quinta-feira, 8 de julho de 2010

Comunidade Quilombola de Torrinha, 01/11/2009 – 18h10

Sul: 11º 25' 47” – Oeste: 43º 14' 45” – Altitude: 402 metros


A chuva foi fraca e terminou cedo. Acabei dormindo bastante e acordei às 05h30. O local foi excelente, sem nada para atrapalhar o meu descanso. Enfim, uma ótima escolha! Interessante observar que nessa longa jornada tive muita sorte na escolha dos locais de acampamento, e isso aconteceu naturalmente, sem procurar muito, sem fazer exigências ou esperar demais de cada local... apenas intuição e confiança!


Coloquei meu barco na água às 07h00 e não havia sinais de chuva no horizonte. Às dez horas já chegava a Morpará, uma cidadezinha simpática incrustada no sopé de um morro arredondado, e com um belo porto gramado à sua frente! Finalmente uma cidade voltada para o rio! Gosto muito disso!


Apesar da vontade de conhecê-la, meu objetivo é o de chegar a Barra amanhã; por isso, e por economia, segui minha viagem. Uns dez quilômetros adiante, uma montanha de rocha exposta e um velho casarão chamaram minha atenção e me induziram a atravessar o rio. Parecia um hotel fazenda e imaginei fazer uma boa refeição naquele lugar; afinal, estava sem comer há dois dias!



Quando me aproximei da margem do rio reparei a chegada de uma comitiva de pessoas e, à sua frente, Juarez, o presidente da associação dos moradores. Eu estava em Torrinha, uma comunidade quilombola que fazia parte de meu roteiro original.


Desci do barco, cumprimentei a todos e fui levado para um restaurante à beira-rio. Era uma casa grande, toda avarandada, onde me prepararam uma refeição, enquanto conversávamos e tomávamos uma cerveja bem gelada, que desceu deliciosa pela minha garganta! Juarez me disse que me esperavam desde o dia 29 de outubro! E ficaram se revezando na margem do rio para me recepcionar! Disse também que havia uma grande expectativa na comunidade pela minha vinda. Queriam que eu pernoitasse em Torrinha mas, apesar da acolhida, não posso comprometer meus planos; preciso chegar em Barra e seguir para Xique-Xique.


Mesmo assim, confirmei minha palestra e uma visita à comunidade antes de partir. Saímos logo após o almoço e visitamos dois casarões do século XIX que eram ocupados pelos senhores da fazenda, na época com trabalhadores escravos, certamente antepassados dos moradores atuais de Torrinha.


Juarez me explicou que a comunidade já foi reconhecida como quilombola, mas ainda não receberam os títulos das terras; por isso, o atual proprietário da fazenda não permite que eles cultivem a terra. Esse é um procedimento que encontrei em todas as terras ainda não regularizadas, mas não compreendo como pode existir uma situação paradoxal como essa, sem a intervenção da lei.



Os casarões estão em situação precária; o primeiro está em ruínas, as madeiras apodrecendo e as paredes se desfazendo; mesmo assim conserva sua imponência e beleza arquitetônica. O segundo, embora bem conservado e com um mobiliário rico, está completamente descaracterizado por uma reforma que modificou grande parte de sua estrutura interna, incluindo uma decoração de gosto duvidoso e peças antigas de valor inestimável.


Fiz várias fotos internas e externas dos casarões e depois seguimos pelas ruas do vilarejo. Muitas casas ainda são de pau-a-pique, algumas já em estado de deterioração e com muitos vãos no barro das paredes, o que pode favorecer a presença de barbeiros transmissores da Doença de Chagas. Juarez fez questão de mostrar cada detalhe da vida na comunidade, sempre convidando moradores a posar para as fotos de modo natural.

Voltamos para o restaurante onde uma platéia atenta de mais de 50 pessoas me aguardava. Eu me apresentei a todos e fiz minha preleção, insistindo muito na responsabilidade ambiental de cada um, relatando as evidências dos maus-tratos a que o rio tem sido submetido. Cada palavra que eu disse foi absorvida atentamente por cada morador! É uma satisfação falar para gente assim, simples e compreensiva com um estranho, complacente com alguém que lhes traz boas-novas mas também muitos agravos decorrentes do estado em que se encontra a Natureza.



Fui cumprimentado por todos os moradores, que me desejaram uma boa viagem, e manifestaram grande expectativa pelos resultados de meus esforços em defesa do meio ambiente e das populações ribeirinhas. Por um momento, eu seria o seu porta-voz nos grandes centros onde as decisões deveriam ser tomadas.

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