quinta-feira, 8 de julho de 2010

De batráquios e evangélicos... 22h12

Em minha bolha infinitesimal do tempo percebo sons confusos dos cânticos evangélicos, recitando uma ladainha de trechos bíblicos incompreensíveis sob o coaxar incessante dos batráquios ao meu redor...

Às vezes, uma fração de silêncio me acalma... calam-se os sapos e o pastor, e assim percebo a lua deixando seu rastro prateado nas plácidas águas adormecidas do Velho Chico. Até escuto seu murmurar discreto, roçando as areias da praia...

Porém, esse momento pouco dura e o matraquear recomeça, metralhando meus ouvidos! Já não ouço as vozes da outra margem... recolheram-se os devotos às suas casas, deixando a tremeluzir as frágeis lamparinas de suas crenças...

Calor sufocante da noite insone me maltrata; onde está o vento que fustigava minha pequena embarcação, endurecendo as águas e tornando inúteis meus esforços ao puxar, vigoroso e compassado o remo enrijecido em meus braços?

Agora é calmaria, apenas...

Ouço pássaros, latidos... e o coaxar irritante em meus ouvidos! O que dizem esses gordos anfíbios? Não há lirismo em sua rouca melodia... apenas o repetir insistente e monossilábico de seu gutural batraquear sem nexo.

Às vezes se cansam e se calam... mas continuo a esperar o recomeço, qual um mantra infinito a ribombar em meus tímpanos! E o sono vem... e se vai no breve adormecer, interrompido pela nova saraivada de coaxares renitentes...

Célere segue a noite em seus preparativos de um novo amanhecer e um longo dia, enquanto o sol aquece outros lugares do planeta...

Os sons da noite se recompõem na distração do silêncio dos batráquios... e sinto a calma tão desejada da harmonia, só possível porque dormem os sapos e os homens... e me integro, afinal, neste momento fugaz de solidão e paz profunda...

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