quinta-feira, 8 de julho de 2010

DE PIRANHAS A PIAÇABUÇU

Piranhas, 01/12/2009 – 22h22

Visita à Hidrelétrica de Paulo Afonso

A visita a Paulo Afonso foi fantástica! Conhecer as hidrelétricas, ver as cachoeiras mesmo vazias, ver de longe a antiga hidrelétrica de Delmiro Gouveia, Angiquinhos, presenciar aquele cenário que, um dia, foi livre das enormes paredes de concreto, nos faz pensar nos danos permanentes que causamos ao meio ambiente e que são irreversíveis...

Fui com a Alzeni, e caminhamos sem pressa por todas as instalações da CHESF, conhecendo cada detalhe, admirando o cuidado com a urbanização dos ambientes internos, procurando cada cenário mais adequado para as lentes de minha câmera.

É um espaço arborizado e com construções antigas e robustas. Não havia quase ninguém nas vias internas, exceto um guarda na portaria, que nos autorizou a entrada sem maiores exigências, e outro guarda próximo às amuradas das cachoeiras. Pouquíssimos visitantes, pois era segunda-feira.

Ao ver a cachoeira pela primeira vez tive uma decepção: um filete de água descia pelas paredes de pedra e escorria até o canyon, onde o nível de água também era bastante baixo. O bondinho que mostra uma visão panorâmica do canyon estava desativado devido a um acidente com a parede de pedras que o sustenta. Mesmo assim, fomos até o ponto de onde ele sai.

Também visitamos uma espécie de caverna, um respiradouro para o salão das máquinas da hidrelétrica. Um cenário interessante, mas nela havia um grupo de visitantes que não nos deixou ver direito seus detalhes. Só tirei umas duas fotos.

Pelo lado de fora das instalações da CHESF chegamos à beira do lago de retenção das águas da represa, com um belo jardim, muito bem cuidado, ponto de encontro das famílias nos finais de semana, e com muitos carrinhos de sanduíches e garapa.

Chegada a Piranhas

Ontem consegui transporte e levei a canoa para um lugar chamado Rio do Sal, onde existem dois catamarãs que fazem passeios pelos canyons do rio São Francisco. Coloquei o meu barco na água às 10h00, ajudado pelo motorista de uma “caravan” que me levou do hotel até lá, cerca de 20 km.

Os catamarãs seguem rio acima até bem próximo da barragem da hidrelétrica PA IV que eu visitara na véspera. Tive que seguir adiante depois daquele ponto, pois não daria para retornar remando contra a correnteza. Deve ser o trecho mais bonito.

Remei o dia todo e a parte inicial é muito bonita, com paredões de rocha confinando o rio de águas cor de esmeralda, até 80 metros de pedra bruta cercando o corredor. Mas, ao contrário do que imaginava, a correnteza é fraca e progredi lentamente durante todo dia. Ao final da tarde estava a menos de 30 km de Paulo Afonso e distante outros trinta de Canindé de São Francisco. As distâncias não combinavam com a expectativa.

O rio não é uma linha reta, mas uma sucessão de grandes curvas, alargando-se sempre até se tornar um gigante esparramado pelos vales do maciço inundado pela represa. O sol já se punha quando cheguei em um lugar enorme, com uma ilha redonda dividindo o rio e algumas casas incrustadas nos poucos vazios de rocha onde podiam se fixar.

Pensei em pedir um espaço para minha barraca, mas não havia. As casas estavam nos únicos espaços disponíveis. E nelas havia apenas mulheres e crianças indígenas, descendentes dos Pankararus, que deviam estar em suas canoas, pescando nas proximidades.

Ouvi uma música alta em um rancho atrás da ilha redonda: lá parecia haver espaço para acampar e segui em sua direção. Mas quando cheguei no meio do lago, além da correnteza em contrário, começou a chover e a ventar muito forte. Eu não conseguia ir adiante, pois vinham ondas de todas as direções, tentando me arremessar contra as margens, ou virar o barco.

Depois de muito esforço inútil, desisti e voltei com dificuldade. A progressão continuava lenta, mas eu precisava sair dali. Ao lado da ilha, próximo às casas indígenas, havia um grande recuo do rio em forma de enseada, bem tranqüilo, e foi para lá que me dirigi. Ali também havia casas nas encostas íngremes, mas continuavam ocupando os únicos espaços disponíveis.

A noite já se aproximava e eu não conseguira abrigo. Dei a volta na enseada e só vi casas rústicas, muitas desocupadas, mas com objetos nas varandas e canoas ancoradas na frente. Pelo menos não havia ondas, e um resto de luminosidade me orientava a navegação. A paisagem era lindíssima!

Encostei a canoa em uma pedra e a fixei com elásticos. Resolvi passar a noite ali mesmo e me ajeitei como pude, deitando-me sobre a bagagem e me cobrindo com a rede e uma toalha. Nesse horário de lusco-fusco os insetos atacam às centenas e não há como evitá-los, pois eles nem se importam com os repelentes ou com o creme do bloqueador solar.

Eu me defendia com a toalha, desferindo golpes para todo lado, sem muita eficiência, pois sentia as picadas em minha pele. A lua iluminava o cenário e, aos poucos, os insetos se foram e fiquei em paz naquele refúgio improvisado. Só ouvia o marulhar das águas nas pedras, e sentia o balanço constante do barco. Acho que cochilei umas duas horas e acordei com a calmaria.

Decidi seguir adiante, contra o bom-senso e a razão. Minha intenção era amanhecer próximo à barragem e remar a noite inteira, quando o rio se acalma. A chuva tinha parado. No entanto, bastou eu sair daquele refúgio e retomar o caminho para o vento voltar mais furioso. Agora não dava para retornar...

Remei vigorosamente contra as ondas, tentando não ser arremessado contra as pedras ou para o meio do rio. O barco ziguezagueava como um doido! Bastava eu puxar o remo de um lado e ele virava bruscamente para o outro! Estava exausto e não conseguia sair daquela situação arriscada, até que vislumbrei uma reentrância na rocha; parecia segura.

Ao seu lado havia uma árvore espinhosa, com os galhos se debruçando sobre a água e abrandando as ondas. Joguei a canoa debaixo dela e me segurei nos galhos como pude. Foi uma boa opção; amarrei os elásticos em vários galhos e o bico da canoa se fixou em uma forquilha, dando certa estabilidade.

O conjunto balançava para todos os lados, fazendo um barulho desagradável e irritante, mas estava seguro. Arrumei as sacolas e me ajeitei de novo como pude, e cochilei por mais algum tempo. Havia relâmpagos no horizonte, mas a chuva se foi e o céu estava estrelado. Via a lua e a via láctea sobre mim.

Acordei com o silêncio. Tudo estava calmo e resolvi prosseguir mais uma vez. A canoa deslizava rápida e me empolguei com a velocidade que imprimia com meu remo! Nem percebi quando uma curva me colocou de volta. Sentia o remo duro na água, e olhei o GPS, desconfiado de que alguma coisa saíra de meu controle. Pensei que tinha pego um canal do rio. Ao ler o GPS ignorei uma informação importante porque não tinha as referências visuais. A remada se tornava cada vez mais difícil.

Depois de meia hora percebi que tinha retornado ao mesmo lugar: lá estava a ilha redonda e a enseada... uma frustração! Perdi uma hora de remo, mas resolvi prosseguir, desta vez com mais atenção e com o GPS sobre o meu joelho, seguindo a bússola e observando as paredes das rochas para encontrar algum padrão que me orientasse. Quando cheguei no ponto em que me perdera percebi o motivo: eu fixara uma referência nas rochas, uma grande mancha esbranquiçada e não vi que as paredes do canyon faziam suave curva à direita o tempo todo. Quando girei o barco para corrigir o rumo vi a passagem aberta em minha frente e segui em sua direção! Foi meu erro!

Remei por muito tempo e perdi a noção da hora. Pensei que logo amanheceria, pois o céu clareava no horizonte. Na verdade, não sei que clareira era aquela porque era apenas uma hora da manhã! O tempo realmente anda devagar no rio! Como já estava muito desgastado pelos enganos e pelo esforço de um dia longo e cansativo, encostei o barco para mais um descanso. Dessa vez não havia vento nem ondas; amarrei a canoa em uma pedra e dormi por três horas.

Acordei às quatro horas da manhã, agora com a claridade real do sol no horizonte. Remei das quatro até as nove horas. O sol estava forte e o rio se tornava um imenso lago de águas paradas, com ramificações em todas as direções. Cheguei a uma pequena praia. Parei o barco e tomei um delicioso banho!

Estava precisando disso para relaxar. A areia tinha umas partículas douradas em suspensão e brilhavam sob o sol. Peguei uma garrafa e coletei a água com a areia dourada.

Voltei a remar e o vento fustigava o barco com violência. Havia uma passagem estreita entre as paredes das montanhas e me dirigi para lá. O GPS apontava para a terra e imaginei que haveria uma curva do rio logo adiante, e que me levaria ao meu destino. Na pequena passagem havia uma casa que parecia um restaurante, vista de longe. Quando me aproximei vi que era uma residência bem estranha: uma varanda com móveis de quarto, inclusive uma cama, ficava com o piso no nível do rio.

Perguntei a um homem na casa se eu estava perto de Xingó e ele me confirmou: era só seguir sempre à direita, depois da passagem estreita. No final eu estaria na barragem!

Depois de muitas voltas a muralha da barragem apareceu à minha frente. Em uma das pontas, três enormes catamarãs estavam ancorados no cais do restaurante das Carrancas. Desembarquei e comi uma muqueca excelente, mas pesada.

Lá me informaram que eu deveria conseguir um transporte para Piranhas, pois seria difícil fazer a portagem a pé devido à altura dos barrancos e à distância por estrada. Havia uma escuna sendo construída à beira da barragem; lá eu encontraria uma pessoa que me levaria onde eu quisesse.

Fui para a casa de Willams, gerente de banco em Piranhas e amigo do Paulo e de Alzeni. Ele me esperava no portão, ajudou-me a guardar a canoa e logo me colocou à vontade em sua casa; deu-me um quarto com banheiro, disse-me que tudo era simples, mas que eu poderia ficar por lá o quanto eu quisesse, como se fosse minha casa.

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