas horas, talvez (e hoje fica difícil mensurar o tempo, distante dos acontecimentos que irei narrar agora), quando, em um canal do rio, aproveitando a correnteza mais forte, parei de remar e resolvi comer uma das melancias que ganhei. O barco seguia lento e o lugar era muito bonito, com vegetação rica nas margens.

De repente percebo um barco vindo em minha direção; peguei o remo e endireitei a canoa para dar passagem ao outro barco; parece que ele não me via e acabou abalroando a minha canoa, que quase virou. Consegui controlar a situação e, quando me virei para o outro barco, ele manobrava e retornava em minha direção.


Parou ao meu lado; havia duas pessoas no barco e um deles estava de pé, tinha um bigode escuro, uma camiseta listrada de branco, vermelho e preto, e estava armado. O outro estava sentado junto à popa, manobrando o motor que não era de rabeta, e eu não gravei nenhum detalhe que pudesse identificá-lo. Acho que também estava armado.


O que estava de pé me ameaçou falando impropérios em voz alta, xingando-me de “comunista safado”, “alemão de merda” e outras expressões desse tipo, e dizendo que eu me afastasse desse “povinho” do rio, se quisesse sobreviver. Falou rápido, com um sotaque típico do oeste baiano, manobrou o barco novamente, e seguiu rio acima.

Eu fiquei parado, assustado e sem saber o que fazer. Parecia uma cena surreal, sentia como se estivesse em um filme antigo; parecia que sonhava; eu não conseguia pensar. Por alguns minutos (e novamente não sei quanto durou) eu deixei o barco deslizar pelo rio até retomar a consciência e me sentir seguro novamente. Olhei para o alto do rio e não vi mais o barco... a ameaça passara e fiquei pensando nos motivos da agressão verbal.

Sabia que eram pessoas mandadas, mas ignorava a razão. Devem ser meus discursos... pensei... mas os que me ouviram eram pessoas ligadas a esses movimentos de libertação do jugo dos poderosos; não deveriam me delatar... fiquei perplexo! Somente alguém de dentro desses movimentos poderia me denunciar.

Segui adiante, meio confuso, e me concentrei nas remadas; remava forte, como se fugisse do cenário de um crime, cujo protagonista era eu mesmo, e o antagonista era um inimigo do povo, talvez um fazendeiro poderoso, talvez um político reacionário...

Algum tempo depois passei perto de um casal de pescadores. Já estava mais calmo e perguntei onde ficava a comunidade de Mangal / Barro Vermelho. Mostraram-me um barranco bem adiante, de terra vermelha, e compreendi parte do nome do lugar. Agradeci e segui adiante. Mas não sabia o que fazer quando chegasse lá...

Continuei remando, como um autômato, esperando que os acontecimentos decidissem por mim, mas isso era impossível. Tinha que decidir se parava ou seguia adiante, aceitando as ameaças dos jagunços. O barranco vermelho se aproximava... um pouco antes, vi um casal de jovens andando a cavalo pelos campos; havia vários caminhos, trilhas na encosta do morro, e uma grande área que parecia um brejo ou uma plantação de arroz. Resolvi parar antes; tentar subir pela encosta e procurar ajuda.

Parei o barco e o escondi debaixo de um arbusto. Comecei a subir por uma das trilhas que levava até bem próximo de umas casas; cheguei no topo do morro e vi uma construção grande, um barracão onde havia um trator guardado, mas ninguém por perto. Parecia deserto.

Resolvi descer e prosseguir até o barranco de terra vermelha; achei que ninguém me molestaria na frente de pessoas mas, no meio do caminho, como assombração, apareceram os dois jagunços, um com o revólver na mão e o outro, aquele que me abordara antes, com uma carabina de cano serrado, ambos com chapéu. Estavam atrás de uma moita onde uma árvore maior ocultava seus corpos do resto da trilha.

Parei quando ele colocou a boca da arma em meu peito, com um tranco forte! Quase caí, mas me mantive de pé. Agora ele falava baixo, mas firme e muito irritado: “você está querendo morrer, velhote? Não tem medo do meu berro?” Eu parei, mas não tinha medo... eu me sentia como se tudo o que se passava fosse como em um filme; nada era real, nada existia... tive receio dessa reação; será que eles achariam que essa atitude era arrogância minha? Tentei parecer assustado, mas não convenci nem a mim.


Ele falava sem parar, me ameaçava e eu não conseguia me concentrar nas palavras. Lembrei-me das histórias que dois participantes do encontro de Cocos contavam; histórias de seus antepassados, de uma época em que tudo se resolvia à força, em emboscadas como essa. Contaram-me de assassinatos, crimes terríveis cometidos quase sem motivo algum...
Só ouvi o final, quando disseram que eu não entrasse em Mangal6 se quisesse viver; diziam para eu nem olhar para o lado, para não falar, nem parar o barco. Eu teria que seguir adiante! Eu não poderia falar deles, nem coisa alguma que os identificasse. Falaram e foram embora. Deixaram-me ali, de novo, sem rumo e sem vontade...

Queria andar, mas não conseguia me mover; parecia que eu pesava uma tonelada. Olhei para meu barco, lá em baixo, sob o arbusto, e me pareceu intacto. Eles não iriam destruí-lo se quisessem que eu seguisse adiante, pensei. Segui até ele, entrei.

Soltei o barco e deixei que ele descesse lentamente, sem remar. Passei por umas mulheres lavando roupas... passei por pessoas paradas no barranco; elas falavam, gritavam, mas eu não ouvia nada. O mundo estava em silêncio, mas meus pensamentos gritavam como uma multidão, falando todos de uma só vez.

Não sabia o que fazer. Peguei meu GPS e olhei minha localização, mas não adiantou: não conseguia enxergar nada! Pensei em mandar um sinal do SPOT, mas tive receio de mostrá-lo às pessoas que olhavam incrédulas para mim, em meu barco, passando por eles como se os ignorasse. Na verdade, eu os via como bonecos sem vida, como eu... um zumbi descendo o rio sem destino, sem propósitos, sem vontade.

Definitivamente, eu não iria parar ali; quando o sangue voltou ao meu cérebro, comecei a remar forte, tentando me afastar rapidamente dali. De alguma forma, aquelas pessoas representavam tudo o que eu desejava esquecer, ignorar, fugir delas. Assaltava-me uma sensação de que eu traíra aquele povo, indo sem explicações.

Nada podia fazer... parei em uma praia e acampei sem saber como montara a barraca. Nem me lembro dessa praia... nada ficou em minha memória sobre esse período... não conseguia dormir. Lembrei-me do pobre jegue castrado e pensei que poderia ter sido eu. Descobri que não sei lidar com essa situação e que não estou preparado para morrer... não dessa maneira! Quero terminar minha viagem, meu trabalho!

Decidi evitar o encontro com novas comunidades, pelo menos nessa região! Depois de Sobradinho vou pensar em como prosseguir. Preciso contar tudo isso ao pessoal da CPT, lá de Bom Jesus da Lapa; preciso de alguém que me ajude a pensar!

Mandi – pequeno peixe consumido frito ou usado como isca para peixes maiores, como o dourado

Mandala (मण्डल) é a palavra sânscrita que significa círculo, uma representação geométrica, de simetria perfeita, da dinâmica relação entre o homem e o cosmo. As mandalas de plantações lembram essas figuras esotéricas.

Fracos e oprimidos – expressão muito comum nos Livros Sagrados, demonstrando a eterna disparidade de força e de poder entre os dominadores, seja qual for a cultura e a época, e os dominados, que a eles se submetem

Mangal / Barro Vermelho – nome de uma comunidade quilombola dessa região onde a terra dos barrancos é vermelha

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