quinta-feira, 8 de julho de 2010

COMPLEXO DE PAULO AFONSO

De volta à Bahia, 27/11/2009 – 19h57

Sul: 09º 24' – Oeste: 38º 13' 52” – Altitude: 254 metros

Depois de muitos contratempos e adiamentos consegui sair de Cabrobó e chegar a Paulo Afonso. Saí de lá às 13h30 e cheguei às 17h00. A estrada é boa, mas a van parou em Belém de São Francisco, Floresta e Petrolândia para pegar e deixar passageiros, com minha canoa amarrada na capota.

Cruzamos a obra do eixo leste da Transposição do São Francisco, que está bem no início, ainda em fase de terraplenagem. Existe um grande projeto de irrigação em Petrolândia, mas o resto da caatinga está desolador, pois não chove há meses nessa região.

Passamos perto da barragem de Itaparica. O lago é azul como o de Três Marias, mas a barragem não apresenta nenhum atrativo que justificasse perder mais uma semana remando. Creio ter tomado a decisão correta, optando pela portagem.

Cheguei à casa de Alzeni, pesquisadora indicada pela índia Tumbalalá, Maria José, como meu contato nesta cidade. Ela é bem mais jovem do que eu pensava, assim como seu companheiro paulista, o nissei Paulo.

Alzeni coordena o CPP¹ daqui e trabalha com comunidades de pescadores e indígenas, na Universidade Estadual da Bahia. Depois de uma conversa rápida, ela me indicou uma pousada, próxima dali e instalada na sobreloja de um posto de gasolina.

Guardei a canoa na garagem da pousada.

Pousada em Paulo Afonso, 28/11/2009 – 08h00
Estou me concedendo o luxo de uma pousada simples mas confortável, com um quarto muito grande, ar condicionado e frigobar, café da manhã e um sistema estranho de controle: para abrir a porta é preciso ligar para a padaria, onde também é servido o café da manhã, relativamente diversificado.

Pretendo viajar na segunda-feira com destino a Piranhas, em Alagoas, a cerca de 55 km de Paulo Afonso. Será o início da última etapa de minha viagem e talvez a mais tranqüila. Até a foz serão cerca de 250 quilômetros, que pretendo fazer em cinco dias, mais o tempo que permanecerei em Piranhas.

Foram meses de planejamento, aventuras, desgaste físico extremo, contato com populações quilombolas, indígenas e assentados, visitas a museus, conversas com políticos, líderes religiosos, líderes comunitários, pescadores, visitas a monumentos históricos e às obras da transposição, paradas e interrupções não programadas, portagens complicadas, sol extenuante, ameaças e tentativas de intimidação...

Teria valido a pena por quaisquer desses motivos, seja pela convivência com um povo que eu sequer imaginava como viviam, seja pelo enriquecimento cultural e pela possibilidade de registrar em fotografias, em vídeo e em meu diário de bordo.

Mesmo abrindo mão de quase 500 quilômetros de rio, dos quais me desviei deliberadamente ou induzido por informações erradas, terei percorrido, ao final, cerca de 2.300 quilômetros a remo, sem qualquer ajuda externa e sem apoio ou patrocínio! Mesmo assim, considero minha missão cumprida com êxito.

Visita à aldeia Truká Tupã, 13h52
Nas cercanias de Paulo Afonso vivem 26 remanescentes dos Trukás, de mesma etnia daqueles que habitam a ilha de Assunção, em Cabrobó/PE. Por alguma razão eles se dispersaram quando fugiam da escravidão e vieram parar aqui.

Vivem pobremente, em casas de taipa, em uma extensa área de caatinga, desprovidos de água, dependentes de carros-pipa, de uma bomba de recalque de uma fazenda, e das chuvas. Toda lavoura, plantada com feijão de corda, mandioca, melancia e hortaliças foi perdida por falta de irrigação, pois a bomba d'água foi desligada por falta de pagamento. Existem seis açudes em suas terras, na parte alta das terras, mas estão secos. Eles irrigam as lavouras por gravidade.

Alguns coqueiros ainda persistem, mas sem produção; e a criação de animais se restringe a alguns porcos, ovelhas, cabras e galinhas, além de umas poucas cabeças de gado. Vivem do pouco que colhem e da eventual doação de cestas básicas feita pela Funai; mas este ano só receberam uma cesta básica, insuficiente para o consumo de um mês dessas famílias.

Nos limites de suas terras existe um córrego seco, cujas areias estão sendo retiradas por um trator. Esse trabalho, feito sem nenhum cuidado, está alargando o leito do riacho e acumulando enormes quantidades de areia em vários pontos. É imprevisível o que sucederá com o riacho nas próximas chuvas.

Interpelado, o autor dessa extração de areia nos disse que todos os anos ele compra a areia de vários riachos e que isso não causa problemas. O Ibama, certamente, ignora esse fato!

Aproveitamos essa caminhada pelas terras dos Trukás-Tupã para conhecer um pouco de seus costumes e também gravar um depoimento de sua cacique para nosso trabalho. Almoçamos com a família da cacique e visitamos a oca de cerimônia Toré, que é realizada semanalmente na aldeia.

Depoimento da Cacique Neide
Aldeia Truká Tupã de Paulo Afonso – 28/11/2009 – 10h15

“Eu sou a cacique de meu povo, aqui da aldeia Truká Tupã de Paulo Afonso. A vida da gente é uma vida muito sofrida. Nós já vínhamos sofrendo na terra que a gente estava ocupando, que era uma terra dada pelo prefeito, e que era uma área muito perigosa, que os bandidos sempre ficavam querendo mexer 'com nós'; eles cobriam o rosto 'prá' entrar; atiravam, se escondiam quando tinham algum problema de morte no bairro 'que nós estava'.

O que 'nós tinha' eles roubavam, que era galinha, porco, era ovelha, arame, estaca e mais alguma coisa. Então a gente viu que não dava 'prá' gente viver lá, senão ia até perder a vida. Eu não podia nem viajar atrás de algum benefício pro meu povo. Aí o fazendeiro daqui se chama 'seu' José Balbino. Aí ele já fazia tempo que convidava 'nós prá vim prá cá', mas eu achava que 'nós ia' sofrer mais através do alimento.

Aí quando foi o ano passado, acho que no mês de dezembro, a CONAB mandou 'nós ter' cesta [básica] e nós tivemos força 'prá vim prá' essas terras de caiçara, que se chama Alto do Arapicum. Aí 'nós se sentimos' mais fortes e eu achei que nós 'não ia' sofrer através do alimento, porque eles tiveram essa compaixão, nosso pai Tupã encaminhou eles 'prá' nossa frente, nossa cesta chegou e eu disse: 'pronto, meu povo, agora é hora de 'nós ir prá' terra, o dono está oferecendo 'prá nós plantar' e nós vamos 'se entreter prá' plantar e o que 'nós tem prá' comer uns dias enquanto faz a plantação e 'vocês ir' procurar serviço na rua, pela rua', que eles trabalham na rua também, podando planta. É um serviço muito arriscado, trabalhando de facão em cima da plantação, e também 'abuso' na rua, que eu queria que todos trabalhassem dentro de nossa área indígena, porque eu 'tô vendo eles' toda hora. Eu sou muito preocupada com meu povo.

Quando 'chega de sete horas' eu quero ver todo mundo dentro de nossa aldeia, porque para mim todo mal acontece com eles; festa na rua eu não aceito eles freqüentar. A nossa festa é o nosso Toré, que é o nosso ritual, que dá a nossa força e a nossa fé. É o que Deus deixou, e nossos antepassados. Então 'não tem precisão de ir' em outras festas e se misturar com os não-índios, para não perder a vida, não perder sua moral.

Assim mesmo eu me considero uma mulher muito discriminada. O meu documento, em 2004-2005, foi rasgado dentro da Funai. E 'nós foi que teve' que pagar por tudo isso que ele tinha feito 'com nós', porque quem viu ele rasgando meu documento e querendo me bater, puxando minha blusa, 'jogando eu praqui, jogando eu pracolá', não pode falar por nós porque tinha medo de perder os empregos dele. E aí eu passei por isso e é um 'causo' que eu nunca esqueço, não vou esquecer. Não sou de guardar mágoa, nem ódio, mas sempre quando eu lembro, quando eu acordo, minhas lágrimas descem.

Quando eu era pequena minha mãe dizia: 'meus filhos, eu vou trabalhar e vou deixar os documentos aqui guardados'. E aí pegava e colocava em cima das palhas; assim, entre as palhas, que a casa era de palha; porque nem pode tocar fogo nos documentos e nem rasgar porque a polícia prende. E hoje eu [me] acho discriminada por isso, pelo conselho que minha mãe deixou. Eu achei que não ia ficar por isso, pelos meus documentos. E o documento é uma declaração que veio dos Truká, com nosso nome e o nome de nosso órgão federal, a Funai, e nossas lideranças Truká de Pernambuco.

E acho que quando for o tempo de Deus me levar, essa mágoa eu levo. Eu tenho certeza, não sou de guardar raiva, nem rancor, nem ódio, mas sobre o meu documento, dentro da Funai, rasgado, eu sei que nunca vou esquecer. Até meu espírito, quando eu passar desse mundo para o outro, se eu mudar de nossa terra, vou ficar aliviada.

Porque um documento é um documento. A gente tem que ter muito cuidado. E sobre a Funasa também; outro dia eu pedi ao segundo administrador de transporte de carro para falar com um procurador, e ele me gritou que não ia me mandar o carro, eu tinha que dizer 'prá' onde eu ia, e me chamou de 'cabeça de cuzcuz'. 'Cabeça de cuzcuz' acho que é uma discriminação, uma humilhação, falta de respeito e falta de educação, porque eu não tenho leitura, sou uma pessoa que a leitura que Deus me deu só foi o o meu Toré, minhas matas, que eu gosto das matas, as pedreiras, o rio... é a minha leitura... e ainda sou mais feliz porque eu fico triste do outro lado que eu digo: 'meu Deus, que eu não aprendi tanto a ler, não sei escrever, mas assim mesmo eu fico alegre o conformada, porque Deus deixou para mim isso'.

A gente só deve aceitar o que Deus deixou 'prá' nós. Mas tem as nossas matas, o nosso rio, a nossa Mãe Terra, a pisada do nosso Toré... foi o que Ele deixou 'prá' mim e tenho que ficar satisfeita com o que Ele me deixou. E a nossa vida aqui é muito sofrida porque quando nós chegamos aqui o fazendeiro falou uma coisa e foi outra; depois falou que queria 'tirar nós'; aqui não é retomada, foi combinação com ele, documento passado, que ele passou documento para mim.

Depois que nós viemos 'prá aqui', de um lado é bom, porque os bandidos não 'vem' mexer com nós, mas sobre alimento, sobre nossa plantação que 'nós planta', 'nós ara' a terra no maior sacrifício, trabalhando fora 'prá' arar a terra e deixar de se alimentar, nós cansa, só que 'nós não esmorece nem perde a fé', mas nossa plantação morre. E o que 'nós planta nós não quer' que morra, 'nós quer' que tenha vida, 'prá' dar vida a nós, nosso alimento.

E é uma tristeza, que até ontem, na data de sexta-feira, eu fiquei o dia todinho desesperada, eu fiquei com dor de cabeça. Eu olhava para a plantação e 'ver' todas morrendo sem eu poder fazer nada. Eles desligam a bomba, não sei se o fazendeiro ou a Coelba... um povo desse não ama nem a Deus, porque sabe que 'nós está passando' fome, sem tomar banho, sem lavar roupa, nossa plantação morrendo, perto do São Francisco, perto de Paulo Afonso, e não tem água. Nessa aldeia são 26 pessoas e estamos esperando chegar mais. Somos parentes dos Truká de Cabrobó de Pernambuco.

1 CPP: Conselho Pastoral dos Pescadores

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