quinta-feira, 8 de julho de 2010

Danos à embarcação, 8 de junho de 2009 – 18h10

Sul: 20° 21´Oeste: 46° 09´Altitude: 704 metros


Acordei tarde. A correria de ontem me deixou exausto, mas mesmo assim dormi muito pouco. As pedras sobre as quais montei a barraca eram muito irregulares e, mesmo usando o “EVA"¹ para forrar o piso, havia buracos por todo lado.


Tentei fechar as rachaduras do casco com “silver tape"², mas o barco estava muito úmido e não funcionou. Levei a canoa para cima das pedras, deixei-a emborcada, e constatei que as fissuras tinham atravessado o casco em vários locais. Precisava fechá-las. Sequei tudo e comecei o conserto pelo lado externo onde, por ser liso, havia maior aderência. Reforcei bem cada remendo e depois fiz o mesmo por dentro.

Não há mais jeito. Se eu me arriscar em outra corredeira poderei perder a canoa e arruinar toda expedição. Decidi fazer mais portagens e menos corredeiras. Parti com muita cautela... a manhã passara rápido, já eram 13 horas e o dia estava bastante nublado. Remei por cerca de 800 metros e já me deparei com a corredeira seguinte. Nem parecia tão forte mas, por cautela, resolvi fazer a portagem.

Na parte inicial, cerca de 300 metros, consegui rebocar a canoa com a carga. Porém, no último salto, não teve jeito: era uma queda de quase um metro de altura. Retirei toda carga e a transportei sobre as rochas, um tipo estranho de pedra, todo fragmentado, esfarelento e quebradiço, que mal dava para se ficar de pé e caminhar.

Foi uma operação cansativa, pois tive que subir de um lado da parede de rochas e descer do outro, caminhando ainda uns 50 metros sobre elas com todas as sacolas e o barco. Em compensação, do outro lado havia uma bela cascata de águas cristalinas, um pequeno tributário do Velho Chico, escondido atrás daquelas rochas.

Foi providencial, pois a água que eu trazia desde a última cachoeira estava se acabando, e já temia ter que beber água do São Francisco que, a esta altura, está poluído e com um cheiro desagradável, como se o esgoto tivesse sido jogado no rio; mas, de onde? Talvez de alguma cidade afastada das margens.

Aproveitei a tarde para tomar um banho gelado de cachoeira e lavar toda minha roupa, cujo cheiro também não era dos mais agradáveis, depois de tantos dias no rio.

Montei meu acampamento muito cedo e fui investigar a redondeza. Logo atrás da barraca encontrei pegadas de um felino. Podiam ser de uma onça, talvez... Mais adiante encontrei uma capivara morta, com marcas de dentes no pescoço, já em decomposição e estufada pela longa permanência dentro da água. À sua frente, uma grande abertura no barranco, parecida com uma caverna, talvez produzida pela erosão do terreno. Não poderia ser a toca do felino.

Havia outras tocas menores, covas ao longo do barranco, que poderiam ser do predador que matou a capivara, mas não encontrei vestígios comprovadores. Fiquei entusiasmado com a possibilidade de fotografar um felino naquelas paragens!

Mais uma vez tive que montar o acampamento em local pouco seguro, a poucos metros da água, por absoluta falta de alternativas. De ambos os lados do rio, morros altos e íngremes, cobertos de mata densa e sem nenhuma trilha visível, sem opções...

Se houver uma tempestade rio acima eu nem perceberei o desastre: serei levado pelas águas, jogado na próxima corredeira, com poucas possibilidades de sobrevivência.

Minha barraca está tão próxima da última queda d'água que o barulho é atordoante. Às vezes até parece o rugir das turbinas de um avião. É como se o som variasse de modo cíclico, gerando ondas harmônicas e criando essa sensação de outro som (conhecido como "efeito Doppler"³). À parte esse inconveniente, estou muito bem instalado e confortável, pois montei a barraca sobre a areia macia da praia, bem próximo também da "cascata de cristal".

Esses contratempos e problemas vêm acumulando atrasos críticos em meu plano. Já não sei quantos dias de atraso, mas imagino que já deveria ter chegado a Iguatama. Creio que ainda me faltam uns 80 km para chegar lá e não sei mais quantas corredeiras... o problema é a grande declividade do terreno, que torna as corredeiras mais íngremes, mais rápidas e com muitas rochas espalhadas pelo leito do rio.

Quando saí de Vargem Bonita a altitude era de 790 metros. Agora, pelo meu GPS, estou a 690 metros, cerca de 100 metros de descida neste pequeno trecho do rio. Amanhã já saio daqui enfrentando uma nova portagem. Praticamente, não há separação entre as duas, exceto por este remanso.

Apesar disso tudo, não posso me deixar abater. Estou com bastante comida, me alimento bem, minhas roupas estão secas e limpas, e ainda tenho carga nas baterias, exceto dos celulares que, devido ao frio, já se acabaram sem ter sido utilizados.

Chegando a Iguatama recarrego todas as baterias e me informo sobre o próximo trecho, que me levará à represa de Três Marias. Serão mais uns 400 quilômetros...

Minhas cartas do IBGE, pelas quais paguei tão caro, estão todas perdidas! Com esses alagamentos constantes da embarcação, mesmo estando em sacos plásticos, se molharam completamente e estão coladas umas às outras; nem dá para abrir! Na verdade, pela rapidez necessária à tomadas de decisão, não consegui mesmo usá-las nenhuma só vez nesta viagem... foram inúteis até agora e talvez nem precise delas...

Hoje tomei uma decisão: depois dessa viagem vou encerrar minha carreira de aventuras. Comecei tarde demais, aos cinqüenta anos, e agora preciso me dedicar às pessoas que eu amo e que precisam de mim. Decidi assim porque percebo que toda aventura implica em riscos, e aventuras extremas implicam em riscos extremos.

Cada vez que planejo uma nova experiência já não me contento com o patamar de riscos da aventura anterior. É como se o nível de adrenalina aumentasse constantemente. Na minha idade não posso seguir assim em um crescendo de ansiedades e riscos, que só me levariam a um final óbvio e indesejado. Meus reflexos, ainda ótimos, tendem a decair.

Por isso, no futuro, só mesmo atividades de “turismo de aventura”... será??? Tenho dúvidas... cada vez que retorno de minhas aventuras, o tempo de arrependimento por não fazer outra é menor; ou seja, essa determinação tende a se esvair como as outras...

¹ EVAEtil Vinil Acetato é um tipo de borracha não tóxica e eu a utilizo como um tapete para apoiar-me de joelhos para fazer as remadas, alternando a posição das pernas durante o dia.

² Silver Tape – fita adesiva de alto poder de aderência; literalmente, fita prateada devido a sua aparência. Utilizei esse material para tapar as rachaduras e pequenos furos na estrutura da canoa, tendo conseguido ótimo resultado.

³ O Efeito Doppler é observado nas ondas quando emitidas ou refletidas por um objeto que está em movimento com relação ao observador. Foi-lhe atribuído este nome em homenagem a Johann Christian Andreas Doppler, que o descreveu teoricamente pela primeira vez em 1842. A primeira comprovação foi obtida pelo cientista Buys Ballot, em1845, numa experiência em que uma locomotiva puxava um vagão com vários trompetistas. Este efeito é percebido claramente no som (que é um tipo de onda mecânica) quando uma ambulância passa por nós em alta velocidade; percebemos que o tom, em relação ao emitido, fica mais agudo durante a sua aproximação, idêntico no momento da passagem e grave quando a ambulância começa a se afastar do observador.

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