quinta-feira, 8 de julho de 2010

Cabrobó

Minha chegada a Cabrobó não poderia ter sido mais complicada! Remei durante 8 horas, desde Orocó, contra um vento forte e muita "mareta"! É cansativo e improdutivo enfrentar o vento, mas não tinha alternativa; precisava chegar a Cabrobó, final da penúltima parte de minha expedição!

trajeto é ponteado de ilhas, ilhotas, pedras e corredeiras, de muita beleza, mas exigindo atenção redobrada e muito cuidado para não bater nos inúmeros "stonebergs" do rio! Essas pedras imensas às vezes ficam totalmente submersas, muito próximas da superfície da água, prontas para virar qualquer embarcação que apenas resvale o casco em sua borda.

Perto de Orocó já havia passado por uma situação difícil: um trecho acidentado, com poucas alternativas, exigindo decisões rápidas, muito reflexo e, especialmente, SORTE! Entrei na corredeira com determinação e logo percebi que a “encrenca” era maior.

De um lado, as pedras se avolumaram rentes ao casco de minha canoa; o ritmo rápido do rio não dava margens para indecisões; joguei o barco de lado e puxei de volta novamente, conseguindo evitar o impacto! De outro lado, as ondas se formavam perigosamente paralelas à embarcação: se elas chegassem dessa maneira, não haveria como manter o barco na água; com o remo fiz um pivô lateral, girando a canoa sobre seu eixo; consegui colocá-la de frente para as ondas, mas o impacto foi forte e muita água entrou de uma só vez.

Voltei a girar o barco e puxei o remo com força, seguidamente, antes que outra onda me atingisse; consegui, finalmente, sair da zona de formação de ondas e parti para a segunda bateria de corredeiras; tinha que mudar para a outra margem, onde pareciam estar os obstáculos mais fáceis. Remava intensamente, quase no limite de minhas forças, pois não poderia errar: o barco já tinha muita água e qualquer erro seria fatal.

Enfim, consegui superar esses obstáculos... parei em um trecho recoberto de aguapés e esvaziei a canoa lentamente. Bebi água, retomei o fôlego e segui adiante. Não imaginei que, depois de Monte Carmelo, houvesse outro trecho complicado assim.

Quando chegava a Cabrobó percebi que havia outro obstáculo, agora intransponível: o rio fazia uma curva em "S" em torno de uma enorme pedra, sobre a qual várias pessoas se divertiam. Mal tive tempo de jogar o barco sobre a margem, em um matagal. Saltei para o barranco e examinei, de longe, a corredeira: sem nenhuma possibilidade de êxito! Não dava para passar.

Com muito esforço remei de volta, rio acima, até uma bifurcação; girei o barco e me joguei "no escuro", fazendo uma curva fechada à esquerda; a canoa passou direto sob uma árvore muito baixa e me arranhei com seus espinhos, mas consegui passar. A alegria, porém, durou alguns segundos: à minha frente, outra árvore despencada sobre o rio, já morta!

Bati de frente e o bico da proa se alojou embaixo de um galho! A água entrava rapidamente no barco; não tive tempo de pensar: firmei o pé no tronco e joguei meu corpo para trás, puxando o barco. Na terceira tentativa ele cedeu e saiu de baixo da árvore. Eu me virei e amarrei a popa em uma forquilha, imobilizando o casco. Tentei descolar o barco da árvore, mas cada movimento fazia a canoa girar de lado, entrando mais água. Estava preso!

Tirei a água lentamente, com uma esponja, pois a caneca que eu tinha deve ter caído na água. Com o barco estável, escalei o tronco e pulei para o barranco. Subi rapidamente e gritei por ajuda, mas ninguém respondeu. Temia que o barco virasse e eu perdesse todas as minhas anotações, fotografias, filmagens, tudo o que representava meu trabalho até então. Desisti...

Liguei para Paulo, secretário municipal de Cabrobó que, prontamente, se dispôs a me ajudar. Pediu alguns informações: eu estava a 1,84 km da cidade, pelo meu GPS; estava em um canal do rio (eles chamam de rio pequeno; o rio grande passa por fora da ilha de Assunção) e ouvia sons de animais (cães, galinhas e cabras). Era tudo o que eu soube informar. Alguns minutos depois ele chegava, com mais dois secretários de governo que, com a ajuda de dois índios Trukás, me ajudaram a transportar as sacolas que eu levava no barco para o barranco, em sucessivas escaladas da árvore caída. Aos poucos, tudo se resolvia...

Passei, por fim, a canoa, e seguimos para a cidade. Depois eles me disseram que, por aquele caminho, não seria possível eu chegar: havia outra corredeira, logo abaixo, igual ou pior do que aquela que eu avistara. Levaram-me para a pensão de dona Júlia, uma simpática velhinha, mãe de dona Socorro. Era uma pensão simples e agradável.

À noite jantamos juntos e conheci outros membros do governo municipal, inclusive o prefeito. Comemos bode assado (que, na verdade, era um carneiro). Fui dormir cedo, pois estava cansado.

Paulo tem sido um grande amigo, essencial para minha permanência bem sucedida nesta cidade: viabiliza tudo com a maior facilidade e está sempre disponível para me ajudar no que for preciso. Sem sua ajuda, minha passagem por Cabrobó talvez nem tivesse sido percebida pela população, como aconteceu em outras cidades...

Cabrobó é uma cidade de 35 mil habitantes, muito agradável, com estilo de vida de cidade de praia, bares e cadeiras nas calçadas, todo mundo se conhecendo e se relacionando com simpatia e em paz. Essa imagem verdadeira é muito diferente daquela transmitida pela imprensa: há muito tempo Cabrobó não conhece a violência e se tornou uma cidade progressista e moderna, com bons restaurantes, padarias e um comércio ativo e forte.

Ontem foi um dia especial: fui entrevistado por duas rádios: a Comunidade, rádio local, e a Grande Rio, que atinge 23 municípios, inclusive Petrolina. Depois fiz palestras em três escolas públicas.


Hoje visitei as polêmicas obras da transposição: muito grande e impressionante! Mais de 8 mil trabalhadores, uma imensidão de canais que levarão as águas para outras bacias, perenizando rios e prometendo melhorar as condições de vida dos sertanejos nordestinos... agora visitarei a comunidade de índios Trukás, na ilha de Assunção. Amanhã sigo para Paulo Afonso. Isso encerra essa etapa e estarei a 250 km da foz...

O interesse de Cabrobó pela Transposição é a contrapartida da construção de uma hidrelétrica em seu município, o que lhes renderia “royalties” por toda vida, e a perenização de um dos seus rios, afluente do São Francisco.

Também contam com o uso da água dos canais da transposição para projetos de irrigação de terras do sertão, o que não é mencionado nos projetos do governo federal. Segundo me informaram, existe uma previsão de “apagão” de águas nos centros urbanos do nordeste para 2016, o que justificaria esta obra gigantesca e bilionária.

Além disso, comentam que existe uma verba anual de um bilhão de reais para projetos de revitalização. Que projetos? Segundo eles, 129 cidades já possuem planos (em execução) para tratamento de esgotos, não só na calha do São Francisco, mas em seus afluentes.

Dizem ainda que 80% dos esgotos de Cabrobó já são tratados e chegarão a 100% até o final desta gestão. Enfim, dados que não são divulgados pelo governo.

Eles ainda mencionaram a hipótese de transposição do rio Tocantins para repor a perda de águas do rio São Francisco. Segundo dizem, uma obra muito mais econômica, uma vez que a cota daquele rio é mais elevada e não haveria necessidade de estações elevatórias e grandes açudes intermediários para sua execução. Então, por que não foi incluída neste projeto? Muitos debates teriam sido evitados.

Não resta dúvida que uma obra dessa magnitude favorecerá o desenvolvimento da região, seja pelos milhares de empregos gerados, seja pelos benefícios diretos da perenização de rios de outras bacias hidrográficas do Nordeste. Assim como os projetos de irrigação transformaram Petrolina em uma cidade progressista e moderna, também a transposição fará o mesmo para essa região.

Provavelmente, se o governo federal tivesse demonstrado maior transparência nos estudos de impactos ambientais e tivesse ouvido a população que seria afetada pelas obras, adaptando o projeto às expectativas desses povos atingidos, não teria encontrado tanta resistência. As comunidades indígenas e as populações mais pobres de Pernambuco e do norte da Bahia deveriam ter sido consultadas.

As audiências públicas realizadas com tanta pressa denotaram os interesses políticos que prevalesceram na contratação dessas obras. Por que não se cumpriram os ritos processuais estabelecidos para as licitações? Por que não se permitiu que essa população fosse ouvida?

Há muitos anos ouve-se falar da “indústria da seca” e dos mecanismos de poder que mantêm uma população de milhões de seres humanos atrelada às verbas que se consomem sem trazer melhoria de qualidade de vida permanente. No entanto, os carros-pipa continuam como a única fonte de salvação nas épocas de seca.

Se há méritos nessas obras, por que não confrontá-los com os danos que possam vir a ser causados? Sabemos das dificuldades de se conduzir processos licitatórios, dada a complexidade da legislação. E a preocupação social às vezes nos parece mais importante que as regras da administração pública. Mas há que se cumprir as leis.

O que se deseja é um programa mais amplo, abrangente e integrado que possa dar fim a tanto desperdício do dinheiro público. Jamais a transposição deveria ter sido iniciada sem estar atrelada a um projeto consistente de revitalização do rio São Francisco e de seus afluentes.

Certamente, se as comunidades que habitam as margens desses rios tivessem sido beneficiadas por projetos que determinassem o fim dos conflitos fundiários e lhes assegurasse a posse definitiva das terras que ocupam há dezenas, senão centenas de anos, certamente a transposição teria sido aceita sem restrições. Esperamos que o governo reflita sobre isso e reformule seus projetos.

Minha visita aos Trukás foi excelente! Ednaldo Cirilo, descendente de Antônio Cirilo, líder dos indígenas, levou-me a conhecer grande parte da ilha, habitada por cerca de 4.000 trukás em vinte e cinco aldeias. A ilha de Assunção era, na época da colonização, habitada pelos indígenas, mas os portugueses os fizeram escravos para trabalhar nas lavouras de cana de açúcar. A Igreja Católica1, que ajudou na captura desses índios, herdou a ilha e a transferiu para famílias ricas, que a usavam como local de veraneio e criação de gado.

Somente no início do terceiro milênio é que os Trukás recuperaram a posse de suas terras. Hoje, além da ilha de Assunção, mais 84 ilhas fazem parte do patrimônio indígena.

1 Fonte: estudos antropológicos publicados até 2009, comprovam a participação ativa da igreja (ver bibliografia). É sabida e notória a presença de religiosos em todo o processo de colonização. As missões jesuítas provocaram a miscigenação e perda de identidade cultural dos povos tradicionais. Conseqüentemente, sua submissão aos invasores europeus.

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