quinta-feira, 8 de julho de 2010

Corredeiras difíceis, 7 de junho de 2009 – 18h00

Sul: 20º 20´ – Oeste: 46° 13´ – Altitude: 724 metros

Hoje foi mais um dia difícil.



Depois de superar a última portagem, acreditei que o rio se comportaria melhor comigo... e de fato foi assim, por muitos quilômetros. Apenas pequenas corredeiras e longos trechos de águas tranquilas  Parecia que os maus momentos chegavam ao fim. No entanto, lá pelas 13 horas, eu vinha em um ritmo forte, quando encontrei alguns pescadores sob uma ponte. Conversando, eles me disseram que depois da ponte haveria uma cachoeira que eu poderia transpor com certa facilidade, levando minha canoa pelo lado direito. E foi como me disseram: apenas arrastei a canoa por um pequeno canal, mas sem tirar dela a carga.

Daí em diante as corredeiras voltaram com força total: rápidas, violentas e com pequenas quedas d'água de até um metro de altura. Não dava para fazer portagens, pois elas eram muito longas, às vezes quase um quilômetro de extensão.

Parei o barco, reforcei todas as amarras e comecei a descer todas elas, às vezes até mesmo sem parar para examiná-las e decidir qual seria o melhor percurso.

Depois de algumas corredeiras bem sucedidas, percebi que melhorara bastante minhas técnicas de abordagem, manobras e recuperação, pois, logo que termina a corredeira o barco costuma girar sem controle. Sentia-me seguro e auto-confiante. Fazia as manobras com eficiência e o resultado era animador, pois evoluía rapidamente pelo rio.

No entanto, o pior ainda estava por acontecer! Cheguei a um local em que até dava para ver a declividade acentuada do leito do rio! Uma ladeira! Mesmo sem corredeiras o rio já era rápido demais e as manobras passaram a ser difíceis e muito freqüentes; nem dava para descansar entre elas! Precisava ficar atento: adrenalina no último grau!

Em uma das corredeiras, muito longa, bati forte em uma pedra e o barco girou sobre si mesmo. Fiquei de costas para o sentido do movimento, sem condições de manobrar, e ainda faltava metade do percurso! Usava o remo como leme e também para afastar-me dos choques inevitáveis contra as pedras. Tentava me adaptar ao sentido inverso, enquanto desviava das pedras. Minhas manobras tinham que ser feitas ao contrário.

Ao chegar ao final, estava exausto e o barco cheio d'água!

Faltou-me a câmera de capacete (GoPro) para registrar essa descida, certamente a mais difícil que realizei nesta viagem! Foi uma pena... perdi o registro de todas as corredeiras!

Parei à margem direita, em manobra brusca, pois logo a seguir havia outra corredeira. Fiquei quase meia hora tirando água da canoa. Foi quando percebi que havia uma rachadura na parte interna do casco. Deveria haver outras, mas não entrava água.

Segui mais algumas horas até que fui jogado para fora do barco que, novamente, estava cheio de água. Tive muita dificuldade para trazê-lo de volta à margem devido à forte correnteza. Não conseguia arrastá-lo... perdi mais um squeeze¹ e uma esponja.

Diante desses problemas decidi retomar a postura de cautela, evitando riscos desnecessários, para não comprometer o destino da expedição. E assim me dei conta da situação: dependo apenas de mim e não tenho a quem pedir auxílio imediato. É terrível como não somos capazes de realizar um planejamento efetivo, pois as situações imprevistas se sucedem continuamente neste tipo de empreendimento.

Somente nossas habilidades e rapidez de tomada de decisões podem assegurar um bom desempenho, mas não nos garantem a vida. E então percebemos o quanto somos frágeis e mal equipados para a vida selvagem. Perdemos nossos instintos e a agressividade necessários à sobrevivência. Estamos em um ambiente hostil e impiedoso! Percebi também que não adianta analisar muito as situações; é preciso agir por instinto, na maioria das vezes. E quando desligamos o pensamento, a intuição se manifesta.

Havia dois patos mergulhões que seguiam à minha frente desde Vargem Bonita. No começo, bastava minha canoa apontar nas curvas do rio e eles grasnavam e voavam para longe. À medida que se acostumaram com minha presença, foram se deixando ficar mais próximos, repetindo então o mesmo procedimento.

Na última aparição permaneceram nadando, enquanto minha canoa passava a seu lado. Então, como uma despedida, grasnaram e voaram de volta, no sentido inverso ao rio. O curioso é que quando coincidia de encontrá-los próximos a uma corredeira, eu tomava o mesmo caminho de descida feito por eles, o que se revelava sempre a melhor escolha.

A garça azul também se comportou da mesma maneira. Mais arredia e voando entre as copas das árvores, ela também me acompanhou durante todo tempo em que tive a companhia dos patinhos, e também desapareceu com eles.

Pena que não sejamos capazes de interagir com os animais, assim como eles fizeram comigo. Não foi casual; foi uma atitude deliberada e proposital. Fiquei imaginando o que pensavam de mim, e quanto queriam se comunicar comigo...

Minha situação hoje é precária. Durmo sobre umas pedras no barranco onde armei, de forma improvisada, a barraca. Primeiro porque não tinha escolha, como já relatei em outras ocasiões; depois porque não havia espaço suficiente no barranco. Optei por não fazer comida. Estou me alimentando apenas das sementes, devido ao cansaço. Amanhã terei que abrir e enxugar todas as sacolas estanques, pois, mesmo sendo à prova d'água, elas nunca estão secas; não entra muita água, mas o suficiente para molhar roupas, comida e equipamentos. E dou o máximo possível de voltas na trava rápida para fechá-las.

Estou muito cansado e agora vou dormir. Daqui ainda ouço o rugir das águas na última corredeira, e o barulho ainda fraco da próxima, que irei enfrentar amanhã.

¹ Squeeze” - pequena garrafa plástica ou térmica usada como cantil, para líquidos ingeridos durante atividades esportivas.

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