quinta-feira, 8 de julho de 2010

Conhecendo as corredeiras, 03/06/2009 – 19h45

Sul: 20° 21´ – Oeste: 46° 18´ – Altitude: 746 metros

Que dia terrível! Comecei muito bem, passando a corredeira que tanto me atormentara... não havia jeito de fazer uma portagem naquele local e acabei decidindo enfrentar a corredeira. E deu certo: consegui passá-la, até com certa tranqüilidade. Fiquei bastante feliz com isso.


Pela manhã, demorei algumas horas para secar todo meu equipamento: barraca, saco de dormir, toalha, panos, roupas, tudo, enfim, molhado pela garoa da noite anterior. A barraca se molhou com a cobertura externa, que condensou o calor interno de meu próprio corpo.

Saindo da corredeira remei com entusiasmo, percorrendo um bom trecho em poucas horas. A paisagem lindíssima e, em grande parte, preservada, quase intacta, não fosse a criação de gado nas fazendas. Gado solto, andando livre pelas matas e pelos barrancos caídos, pastando às margens do rio e até entrando nele para beber água e, é claro, defecando em suas águas! Onde estão esses fazendeiros? E a polícia florestal?

Depois de várias corredeiras encontro uma que não consigo vencer; a queda mais acentuada e o grande peso da carga na proa fizeram a canoa se encher d'água na inclinação causada pelo desvio das pedras, e em poucos segundos! Para evitar que ela se virasse e emborcasse, saltei na água e a conduzi até o barranco mais próximo.

Achei mais fácil tirar a água da canoa com uma caneca do que desamarrar e retirar toda carga para entornar a canoa. Devo ter tirado uns 300 litros de água! Não foi uma boa ideia...

Subi no barco e continuei a remar... normalmente, depois de uma corredeira vem um trecho de águas calmas, e já estava acostumado com isso. Essa corredeira, no entanto, era diferente, com grandes pedras obstruindo todo leito do rio e paredes de rocha em ambas as margens, o que impedia qualquer portagem.

Não tendo observado essa mudança de padrão, quase fui lançado na verdadeira cachoeira: enorme, com um ronco assustador! Verdadeira água branca de que falam os aventureiros! Quem disse que o Velho Chico não as tem?

Essa, para mim, devia ser uma “classe 3"¹, apesar de sua pouca extensão. Até me imaginei rolando pelas águas, chocando-me contra as pedras, esfacelando-me com minha canoa, como se fosse construída com papelão, minha carga se dispersando nas espumas... na verdade, não era uma "Classe 3", mas minha canoa, pesada demais, não conseguiria manobrar com a agilidade necessária para superar tais obstáculos.

Remei com todas as minhas forças, mas o barco não saía do lugar, próximo demais do ponto sem retorno. Puxava as águas com violência, procurando usar toda técnica que aprendi no rio... esforço inútil! Consegui, finalmente, me aproximar de uma pedra, quase à superfície; joguei a proa de encontro à pedra, forçando o bico da canoa sobre ela.

Deu certo! O barco encalhou no meio do rio, a menos de um metro da primeira queda, a mais violenta de todas! Fiquei, por uns momentos, parado, recuperando o fôlego...

Ouvia o rugir das águas às minhas costas, sem poder fazer nada. Às vezes, tinha que remar, mesmo com o barco preso à pedra, para que ele não se soltasse. Sabia que precisava fazer alguma coisa, pois não iria aguentar por muito tempo essa situação. Cansado, minhas idéias se confundiam, e me imaginava sendo levado pelas águas.

Resolvi, então, tomar uma atitude drástica e arriscada: saltei da canoa, agarrei a corda da popa e a enrosquei em uma pedra um pouco atrás. Mais uma vez, deu certo.

Agora, com o barco estabilizado, peguei a corda longa que, providencialmente, havia amarrado na proa, e imobilizei a canoa. Depois eu a retirei para um lugar seguro.

Fui averiguar o tamanho da corredeira e me assustei com o que vi; realmente seria impossível passar com uma canoa pesada por esse turbilhão de águas correntes.

Voltei ao barco; já passava das 15 horas e não poderia fazer mais quase nada. Ou dormiria nas pedras, como no dia anterior, ou teria que encontrar outro local.

Resolvi voltar à última corredeira que havia transposto e procurar uma saída. Remei pela margem, depois de arrastar a canoa para fora da zona de perigo, até chegar nas pedras da corredeira anterior, aquela que quase afundou meu barco.

Por lá não havia saída; a velocidade e a força das águas impediam meu recuo. Segui, então, pela margem esquerda até uma minúscula praia à beira de um riacho.

Fixei a canoa na areia da praia e subi o barranco. Precisava encontrar um meio de contornar a corredeira, passando sobre a montanha. Mas antes precisava de um refúgio.

Assim que ultrapassei o barranco me surpreendi com duas cachoeiras gêmeas, formando uma pequena lagoa de águas verdes e cristalinas, cercadas pela densa mata.


Refeito da magnífica surpresa, comecei a subir o morro com duas expectativas: encontrar um caminho alternativo para a portagem, e alguém que pudesse me ajudar a transportar os 120 kg da canoa e das bagagens morro acima. Cheguei a improvisar uma escalada e um rapel para poder me movimentar com segurança naquele barranco íngreme.

Mas a montanha era intransponível. Além da distância e altura, o afluente cavara uma enorme e extensa grota, coberta de densa vegetação, isolando completamente meu local de portagem da parte baixa do rio, onde deveria chegar. Não seria por ali minha saída.

Já era tarde, o sol se escondia e tive que encontrar um lugar para meu acampamento. Comecei a subir os sacos com o que fosse imprescindível: a sacola de emergência, a barraca, os equipamentos eletrônicos, os apetrechos de cozinha, comida, roupas... estava tudo molhado!

Montei a barraca, mesmo molhada, sem fixá-la no chão, pois os specs² não penetravam no solo duro e ressequido pelo pisoteio constante do gado. Dentro coloquei a lona que deveria ficar por baixo, pois ela estava mais seca do que a barraca. Sequei um pouco o isolante térmico com a toalha, pois teria que dormir sobre ele, já que o saco de dormir também estava encharcado. De qualquer modo, era melhor do que ficar ao relento, pensei...

Preparei arroz com brócolis e funghi, acrescentei pimenta, gengibre, tomate seco e azeite de oliva, para dar mais consistência e recuperar minhas energias. Tentei usar o telefone celular, já que, supostamente, havia gente próxima dali, mas não funcionou.

Por via das dúvidas, mandei duas mensagens pelo rastreador. Embora não tivéssemos combinado isso, pensei que, ao recebê-las e conferir meu pequeno deslocamento, entenderiam que estou bem, ainda não preciso de ajuda, mas que a situação é complicada.

Amanhã terei que decidir o que fazer. Por enquanto, a única alternativa que posso conceber é voltar ao cachoeirão e tentar transportar tudo pelas pedras, usando cordas e roldanas para dar segurança ao processo, nem que para isso leve dois dias.

Terei que levar a canoa de volta àquele ponto crítico, preparar a segurança, transportar os sacos um a um, e depois tentar levar a canoa para cima do barranco e descê-la do outro lado. Ainda não sei como será isso, mas é a única alternativa que tenho.

Um pescador, na beira do rio, antes de Vargem Bonita, havia mencionado esse obstáculo, mas disse que eu poderia contorná-lo por uma estrada que havia antes, à margem direita do rio. Não encontrei essa estrada, nem ninguém que me pudesse mostrá-la, ali nesse ponto.

Não tendo saída, resolvi dormir, na esperança de que o espírito da noite e o de meu pai me ajudassem a encontrar uma alternativa razoável. Caso contrário, farei como Aguirre e enfrentarei “a cólera dos deuses”! Werner Herzog³ fez filmes extraordinários!

Esta noite passarei muito frio, mas vou sobreviver.

Só para não me esquecer: hoje, durante uma de minhas trilhas exploratórias na colina, caí dentro da toca de algum animal. Era bem grande e sua boca tinha mais de um metro de diâmetro. Para sorte minha, estava deserta: o bicho, seja qual for, deveria estar caçando.

¹ Classificação dada pelos praticantes de rafting para as corredeiras dos rios, de acordo com o grau de dificuldade apresentado. Os níveis de dificuldade vão de classe 1 a 6, crescentes, sendo a classe '6' quase impossível de se remar. Não querendo comparar minhas corredeiras com essas dos praticantes de canoagem, devido à minha pequena experiência, estas corredeiras do Velho Chico representavam, para mim, grandes desafios.

² SPEC – tipo de cravo ou grampo de fixação das extremidades da barraca no solo.

³ Werner Herzog – cineasta alemão, nascido em Munique, em 1942, gravou Aguirre nas selvas amazônicas, transportando um enorme barco de madeira através da mata, uma verdadeira epopeia supostamente vivida pelo herói Lope de Aguirre. No século XVI, uma expedição de conquistadores espanhóis, enfrentando a febre, os índios e as feras, entra na selva amazônica em busca do Eldorado, o fabuloso reino de ouro. Lope de Aguirre, um aventureiro ambicioso, derruba Pedro de Ursua (chefe de seu grupo) e persuade os soldados a abandonarem Pizzaro, comandante da expedição. Mais tarde, Gusman, o novo líder proclamado por Aguirre é também eliminado. 0 conquistador assume o poder com fanatismo exigindo a obediência de todos com violência. Mas aos poucos, a selva vai dizimando toda e expedição.

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