quinta-feira, 8 de julho de 2010

DE CANOA E SAMBURÁ

Bambuí, bar do Beto, 11 de junho de 2009 – 18h30

Sul: 20° 21´Oeste: 46° 02´Altitude: 716 metros



Como são frágeis nossas convicções! Ontem, minha decisão “definitiva” era abortar a expedição... hoje, minha posição reavaliada é de que vale a pena prosseguir. O que separa opiniões tão antagônicas? Apenas o fato de que as adversidades que minavam minhas forças foram superadas. Mas eu sabia que elas seriam superadas e, mesmo assim, perdera a motivação, e meu sentimento era de que havia chegado ao limite de minha resistência.

Imagino um juiz, em sua posição de César, a apontar o polegar para cima, inocentando o acusado, ou movendo-o para baixo e condenando-o à morte. Não pode ser tão frágil nosso juízo de valores! Não podemos estar, a todo tempo, à mercê de uma decisão arbitrária, que se altera ao sabor dos sentimentos.

Enfim, prosseguirei.

Hoje superei a fase das corredeiras. Saí do Francisquinho, encontrei o Samburá e naveguei, finalmente no rio São Francisco! Cheguei ao município de Bambuí.


Amanhã e depois sigo em busca de Iguatama. Curioso como nomes nada representam. Nunca soube de Iguatama, do Samburá, do Francisquinho... hoje fazem parte de meu entendimento. Vi o São Francisco nascer e crescer, atirar-se da montanha, correr ladeira abaixo sobre pedras, voluptuosamente... vi-o encontrar-se com o Samburá e turvar-se com o volume dessas águas... conheci as transformações geológicas dessas rochas e a chegada do carste¹ de Bambuí. Agora estou aqui, remando em águas calmas...

Mais dois dias e chego a Iguatama. Mais dez dias e chego à represa de Três Marias. Estou, novamente, no caminho! Vejo, mais uma vez, meus objetivos à minha frente.

Hoje, contrariando meus propósitos, cheguei ao restaurante do Beto, conheci um grupo de pescadores amadores (dois médicos, dois dentistas, dois padres e um violeiro), comi uma refeição que não preparei, tomei cerveja e banho quente e estou deitado em uma cama!

Nada pode ser inflexível... é preciso tolerância conosco e com outras pessoas; expor-nos à curiosidade para que seja possível entender as diferenças. Como manifestar nossa ideologia se não somos capazes de compreender as diferenças? Até que ponto essas diferenças seriam irreconciliáveis, antagônicas?

Na verdade, toda divergência é irreconciliável enquanto se baseia em convicções cristalizadas pelas vivências individuais, enquanto fazemos dela nossa bandeira e identidade. Mas a mesma divergência se torna o caminho para a conciliação quando entramos na disputa ideológica com o propósito de nos transformar e aprender...

Nunca estamos dispostos a ceder quando se trata de admitir que vivemos contradições e nos equivocamos no entendimento. Mas se aceitarmos que mudar é evoluir, e que todos estamos sempre enganados até que se acrescente um novo entendimento, então essa divergência passa a ser o mote da transformação, e nos enriquecemos com ela.

Estou em um quarto simples, com luz elétrica, piso, porta, telhado, cama e colchão. Considerando os lugares em que acampei nos últimos 10 dias, isto é um luxo! Se fosse escolher uma pousada para férias com a família, seria inaceitável!

Para um mendigo, um paraíso; para um milionário, assemelhar-se-ia a uma estrebaria! Essa é a relatividade das coisas e dos valores que conservamos com tanto orgulho!


À minha volta, várias pessoas acampadas, ouvindo música, jogando poker², tomando cerveja, cantando... De certa maneira, quebrou-se o encanto da selva e reingressei na civilização. Rompi o tênue limite entre a vida humana e a vida selvagem.

Sinto como se traísse os meus ideais, meus propósitos... e, no entanto, nada mudou. Em meu projeto está a intenção explícita de me relacionar com o universo que gravita em função do rio São Francisco, e este é um pedaço desse universo.

Parece-me distante aquele ambiente selvagem que, ao despertar, fazia parte de meu cotidiano... o cheiro do mato, o canto dos pássaros, o risco sempre presente ao meu redor, as possibilidades incontroladas e imprevisíveis...

O encantamento desse mundo de insegurança não resiste ao contato com a civilização. Tão próximos, tão distantes... tão diferentes e, no entanto, deles somos herdeiros.

Quando passei sob a ponte do bar do Beto poderia ter seguido adiante. Ninguém saberia meu nome ou conheceria meus propósitos; no entanto, parei meu barco, subi pelo barranco, me envolvi com pessoas, aceitei sua hospitalidade, confiei-lhes meus sonhos, relatei a eles as minhas experiências.

Por que fiz isso? Porque não sou só um animal, não vivo na selva onde fui um intruso durante todos esses 10 dias, e porque desejava, intimamente, reencontrar o meu mundo!

Certa vez assisti a um documentário de um pesquisador que se inseriu em uma alcateia de lobos para analisar e entender seu comportamento. Envolveu-se de tal forma com eles que os animais aceitaram-no como um igual e até o escolheram como o líder, o “alfa” do grupo por certo tempo. Porém, ele não cortou seus vínculos com o mundo humano; precisava dele para construir suas teorias e divulgar suas idéias. Quando teve que se ausentar da matilha por um tempo, perdeu sua condição de líder e a confiança do grupo de lobos, ao voltar. Tornou-se apenas um “lobo” comum, no nível mais baixo de sua hierarquia. Assim é o reino animal.

Preciso compreender isso antes de continuar: não sou um ribeirinho, não sou um animal, não pertenço a esse mundo que pretendo conhecer e relatar... ou até mesmo transformar.

Sem esse entendimento, não estarei capacitado a compreender o que busco, nem relatar esse universo real e distante de meu próprio mundo às pessoas que me acompanham.

Só assim poderei prosseguir: como um simples observador de um mundo estranho, para o qual tenho conceitos meus, e que verei sob meus olhos aculturados em outro universo. Nele não poderei interferir senão como elemento externo e sem me envolver completamente.

¹ Carste ou karst, também conhecido como relevo cárstico ou cársico ou sistema cárstico ou cársico, é um tipo de relevo geológico caracterizado pela dissolução química (corrosão) das rochas, que leva ao aparecimento de uma série de características físicas, tais como cavernas, dolinas, vales secos, vales cegos, cones cársticos, rios subterrâneos, canhões fluviocársicos, paredões rochosos expostos e lapiás. O relevo cárstico ocorre predominantemente em terrenos constituídos de rocha calcária, mas também pode ocorrer em outros tipos de rochas carbonáticas, como o mármore e rochas dolomíticas.

O termo Carste deriva do alemão Karst, nome de uma região que se estende do norte da Itália até o sudoeste da Eslovênia e o noroeste da Croácia. O nome local em língua eslovena Kras, significa aproximadamente "campo de pedras calcárias". A região também é chamada Carso em italiano. Esta região possui um sistema geológico cárstico e foi a primeira região onde esse fenômeno foi estudado.

² Poker ou Pocker – o mais famoso dentre os jogos de cartas, onde o “blefe” e o controle emocional são determinantes. Joga-se a dinheiro e grandes fortunas já foram perdidas nas mesas de carteado.

Nenhum comentário: