quinta-feira, 8 de julho de 2010

Bom Jesus da Lapa, A 1.400 km da Foz – 15/10/2009 – 05h13

Sul: 13º 15' 20” – Oeste: 43º 25' 11” – Altitude: 441 metros

Cheguei na Lapa ontem às 15 horas. A aproximação da cidade pelo rio é impressionante! Um morro arredondado de rochas calcárias se sobressai no horizonte plano e monótono de caatinga. Quase nada é verde... apenas umas áreas de fazendas que preservaram algumas árvores e irrigaram um gramado enorme, onde o gado pasta pachorrento, à sombra de mangueiras e coqueiros isolados.

O rio parece se expandir e mostrar-se amplo e plácido, como uma imensa lagoa marrom, refletindo o azul celeste. Ao fundo, uma extensa ponte liga Bom Jesus ao oeste baiano. E o morro enorme, solitário, pontiagudo em suas manifestações cársticas, ocultando em seu ventre a caverna mística do Santuário da Lapa.

Parei em uma ilha, tomei um banho “de gato” e coloquei uma roupa menos encardida da longa permanência no rio. Liguei para Samuel, coordenador da Comissão Pastoral da Terra nessa região do São Francisco. Ele estava em Barra, na recepção ao presidente Lula que visitava as “obras da revitalização”, uma proposta para disfarçar o constrangimento de fazer a transposição sem antes recuperar a devastação do rio.

Falei com o Juliano, da CPT de Bom Jesus da Lapa e ele me disse que iria me buscar na beira do rio. Passei por baixo da ponte e procurei um local onde pudesse encostar minha canoa. Logo à frente havia um pequeno porto bem movimentado, com quiosques de palha e muitos barcos, pequenos e grandes, atracados. Fui para lá e encostei o barco.

Liguei também para o secretário de Agricultura de Bom Jesus da Lapa. Ele se prontificou a me ajudar a desembarcar. Eu precisava tirar a canoa e toda minha tralha da água, pois pretendia ficar lá por alguns dias. Tinha combinado com a Mônica, minha filha, de passarmos o final de semana juntos e ela chegaria na sexta-feira.

Será, com certeza, uma das mais fascinantes visitações que farei nesta viagem, tanto pelos aspectos místicos do lugar, como pela companhia de minha filha e a participação nas atividades da CPT na região. Eu tinha uma grande expectativa desse encontro.

Esse portinho é bastante problemático, pois fica a 1,5 km da cidade, tem um canal do rio que o isola das vias de trânsito, e ninguém conhece direito o caminho para chegar. Pelo menos as pessoas que iriam me ajudar a sair de lá... foi necessário contratar uma carroça para atravessar o canal, pois nem o secretário nem Juliano sabiam como sair.

Juliano chegou com a carroça e logo colocamos tudo dentro e atravessamos o canal. Do outro lado estava a caminhonete do secretário, toda limpinha, impecável, e ele constrangido em levar minha carga barrenta para alguma pensão ou hotel.

A carroça acabou levando tudo para o Centro de Treinamento de Líderes, vinculado à igreja católica e aos movimentos sociais apoiados pela CPT. Eu segui com o secretário para um pequeno e caro hotel, de sua propriedade, no centro de Bom Jesus da Lapa, onde fiquei. Combinei com Juliano que iria para a CPT assim que me instalasse no hotel.

Sinto-me cada vez mais próximo das ações missionárias da CPT e da ONG SOS São Francisco, principalmente pelo seu compromisso com as pequenas comunidades de quilombolas e indígenas ribeirinhas. Parece-me um bom caminho para compreender a realidade do rio e de seus habitantes, seus costumes e suas mazelas sociais.

Hoje me reunirei com Juliano e domingo com o Samuel, para definir minha participação efetiva nesses movimentos. Daqui para a frente, formalizado esse acordo, minha expedição passará para uma nova fase, comprometida com as causas da justiça social e da inclusão desse povo subjugado pelas elites do poder econômico.

Depois do último acampamento, esse trecho do rio, apesar de longo e cansativo, foi excelente, tanto pelo rendimento do barco, como pelas magníficas paisagens, inúmeras ilhas e a infinidade de aves aquáticas, presentes em todo percurso.

Desde Malhada noto a presença, pela primeira vez em todo rio, de plantas aquáticas de bulbo, tipo aguapés, disseminadas em pequenas colônias nas margens e em trânsito rio abaixo. Provavelmente será uma mudança definitiva, dado o grau de proliferação desse tipo de vegetação nos rios. Estranho não haver delas antes...

Já tenho formatado, mentalmente, o esboço de meus discursos daqui para a frente, e que se aprimorará ao longo do caminho, e que versa, primordialmente, sobre o processo de conscientização da sociedade, o meio ambiente e a responsabilidade dos homens pela devastação que tem causado ao longo dos séculos.

Será um discurso único, que poderá conter a essência de meu trabalho e funcionar como fio condutor da narrativa de meu livro, dando-lhe a forma e a estrutura de que necessito para organizar todo material coletado e as idéias desenvolvidas.

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