quinta-feira, 8 de julho de 2010

DE BARRA A PILÃO ARCADO

Ainda em Barra

Não tenho anotações desse percurso. Portanto, farei o registro de minhas memórias, sem preciosismos de datas, horas, locais...

Saí de Barra com destino a Xique-Xique. Depois dos lamentáveis incidentes, dra. Eloá convidou-me para acompanhá-la em um mutirão de saúde que realizaria em uma comunidade próxima à cidade; eu logo aceitei, pois seria uma oportunidade de conhecer um pequeno trecho do rio Grande, justamente onde ele se expande com as chuvas, alagando terras e plantações.

Não me lembro o nome dessa pequena vila, mas eram poucas casas, bem simples, mas de alvenaria, no meio da caatinga, e próximas a várias propriedades da igreja. Nota-se que os padres sabem onde investir seu dinheiro, pois são chácaras bem cuidadas e com todas as melhorias e benfeitorias...

Enquanto ela dava atendimento, junto com seus auxiliares (era um projeto do Lions Club), aproveitei a oferta de um companheiro e fomos visitar o rio Grande. Dava para ver claramente o crescimento das águas em direção às terras alagadas. Chegamos a uma “fábrica” de tijolos de confecção artesanal, onde um caminhão e algumas pessoas tentavam salvar a produção. Os tijolos já estavam dentro d'água, assim como as instalações montadas para fazê-los. Eles nos explicaram que quando o rio baixa, reconstroem tudo e retomam as atividades. Os tijolos são confeccionados com a própria lama que o rio traz nas enchentes!

Fantástica essa parceria entre o rio e os ribeirinhos! Agricultura de lameiro e fábrica de tijolos de lama, além das paredes das casas de pau-a-pique, todas “cimentadas” com o barro do rio! Nós não saberíamos aproveitar melhor, e sem nenhum prejuízo para a Natureza, esses processos de cheias e vazantes! Sabedoria...

Remei o dia todo, cerca de 60 quilômetros, guiado pelo GPS, e preocupado com o “famoso” mocambo dos ventos! Nada parecido! O rio fluía normalmente e meu desempenho era ótimo! Cheguei a uma região em que o GPS indicava que deveria haver uma passagem por um canal, na margem direita, que me levaria a Xique-Xique. Mas eu já passava dessa entrada “virtual” e nada via de real... passaram-se quilômetros e eu só via o rio alargar-se em várias direções, com muita vegetação fluvial (aguapés) e nada do canal! Depois de algum tempo comecei a ver barcos tipo “gaiola” entrando à direita bem à frente! Remei mais uns trinta minutos até encontrar o canal, que fazia um cotovelo com o rio; pensei que remaria contra a correnteza, mas isso não aconteceu.

Ao contrário do rio principal, o canal estava tranqüilo e cristalino, refletindo a densa vegetação em suas margens. Finalmente, eu via Xique-Xique à minha frente no GPS, minha proa apontada em sua direção! O lugar era belíssimo, e a tarde chegava suavemente, tingindo o céu de dourado, em contraste com o manto negro que gradualmente cobria as árvores em silhuetas!

Parei para fotografar várias vezes. Anoitecia mas, apesar de não ter nenhum contato naquela cidade, não queria perder essas cenas magníficas! Remava lentamente, cruzando cada vez mais embarcações que, aparentemente, retornavam às suas origens, vazias, e tocando sons em um volume exagerado, com músicas de gosto duvidoso, letras eróticas ou debochadas, com expressões grosseiras, sempre se referindo às relações de homens e mulheres. Parece que não há mesmo censura no Brasil; nem para o mau gosto.

Xique-Xique

O sol, finalmente, se recolheu e deixou-me a escuridão. Remei sem rumo, seguindo apenas a indicação do GPS, até chegar a Xique-Xique. Um muro extenso, no alto de um barranco, isolava a cidade do rio. Alguns barcos atracados no barranco, nenhum porto, ninguém para me dar informações, e um barulho insistente de uma bomba de sucção levava a água do rio para a cidade.

Liguei para Juliano, em Bom Jesus, mas ele disse que não conhecia ninguém para me ajudar. Os contatos deles cessaram antes de Barra; somente dois contatos em Juazeiro, que não responderam às minhas chamadas. Agora estava por minha conta.

Com a escuridão vieram os mosquitos, em nuvens vorazes, querendo enterrar seu ferrão em qualquer parte de meu corpo, até mesmo sobre a pasta de protetor solar que eu passara. Nem mesmo repelente funcionava, pois eles mergulhavam na minha pele, sugando meu sangue misturado com a pasta cremosa.

Tive que sair dali, pois além dos mosquitos, uma população estranha passava por perto. Eu já imaginava ser assaltado por bandidos, jogado no rio para apodrecer ao lado de minha canoa. Voltei contra a correnteza, pois havia uma bifurcação do canal poucos metros acima. Contornei a curva do rio e me deparei com uma grande edificação térrea, toda iluminada, sobre um barranco alto, e vários barcos parados, ancorados, entalados e vazios. A princípio, pensei que se tratasse de um hotel... até pressentia o conforto de me hospedar, ter banho de chuveiro, descansar...

Parei a canoa e subi o barranco. Um velho defecava à beira de uma trilha e um rapaz me abordou, dizendo que eu devia sair dali o quanto antes, pois era um lugar muito perigoso. Disse-me que contornasse mais uma vez o canal, seguindo em frente, e chegaria no porto. Eu estava no prédio da central de abastecimento de Xique-Xique.

Foi assim mesmo: logo que fiz a curva, uma incontável fila de barcos se amontoava, um ao lado do outro, sem espaço entre eles onde coubesse minha pequena canoa. Muita luz, uma praia suja e pessoas andando, conversando, curtindo suas músicas, bebendo, dormindo, comendo... era uma grande feira, com gado em um curral improvisado, mercadorias dentro e fora dos barcos...

Fui seguindo com a canoa até encontrar um pequeno vão entre dois barcos. Parei ao lado de um deles, que me pareceu confiável. Havia um velho, uma moça e um rapaz, preparando-se para dormir. O barco não tinha piso e seu fundo arredondado não se dava para o conforto de uma cama. Todos se ajeitavam em redes, penduradas nas colunas do barco, e assim era com todas as gaiolas que lá estavam ao longo da praia. Eu não tinha uma visão clara do local, pois apesar das luzes, tudo era muito difuso.

Falei com o velho e pedi que ele me concedesse dormir em seu barco. Expliquei-lhe como chegara até ali e que não tinha ninguém que pudesse me ajudar ou me hospedar. Ele prontamente aceitou e disse para eu me ajeitar como desse. Peguei meu saco de dormir, minha sacola com os equipamentos eletrônicos e me instalei sobre a tampa do motor, de forma a poder ver a canoa.

Não dormi, pois os mosquitos não me permitiram. Pela manhã saí para procurar alguma embarcação que fosse para Pilão Arcado. Logo identifiquei duas ou três, mas nenhuma sairia naquele dia, uma terça-feira. Geralmente, os barcos vão na quinta-feira ou na sexta-feira, para poder participar da feira da cidade e voltar no domingo ou na segunda-feira. Levavam todo tipo de mercadoria: roupas, alimentos, frutas, sacos de arroz e de açúcar, vasos de cerâmica, galões de cachaça, cabras, porcos, galinhas, gado...

Encontrei um barqueiro que me fora indicado pela Margarida, do CPP - Conselho Pastoral dos Pescadores de Juazeiro; era o Zé Café e seu barco se chamava “Princesa do Café”; estava ancorado a poucos metros de onde eu me encontrava. Conversei com ele e acertei o preço do transporte: setenta reais, com direito a dormir no barco até a data da partida (quinta-feira).

Trouxe o barco, e seus tripulantes me ajudaram a colocar tudo dentro da “gaiola”. Minha canoa foi colocada na capota! Eu teria dois dias para conhecer a cidade, fotografar o que pudesse, acessar meus emails, postar alguma coisa no blog e comer bem!

E foi o que fiz nesses dias, que demoraram a passar; a cidade é pequena e tem poucos atrativos além da praia. O interessante é ver essas pessoas negociando tudo; o barqueiro, na verdade, é o comerciante e seu barco, uma mercearia onde tudo pode ser guardado, comprado, vendido, consumido. Tudo é negociável.

Logo que me instalei senti a necessidade de uma rede; fui à cidade e comprei uma na feira, a poucos metros do porto. Tomei sucos, sorvetes, comi em um restaurante por quilo com grande variedade de verduras e legumes, pela primeira vez em minha viagem! Era caro para meu bolso, mas eu precisava disso!

No final do dia apareceu um rapaz de uns trinta anos, ginga de malandro, boa fala, com uma garrafa de cachaça e uma pequena mala preta. Falou com o Zé Café, que lhe concedeu a viagem de graça. Mas ele não se contentou; durante todos os dias consumiu a cachaça dos galões que cobriam o piso do barco, e de graça!

Puxou conversa comigo e me disse que era de Pilão Arcado, mas estava há alguns anos em São Paulo, para onde fora com os pais, fugindo de um sujeito que o esfaqueara por causa de uma mulher; ele conquistou a mulher do outro e foi descoberto! Daí, fugiu...

Em São Paulo acabou se envolvendo em receptação de roubos e foi preso e condenado a dois anos de reclusão. Passou o diabo na cadeia e, quando foi solto, o pai o mandou de volta para sua terra natal, onde vive sua avó, com quem pretendia ficar. Disse que ela estava bem idosa e, quando morresse deixaria sua casa para ele.

Perguntei-lhe sobre o amante traído e ele me disse que, na verdade, voltava para se vingar, que fora humilhado e não poderia viver com essa mancha... isso significava matar o outro! Perguntei-lhe se não achava isso uma tolice; afinal, matando o sujeito, ele passaria o resto de sua vida na prisão. Sabia disso, mas nada poderia fazer para evitar... sua honra não tinha preço!

Desisti de argumentar com ele. Sabia o que fazia e não era um garoto. Saía todas as noites à caça de mulheres, nos bares e prostíbulos dessa cidade estranha. Durante o dia parecia uma cidade pacata, bonita, com uma bela praça, escolas bem cuidadas, edifícios antigos, um bom restaurante, esse folclórico ir-e-vir de barcos repletos de gente, mercadorias, música brega, e a feira da praia!

À noite diziam que tomasse cuidado, pois havia bandidos por toda parte, prostitutas, travestis, cafetões... eu não vi nada disso, pois não me aventurei a sair do barco. Lá eu ficava em minha rede, apreciando a movimentação intensa dos barcos e das pessoas.

Saímos de Xique-Xique na quinta-feira ao meio-dia; o barco estava cheio de bebidas, sacos de açúcar e muitas pessoas penduradas em suas redes. A viagem seguia monótona, o ruído do motor zumbindo em nossas cabeças, a quilha cortando a água e fazendo um rastro de espuma marrom, e o murmurar do povo.

Cada um cuidava de sua vida; uns conversavam, outros dormiam, uma mulher fazia crochê, eu apreciava a paisagem e, às vezes filmava ou fotografava alguma cena interessante. Nada de ondas gigantes, nenhum risco diferente dos que eu passara até agora! Poderia percorrer todo lago sem problemas, pensei... será?

Tanta gente me alertou para os perigos do Grande Lago de Sobradinho, suas ondas de dois metros de altura, suas paredes de pedra sem condições de abrigo, os bandidos e assaltantes... acho que os ribeirinhos têm uma imaginação fértil; por isso, as lendas do Nêgo d'água, a mula sem cabeça soltando fogo pelo pescoço, o crocodilo gigante, as sereias com seu canto alucinante e tantas estórias assustadoras e inverossímeis! E eu acreditei...

Passagem

Chegamos à noite em Passagem, uma vila a beira-rio onde chegam as embarcações; de lá, só mesmo de caminhão, de carro ou a pé. Não consegui ver a cúpula da igreja submersa, nem nada que eu pudesse trazer de lembrança desse lugar estranho. Só vi a noite escura, as pessoas esperando perto da fábrica de gelo, nada mais. Passei a noite no barco e acordei cedo com o movimento das pessoas que chegavam para descarregar e transportar...

Fui até uma loja de artigos de pesca, que também era uma lanchonete, e consegui retirar a canoa e minhas tralhas e colocá-las na entrada da loja. Assim, fiquei com mais liberdade de procurar um meio de seguir adiante ou ir para a cidade de Pilão Arcado. Fui a uma padaria e fiz um pequeno café da manhã.

Por mais que tentasse, ninguém sabia de algum barco que pudesse me levar por todo lago, até Sobradinho. Com muita sorte, conseguiria ir até Remanso, me disseram... as horas se passavam, curiosos se amontoavam em torno da canoa, mas nada de um transporte. Lá pelas dez da manhã eu desisti e contratei uma caminhonete que me levou para Pilão Arcado.

Pilão Arcado

Passamos pelas ruas procurando um caminhão que fazia entregas e pudesse me levar para Remanso. Ninguém se interessava; eram poucos veículos, a cidade não tinha movimento, exceto nos dias de feira, nos fins de semana. O rapaz da caminhonete desistiu e me deixou em um ponto de transporte de VANs, que também não quiseram me levar. Fiquei lá, sozinho.



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