quinta-feira, 8 de julho de 2010

Confabulações, 6 de junho de 2009 – 19h30

Esta solidão de seres humanos em que me encontro traz a percepção absoluta de que faço parte dessa Natureza fantástica! Não há obra humana, construída em detrimento do mundo selvagem, que se justifique, mesmo em se tratando do desenvolvimento científico, cultural ou tecnológico. Também não se justificam tantos crimes ambientais sem punição.


É necessário reavaliar o progresso de modo a assegurar a preservação e a sustentabilidade do meio ambiente. Não se constrói a sociedade sobre os escombros do universo selvagem, da beleza cênica dos santuários da Natureza, da presença dos seus habitantes naturais.


Estar aqui, cercado pela mata intocada, ouvindo os sons dos animais e o rugir das águas nas corredeiras e cascatas, tornam-me cúmplice e integrante desse mundo perfeito.

Admirar o vôo de uma garça azul, entre as copas das árvores mais altas, ou dos patos, a centímetros da superfície das águas, ou dos tucanos, batendo as asas em ritmo alternado, ou ainda do martim pescador, dissimulando sua presença e seu ninho, e metralhando nossos ouvidos com seu grito insistente e forte, ou o pio sinistro das corujas e dos gaviões, apreciar, enfim, a revoada dos pássaros, é privilégio de poucos, e determinará o meu destino, ao partir deste mundo encantado...

Hoje eu me pergunto qual o sentido de tantas discussões acerca do meio ambiente, por pessoas que nunca entraram em ambientes naturais, nunca deixaram suas escrivaninhas de trabalho, e só conhecem os animais selvagens e seu comportamento pelos zoológicos, pelas ilustrações dos livros ou pelos documentários da televisão...

Para defender teses preservacionistas é preciso conviver intimamente com a Natureza, sentir a vibração dos corações selvagens, auscultar seus pedidos de alerta e integrar-se a esse mundo como se fosse sua própria casa... isso é diferente dos livros de teoria! Criam-se belas expressões – “sustentabilidade”, “biodiversidade” – com o propósito de disfarçar a verdadeira intenção por detrás do discurso: diminuir sempre e continuamente os espaços naturais, cedê-los discretamente aos empresários, pecuaristas, à agro-indústria, ávidos de lucros fáceis, ainda que construídos sobre os escombros da vida selvagem, até que um dia, o que restar já não possa sustentar a frágil vida selvagem, que se extinguirá para sempre.

Um dia, se nada for feito urgentemente, nossa paisagem será semelhante aos cenários de A Era da Estupidez¹, contendo apenas os despojos da civilização e um bando de desesperados buscando sobreviver ao vazio deixado pela destruição e pela guerra. O que diremos aos nossos descendentes? Como lhes negar toda essa riqueza e diversidade?

A ação perversa do homem não será interrompida a tempo – lamento dizer isso – até porque o prazo que nos resta não será suficiente para estancar e reverter a destruição. “Então, por que ele continua?” pensarão aqueles que me leem .. porque é meu dever, minha obrigação, minha missão nesta Terra, meu compromisso com minhas filhas e netos...

Assim como os animais que defendo, lutarei essa guerra inglória, desesperada, enquanto me restarem forças e coerência intelectual para prosseguir. Chegará o dia em que eu também me renderei às evidências, mas aí estarei me despedindo desse mundo... e passarei às minhas filhas e meus netos a responsabilidade por prosseguir até o fim...

Hoje vi algumas rochas – talvez basalto – compondo sinistras esculturas às margens do rio. E me senti em um museu, no futuro, onde o ecossistema seria representado em uma vitrine, com os dizeres: “isso tudo já existiu um dia...”!

Minha peregrinação neste “meu Velho Chico” deveria ter esse significado: alertar as pessoas para o que estão fazendo com o nosso rio... esse é o meu propósito; mas receio que, se algum interesse despertar, será apenas pelo inusitado da ação de percorrer 2.800 km em uma canoa canadense, por um “paulista” sexagenário! E, dessa forma, não terá valido a pena, exceto para mim e para aqueles que me querem bem...

¹ “A Era da Estupidez”, dirigido por Franny Armstrong, mostra o ponto em que chegou a destruição ambiental no mundo e dá um alerta para a responsabilidade de cada indivíduo em impedir a anunciada catástrofe global. O filme mostra cenas das tragédias ambientais que aconteceram no início do século vinte e um, e se pergunta por que os seres humanos não se salvaram quando ainda tinham chance. “A Era da Estupidez”  tem o objetivo de debater e provocar a reflexão sobre as soluções reais necessárias para deter o aquecimento global e fortalecer as comunidades já afetadas na transformação rumo a sociedades sustentáveis.

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