quinta-feira, 8 de julho de 2010

Boa Vista do Pixaim, 30/10/2009 – 18h57

Sul: 12º 02' 02” – Oeste: 43º 20' 17” – Altitude: 425 metros

Interessante observar as altitudes à medida que evoluo pelo rio. Aparentemente, o rio sobe e desce e as medidas foram tomadas pelo meu GPS com um grau de incerteza de +/- 3 metros. Deveria só descer! Como o rio sobe? Ainda que esteja errada a medição, minha tese é que o rio se movimenta mais pela pressão da água que vem de trás do que pela declividade do terreno; sendo assim, até pode haver algum trecho em que haja discretas elevações do terreno, causando ondas também discretas, contra o sentido natural de descida do rio.

Eu me levantei cedo, mas a neblina cobria o rio e minhas tralhas estavam enlameadas, assim como o barco. Saí às 07h40 e às nove já estava em Ibotirama, só que na margem esquerda, onde fica um pequeno povoado de nome “Passagem”. Parei o barco e liguei para a Associação dos Pescadores. Jailson, um dos diretores, foi me buscar na beira do rio. Deixei o barco na margem e fomos para a sede da Associação. Conversamos bastante e conheci também o presidente, que não me deu nenhuma atenção e ficou o tempo todo em sua sala, ao telefone, como qualquer político (ele é vereador).

Parti às dez horas com destino a Boa Vista do Pixaim. O rio estava agitado com o vento, causando “maretas”, as marolas do rio, e minhas remadas eram exaustivas e rendiam quase nada; além das maretas, o vento também segurava o barco. Eu tinha que ir bem rente à margem, quase me enroscando na vegetação, para poder progredir um pouco. O céu mostrava seu arsenal de nuvens e meu receio era encontrar a tempestade sem estar protegido.

minha previsão era chegar entre três e quatro da tarde, mas eu não sabia a distância exata, pois o GPS dá a distância em linha reta, desconsiderando as curvas do rio. Aqui, os ribeirinhos calculam as distâncias em léguas (1 légua = 6 km), o que aumenta a incerteza das medições.

Eu teria que permanecer na margem esquerda do rio, embora nas ilhas houvesse excelentes locais de pernoite. Mas era cedo e a chuva ainda iria demorar para se formar. Cheguei em um pequeno porto, isolado do rio por uma vegetação ainda incipiente, ilhotas em formação e aguapés à margem do rio. O vento me impelia sobre os aguapés quando, de repente, um peixe saltou para dentro de minha canoa! Não sabia se cuidava do peixe, para jogá-lo de volta ao rio, ou se manobrava a canoa para não encalhar nos aguapés; por fim, consegui fazer ambos.

O vento estava insuportável e eu não sabia o que fazer; percebi adiante um pequeno grupo de pescadores em um canal, no meio dos aguapés e manobrei a canoa em sua direção. Perguntei a eles sobre o caminho para Boa Vista do Pixaim e me disseram que eu já estava quase lá, que deveria voltar para o rio, contornar a margem e parar.

Fiz o que me disseram e voltei para a ventania e as ondas; mas o que vi logo depois foi um enorme pasto, as terras ressequidas do pisoteamento constante do gado, e algumas casas muito distantes da margem. Desci do barco e andei um pouco acima no barranco, mas não poderia ser por esse caminho. O jeito foi continuar...

Voltei ao barco mais uma vez e comecei a descer o rio quando uma enorme chata passou por mim, subindo o rio lentamente. Devia ter uns 200 metros de extensão e era empurrada por um pequeno rebocador com um motor poderoso! Como essa balsa não atolava no rio? Parei para fotografar e o fiz com muita dificuldade, pois o vento me arremessava em direção ao barranco sempre que parava de remar; mas não podia deixar de registrar isso!

Segui meu curso e, logo após, um lugar que parecia uma miragem, de tão bonito! Era uma praia em formato de uma enseada, com vegetação rasteira isolando essa água quase azul de tão cristalina, duas crianças tentando tirar um barco de madeira encalhado e um pescador. Entrei por uma passagem tão estreita quanto a largura do barco, e entrei na lagoa azul; desci do barco pela terceira vez e perguntei a ele como faria para chegar à aldeia. O rapaz me disse que logo adiante já seria Boa Vista do Pixaim.

Senti muita vontade de ficar por ali, acampar e curtir aquela praia belíssima, tomar uns banhos... mas precisava prosseguir. Logo depois dessa praia havia uma sucessão de pequenos portos no barranco alto que se seguia. Parei em cada um deles onde havia barcos ancorados, subi o barranco, mas só o que via era um imenso terreno semi-alagado, às vezes com gado e uma trilha quase abandonada que se perdia no matagal.

O barranco já estava terminando quando decidi procurar alguém. Deixei a canoa, com um certo receio, e caminhei pela trilha longa e sinuosa. Depois de algum tempo encontrei dos rapazes, que me olhavam desconfiados. Perguntei-lhes sobre a comunidade e mencionei o nome do líder local. Meio ressabiados, me disseram para seguir adiante que eu encontraria o povoado. E assim foi.

Segui a trilha até a aldeia e, finalmente, encontrei Ivonaldo! Apresentei-me e fui bem recebido; logo ele providenciou um carro para buscar meu barco e as tralhas. Aléssio levou-me até outro porto, mais abaixo, onde havia até uma rampa de terra, bem mais acessível.

Deixei-o lá e fui beirando o barranco, acompanhado de várias crianças, procurar o porto onde deixara o barco. Levei-o pelo rio e o colocamos na Veraneio.

Desta vez deu tudo certo e fui alojado em uma casinha vazia ao lado da residência de Aléssio. O banheiro ficava no terreno ao fundo e era compartilhado com a família dele. Enquanto eu me lavava, Aléssio convocou a comunidade para uma palestra. Chegaram umas 50 pessoas, mesmo com a possibilidade de chuva.

Falei bastante sobre os problemas do rio, enfatizando o papel dos pescadores e lavradores na preservação da Natureza; discorri sobre a poluição, o desmatamento, as barragens, tomando o cuidado para explicar tudo em linguagem simples e objetiva, sem ofendê-los, pois sabia que eles também contribuíam para a devastação do rio.

À frente do barracão onde falávamos, um pequeno riacho de esgoto desfilava entre as casas; parecia uma praça, mas havia porcos, galinhas e cabras soltas entre crianças e adultos; ao fundo, um lixão preenchia as margens de uma lagoa de água de chuva, bem diante das casas... famílias enormes, com seis a doze filhos eram comuns!

Sempre tive consciência das dificuldades de minha missão quase impossível de conscientizar pessoas para quem os problemas imediatos de sobrevivência eram avassaladores e bloqueavam seu entendimento de questões subjetivas, como a preservação ambiental.

Não sei se agradei, mas disse o que pensava, critiquei empresários, fazendeiros e políticos, mas não consegui aplausos. Entraram mudos, saíram calados! Papel ingrato o de um ambientalista messiânico!

Introduzi a questão do defeso1, da piracema, que paralisa a pesca de novembro a fevereiro, todos os anos, para que a população dos peixes possa se recuperar, e os pescadores, vivendo do seguro desemprego, possam se preparar para nova temporada de pesca.

Até parece uma boa solução, mas além de não ser rigorosamente cumprida, eles alegam que várias espécies desovam antes, em setembro, e ficam de “resguardo” desde agosto. Resguardo é a época em que as ovas se formam dentro das fêmeas; capturá-las nesse estado é tão daninho e pernicioso quanto no período da desova.

Os pescadores de Pixaim querem desenvolver os viveiros de tilápias na sua lagoa, como o fazem os pescadores de Piranhas. É uma solução de produtividade, mas que descaracteriza a produção local, além do enorme risco, quase incontrolável, de contaminar os rios com mais uma espécie exógena, como ocorreu com o tucunaré.

Infelizmente, não há solução satisfatória e sem contra-indicações para tantas intervenções humanas! Primeiro, a agressão maior, da construção dos reservatórios e barragens; depois, o desmatamento sem controle, chegando à extinção da mata ciliar em grande parte das margens do rio e de seus afluentes; e, finalmente, a contaminação das águas pelos esgotos domésticos, resíduos industriais e agrotóxicos!

Sem uma política voltada primordialmente para o meio ambiente e não para o agro-negócio, não há solução satisfatória, e o desfecho final já pode ser escrito. O que as gerações futuras farão de um mundo devastado e em extinção não se pode conceber. Afinal, caminhamos a passos largos para o ponto sem retorno na destruição da maioria de nossos ecossistemas.

Mentir para nós mesmos dizendo que o desmatamento está controlado, e que hoje se desmata menos do que no passado, é afirmar que somos idiotas, e que apenas estamos adiando o prazo do “juízo final”! Precisamos admitir publicamente que uma poderosa minoria, uma “elite” ou tropa de choque ruralista decidiu, por todos nós, que o desenvolvimento do agronegócio é a “redenção da fome” e de todos os males na face da Terra! Quem acredita nisso?

Imobilizado pelo clima, 31/10/2009 – 07h21


Choveu forte nessa madrugada! Por mais de duas horas a fúria da tempestade atingiu Boa Vista do Pixaim, alagando os baixios. Amanheceu sob intenso nevoeiro, que se prolongava no horizonte e se mantinha estacionário sobre as serras das cercanias.

Aléssio alertou-me sobre os riscos de prosseguir viagem sob essas nuvens carregadas, pois a precipitação das águas pode ser iminente, e eu ser pego em locais de difícil proteção. O perigo está nas ventanias seguidas de chuva intensa, comuns nessa época do ano. Segundo ele, essas condições podem permanecer por muitos dias, dificultando a navegação.

Estou constrangido, pois esse povo é pobre, vive em condições precárias e estou consumindo recursos que podem faltar à sua família. Se tiver que permanecer aqui por mais alguns dias pretendo contribuir para as despesas, sem ofender a hospitalidade e a generosidade de Aléssio. O interessante é que aquilo que para nós, vivendo em grandes centros urbanos, são situações difíceis de se lidar, para essas pessoas humildes se resolve facilmente.

Estou em uma pequena casa, vizinha à de Aléssio, para onde ele puxou um fio e instalou uma lâmpada. A casa possui dois sofás na sala e um colchão colocado no quarto, além de armários na cozinha e no quarto. O banheiro fica no quintal e é compartilhado pelas duas casas. Como de hábito, a água é fria no chuveiro.

Dentro da casa não tem água. Como em todas as comunidades, a água é retirada do rio, sem tratamento, e guardada em caixas; neste caso eles consomem água filtrada para beber, apenas. Muitas comunidades usam a água do rio sem filtrar ou ferver.

Quase todas as casas só possuem reboco e pintura nas fachadas. E ainda existem muitas casas de taipa2 onde a incidência do barbeiro transmissor da doença de Chagas é notória e consta das estatísticas.

A comunidade obteve a certificação de reconhecimento de quilombola e sua área foi demarcada por cercas que a isolam em todo perímetro, exceto os acessos à estrada e ao rio. Originalmente, havia dois núcleos habitados: o atual e outro às margens da lagoa. Com a certificação, os quilombolas foram obrigados a optar por um deles.

Hoje residem mais de 300 famílias e é comum, como em todo sertão baiano, famílias numerosas, com seis a até doze filhos! A atividade econômica predominante é a pesca, e um comércio incipiente de pequenas vendas e bares. Não há lavoura, e muitas áreas baixas são permanentemente alagadas, e tornaram-se depósitos de lixo. Quase todas as ruas são irregulares e de terra; não há um traçado urbano e as casas não obedecem a nenhuma orientação lógica de alinhamento ao meio-fio. Isso dificulta o trânsito de veículos, quase inexistentes, dentro da comunidade.

Há apenas uma escola de ensino fundamental, pois o ensino médio foi desativado, possivelmente por falta de professores e de alunos. Os jovens não são estimulados a estudar, pois não há empregos, seja nas comunidades, seja nas cidades de toda região, para onde afluem pessoas em busca de oportunidades.

Só existe policiamento nas cidades, e quando são chamados nas comunidades, demoram para chegar e não investigam. Existe uma polícia truculenta que atua no interior do oeste baiano, e é conhecida como “polícia do cerrado” ou “polícia da caatinga”. Atuam geralmente à noite, espancam e matam sem respeitar qualquer lei.

As prefeituras, quase sempre muito pobres e vivendo apenas de recursos do Fundo de Participação dos Municípios e dos salários de aposentados e pensionistas, não investem nesses povoados, nas estradas de acesso a eles, quase sempre muito precárias.

Assim, as promessas do “programa de aceleração do crescimento” se evidenciam apenas nas placas de obras nas cidades. Essas obras foram agrupadas sem nenhum critério de planejamento integrado, com pretensões eleitoreiras. Não há tratamento de esgotos, que estão sendo apenas canalizados para o rio sob a denominação de “esgotamento sanitário”. Muitas dessas obras já existiam e estavam paradas e hoje as placas demonstram que seus prazos estão vencidos, enquanto que o material comprado apodrece ao lado das obras.

Não há projetos ou obras de contenção de barrancos degradados; não há investimento em viveiros de mudas ou de pássaros para recuperação das matas e de seu repovoamento. A única evidência de apeixamentos são os viveiros de tilápias nos engradados...

As lagoas de reprodução natural, via de regra não são protegidas nem fiscalizadas. Aliás, não existem fiscais do Ibama ou de qualquer outro órgão federal responsável pela conservação do meio ambiente; nos 1.500 km já percorridos desde Vargem Bonita, só encontrei um barco de fiscalização, pouco interessado em quais e como os peixes foram capturados por pescadores.

1 Defeso – ação do governo que determina a paralisação das atividades pesqueiras profissionais com tarrafa e redes, para que a população de peixes possa se recuperar. Coincide com o período da piracema, a subida de rio dos peixes migratórios, para desova. Para compensá-los, o governo lhes paga cinco meses de um salário-desemprego.

2 A técnica da construção de casas de taipa (ou taipa de mão), também conhecida como pau-a-pique, barro armado, taipa de sopapo ou taipa de sebe, consiste em armar uma estrutura de ripas de madeira ou bambu com uma mistura de barro. É uma técnica simples de construção, muitas vezes tratada com preconceito pela aparência rústica e pelo problema de hospedagem do besouro que transmite a doença de chagas. Foi trazida pelos portugueses e é muito utilizada no meio rural, no sertão central, no oeste baiano e em todo interior nordestino.

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