quinta-feira, 8 de julho de 2010

DE PETROLINA A CABROBÓ

Petrolina

Chegamos a Petrolina às 21 horas. Liguei para Avelar, que se oferecera, através de meu blog, para guardar minha canoa e as tralhas no clube náutico do qual era diretor. Seguimos até a avenida da orla, onde o encontramos. Dali fomos à sua casa e pude dispensar o caminhão. Avelar tirou seu carro e colocamos a canoa no bagageiro, seguindo direto para o clube.

Ele ainda me ajudou a encontrar um hotel em condições e preço razoáveis. Fiquei bem hospedado e o café da manhã era ótimo!

No dia seguinte visitei o Museu do Sertão, muito bem instalado e com um belo acervo, que tive a oportunidade de fotografar. Fiquei impressionado com a cidade de Petrolina. Há cerca de vinte anos, quando morava em Recife, conheci Petrolina e Juazeiro, de passagem para Senhor do Bonfim e Campo Formoso. Eram duas cidades muito parecidas, semelhantes em tudo com aquelas que conheci durante minha viagem: sem muitos atrativos e conforto.

Agora fiquei surpreso com Petrolina: ela se transformara em uma pequena metrópole, com todos os recursos e facilidades de uma cidade moderna, mas preservando suas tradições e valores! Conheci e fotografei a igreja matriz, com seus belíssimos vitrais e torres em estilo europeu; disseram-me que sua arquitetura era francesa, e foi obra de seu primeiro bispo, de grande projeção política, Dom Antônio Maria Malan, homem visionário e emérito.

Naquele dia, Avelar convidou-me a velejar no rio São Francisco. Eu já tivera essa experiência em Recife, em um pequeno barco. Veleiros sempre foram meu sonho de consumo. Durante muito tempo, minha idéia era comprar uma escuna e viver nela, tirar meu sustento dela e realizar meus projetos com ela! Infelizmente, não me empenhei o suficiente para concretizá-lo...

Aprendi, na Ordem Rosacruz, que para que um projeto se realize, precisamos construir antes uma imagem mental dele e de cada etapa necessária à sua efetiva realização. Mas nunca pratiquei essa verdade. Abandonei a Ordem antes de me tornar um Mestre.

Fomos no veleiro de um amigo dele, Paulo. Qual não foi a minha surpresa quando descobri que trabalhamos juntos, em uma pequena empresa de Recife, há vinte anos! Eu mal o reconheci; sou péssimo para fisionomias...

Passamos um dia fenomenal e aprendi algumas noções de navegação a vela, muito rudimentares. O vento foi nosso algoz durante todo dia... paramos perto de uma ilha e pude nadar no Velho Chico em uma água cristalina, verde esmeralda, de uma beleza incrível! Conhecemos outras pessoas, e Avelar me fez uma surpresa inacreditável: pedi-lhe que gravasse um depoimento e ele me declamou uma poesia, de improviso, que me levou às lágrimas! Avelar é uma pessoa muito especial... o tempo me dirá!

Ele ofereceu-se para me ajudar a conhecer a usina hidrelétrica de Sobradinho, na segunda-feira. Visitarei a barragem e a fotografarei. Conseguindo isso, meus prejuízos por não ter passado por lá se reduzem significativamente. Percebo que uma longa expedição como a minha depende de muitas negociações, principalmente conosco mesmos, uma vez que temos que abrir mão de algumas possibilidades para garantir a consecução do objetivo final!

É muito difícil a negociação interior. Nós, aventureiros, somos implacáveis conosco mesmos! Ceder aos outros é fácil... difícil é ceder a nós mesmos, abrir mão de metas e preservar o objetivo final! Quantas vezes me defrontei com isso? Estar diante de um espelho e rejeitar a própria imagem! É muito difícil...

Quando percorri cerca de 300 quilômetros de caminhão, deixando o rio correr no lago de Sobradinho, era como se eu me traísse e aos meus ideais... eu queria conhecer o rio inteiro, percorrer cada metro de água, não importa o esforço, o risco... mas, pensando racionalmente, isso não teria a menor importância: a essência do rio eu captara; eu sabia que não perdera nada de importante!

Amanhã irei a uma festa no clube náutico, a convite de Avelar. Ele me dará um espaço durante o evento para falar sobre minha expedição, e terei minha canoa em exposição no páteo interno. Será uma nova oportunidade de tentar sensibilizar algum patrocinador em potencial. Se conseguir isso, minha viagem prosseguirá com muito menos dificuldades para mim. Mas tenho poucas esperanças, até pelo histórico de sucessivas recusas de apoio de grandes organizações que se dizem comprometidas com o meio ambiente; sem a contra-proposta dos incentivos fiscais...

Mesmo assim terá valido a pena conhecer Avelar, mais uma referência inesquecível em meu livro, já repleto de personagens importantíssimas para mim, pelo apoio recebido e pela amizade.

Ainda em Petrolina, 15/11/2009 – 23h07

Passei a tarde no clube náutico na companhia de Avelar. Era aniversário do clube e estavam presentes muitos empresários e políticos locais. Avelar me apresentou a todos e fiz minha preleção em uma área aberta onde todos almoçavam. Não foi um local adequado pois, quem vai a um clube não está interessado em ouvir palestras. Mesmo assim, a receptividade foi excelente.

Ao lado de minha canoa conversei com várias pessoas interessadas em conhecer detalhes da expedição, ver meus equipamentos, entender meus motivos, ou apenas para me cumprimentar pela “coragem” e posar para fotos ao meu lado.

Depois saímos com minha canoa e atravessamos o rio até uma estátua do Nêgo D'água, ao lado de Juazeiro, pois amanhã serei entrevistado pela Gazzeta de Petrolina, um jornal da região.

Infelizmente, isso altera meus planos de ir a Sobradinho, que ficaram para terça-feira. Irei de ônibus, pois Avelar tem compromissos e não poderá me acompanhar. Com isso se esgotam meus interesses na visita a Petrolina e Juazeiro.

Apesar da boa intenção de Avelar, não apareceu nenhum interessado em patrocinar a minha expedição, conforme eu previra. Convites públicos de patrocínio nunca funcionam. Preocupam-me os obstáculos que ainda terei que enfrentar nas portagens de Itaparica, Paulo Afonso e Xingó, para os quais não tenho nenhum contato ou informações. Perguntarei a Avelar...

Valores trocados, 17/11/2009 – 00h06

É curioso... um grupo de vinte executivos, munidos de seus potentes jet-skis de última geração conseguiram facilmente o patrocínio de uma bebida famosa, e o apoio da prefeitura e de uma emissora de tv de Petrolina para um passeio pelo rio São Francisco, desde Casa Nova até Belém de São Francisco e depois até a foz, apenas alguns dias antes de minha chegada a esta cidade! Nenhum risco, apoio terrestre, muito dinheiro, festa e toda cobertura da imprensa!

Enquanto isso, meu projeto que se iniciou em dezembro de 2008 e completará um ano na minha chegada à foz, não conseguiu nenhum patrocínio, divulgação ou mesmo financiamento!

Estou há cinco meses no rio São Francisco, documentando a triste realidade dos ribeirinhos, a falta de investimentos na revitalização, e nenhum grande veículo de comunicação se interessou pelo meu projeto! Não consegui patrocínio e percorro o rio quase anônimo! Por que será? Incomodo as elites políticas, econômicas e sociais? Denuncio os poderosos? Coloco em risco a imagem dos governantes que apenas olham para o futuro próximo das eleições e esperam auferir vantagens pessoais? Nem isso acontece pois também não sabem que estou aqui lutando...

Pois prefiro continuar sendo esse estorvo, esse espinho atravessado na garganta dos poderosos, essa voz solitária e rouca de tanto gritar a verdade incômoda, a aderir ao oportunismo das manchetes, a cooptar o apoio condicionado dos políticos!

Sigo meu caminho peregrino, passando desapercebido pelas cidades, registrando o absurdo inconseqüente da devastação causada por grandes e pequenos, que pouco ou nada se importam com o destino que está reservado para este rio...

Nossas riquezas seguem sendo dizimadas, parceladas, pulverizadas em troca das migalhas oferecidas pelo latifúndio, pela agro-indústria, pelas mineradoras, pelas elites privilegiadas que mal sabem dizer por onde passa o rio São Francisco.

Enquanto isso, autoridades exibem suas penas de pavão à imprensa internacional, posando de defensores do meio ambiente! Pura conveniência eleitoreira que terminará em outubro de 2010, quando novas personagens assumirão o palco, nada fazendo de relevante para reverter os processos de devastação que nos levam, inexoravelmente, à desertificação dos cerrados, da caatinga e da Amazônia. Qual é a bola da vez? O apagão?

Pois vamos explorar, na mídia, esse tema, até que novos eventos venham a distrair nossa atenção do verdadeiro drama da extinção de nossos ecossistemas, das espécies animais, dos indígenas!

Desenvolvimento versus Meio Ambiente

Petrolina é a primeira cidade ribeirinha ao São Francisco que encontro, com estrutura urbana similar aos grandes centros do País. Todas as demais vivem uma situação de meio século de atraso, um universo congelado no tempo onde até carros de boi existem e são utilizados como meio de transporte, assim como muares e cavalos para tração animal, nas cidades e no campo.

A economia do São Francisco, via de regra, é de subsistência e depende apenas do escambo e de um primitivo comércio local. Ocorre um tremendo isolamento devido às péssimas condições das estradas, ao abandono das ferrovias e das hidrovias, e à baixa produtividade das lavouras e da incipiente indústria local.

Enquanto isso, o “Sul Maravilha” se distancia “centenas de milhas daqui”! Aliás, os grandes centros urbanos do Brasil desconhecem a realidade dos sertões nordestinos. E a televisão, quando mostra, exibe um aspecto romântico da miséria, mais próximo do folclore e das lendas do que da vida real. E as decisões são tomadas por pessoas que não conhecem esse Brasil esquecido.

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