quinta-feira, 8 de julho de 2010

Malhada, Bahia, 11/10/2009 – 06h59

Há cerca de 20 dias retomei minha jornada; ao todo, excluindo-se os três meses de interrupção, foram 41 dias de viagem pelo rio São Francisco, cerca de 1.200 km percorridos e 1.100 km efetivamente remados! Atravessei todo estado de Minas Gerais, de sul a norte, visitei 10 cidades e conheci muitas pessoas interessantes!

Os livros nos dão a ilusão do conhecimento. Através deles, parece-nos que tudo se resume a espaços, datas, nomes, números e eventos isolados. A realidade, no entanto, é outra! Há um interrelacionamento dos fatos, dos ambientes, das pessoas, que a literatura não consegue captar. Tudo faz parte de um mesmo universo, ainda que as barreiras e rupturas aparentes não permitam nosso entendimento dessa integração.

A sistematização do conhecimento tem seu papel didático e de organização do saber para que nossas mentes limitadas consigam compreender esse mundo. Mas esse processo de síntese não pode reduzir tudo a fragmentos desconexos, que venham a mascarar a verdade, ocultando informações relevantes e imprescindíveis ao entendimento.

Falo do São Francisco. Existem descontinuidades naturais, como é o caso da passagem do rio pela Serra da Canastra e a ruptura provocada pela cachoeira Casca Danta. Repentinamente o rio despenca de forma brusca e passa a correr pelos vales, alternando curvas, remansos e corredeiras, até encontrar o seu plano natural, a partir do qual terá uma declividade de apenas 26 centímetros por quilômetro!

Basta dividir a altura inicial do rio pela sua extensão:

680 m (em Doresópolis) / 2.700 km de extensão = 25 cm / km

Se reduzirmos as alturas das cachoeiras de Paulo Afonso (90 metros) e das barragens das represas de Sobradinho (70 metros) e Xingó (120 metros), teríamos:

400 / 2.700 = 15cm / km (menos de um palmo por quilômetro!)

É como se o rio só caminhasse porque suas águas são empurradas pela água que vem atrás! Praticamente um rio de planície!... é por essa razão que, quando ventava muito, minha canoa andava para trás; e sem vento a canoa não se movia sem remar. Em compensação, nos trechos de corredeiras entre Vargem Bonita e Doresópolis, a declividade era de quatro metros por quilômetro! Estatísticas são terríveis!

Havia quedas de quase dois metros de altura e trechos de mais de dois quilômetros sem corredeiras, mesmo nesse trecho de serra. Mas para a matemática eu não teria nenhum problema em percorrer o rio São Francisco de canoa canadense! Um conhecido de um amigo meu disse: “O rio São Francisco não tem corredeiras! Muito menos águas brancas!”. É verdade! Mas diga a ele para percorrer todo rio de canoa canadense! Diga-lhe que faça tudo sozinho, sem ajuda externa, sem apoio! Eu fiz!

Existem também as intervenções humanas, violentas como as barragens, que represam milhões de toneladas de água, mudando as feições do rio e afetando profundamente sua fauna e as próprias características da água, seja no reservatório, seja depois dele, por quilômetros! É que a barragem e a represa funcionam como um gigantesco filtro, que decanta todos os resíduos e libera água “limpa”!

E existe ainda a presença humana, dependente do rio, segregada em comunidades, ou esparsa ao longo de suas margens, ora vivendo inocentemente em parceria com o rio, ora transgredindo as leis da preservação da Natureza e ameaçando sua vida.

Já passei por inúmeras regiões e pude constatar a maioria dos problemas descritos na literatura, debatidos publicamente, exibidos em documentários. Porém, nada é mais cruel do que a própria realidade, e só quem percorre o rio lentamente, como eu faço, pode compreender a sua verdadeira dimensão.

O rio São Francisco é um gigante. Ninguém poderia conceber a morte desse colosso, por maiores que sejam os maus-tratos a que ele está submetido. No entanto, anda estou na área de formação desse rio, recebendo os últimos tributários perenes que agigantam suas águas. E, no meio de seu curso, onde deveria ter a força da juventude, imensas áreas de assoreamento chegam quase à superfície pela metade de sua largura, aumentando drasticamente o índice de evaporação e perda de águas.

De onde vem tanta areia? Algumas até se transformam em ilhas, outras não... é desse processo contínuo que eu falo: o homem destrói as matas; as águas fazem o resto, arrancando as terras dos barrancos e arrastando-as ao longo do rio. Essas terras se transformam em areia e se depositam no fundo, tornando o rio cada vez mais raso e mais largo. As águas, por conseqüência, se aquecem e evaporam com mais intensidade. Os peixes de águas profundas, o dourado e o surubim, desaparecem.

A poluição provocada pelos esgotos urbanos, resíduos industriais e agrotóxico complementam a destruição, matando os peixes, que são cada vez menores, seja pela pesca predatória, seja pela degeneração provocada por venenos, seja pelas dificuldades crescentes em se reproduzir (falta dos habitats naturais destruídos).

Pode um rio, gigante como o Velho Chico, morrer? Talvez secar completamente seja difícil e leve anos demais para nossa existência humana constatar. Mas existem outras formas de se morrer: perder a vitalidade, tornar-se imprestável para o consumo humano e para suas lavouras, deixar de abrigar a rica fauna que ainda insiste em subsistir em suas margens... formas talvez mais cruéis de se morrer...

Pois o rio São Francisco está morrendo à mingua! As matas descontínuas já não abrigam mais as grandes espécies de felinos, símios e tantos outros animais, como jacarés, lontras, raposas e grande parte da diversidade biológica de sua vegetação.

As matas de fachada, tristes cenários que ocultam a perversidade do pequeno e do grande produtor rural, apenas evidencia o descaso dos governantes, que não fazem cumprir as leis ambientais e não punem com o rigor devido esses criminosos!

Ainda não senti o peso do semi-árido, das baixas pluviosidades das caatingas, e já percebo essas situações extremas. E o poder público, o que faz? Contra grandes problemas, pequenas soluções que se arrastam com a má vontade e a ignorância de quem não conhece a realidade do rio. Minha percepção é limitada ao curso do rio, às poucas comunidades que visitei, aos raros depoimentos que colhi. E, no entanto, já posso afirmar a extrema gravidade do quadro que encontrei.

O Progresso é inexorável, dizem os desenvolvimentistas, para quem tudo é permitido em nome da nova economia e do enriquecimento das elites. Mas seria essa a única via para o futuro da humanidade? Consumir todos os recursos naturais até exaurir o planeta, inviabilizando a vida na Terra? Existem outros caminhos, que passam por um conceito mais sólido de responsabilidade social, compromisso com o meio ambiente e com a eliminação das desigualdades sociais.

Dizem que não existem castas em nosso país... seria verdade? E como explicar o inevitável destino reservado às populações menos favorecidas e mesmo na miséria absoluta? A eles, casta inferior e desprezada, só resta se conformar com o futuro, acreditar na vida eterna e convencer seus filhos a não se rebelarem contra as injustiças, o abuso do poder e a arrogância de suas elites abastadas.

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