quinta-feira, 8 de julho de 2010

DE TRÊS MARIAS A ITACARAMBI





Buritizeiro, Retomada da expedição – 22/09/2009 – 18h30

Sul: 17º 54´ – Oeste: 45º 07´


Ainda não sei qual será o destino desta expedição... chove a cântaros! Mal deu para chegar aqui, armar a barraca, tomar um banho “de gato”, e logo a chuva chegou, precedida de uma ventania violenta. Eu estava em uma ilha, no meio do pasto!
Permaneci três dias em Três Marias... a secretaria de turismo me acolheu, pagou alimentação e hospedagem, graças à intervenção de um jornalista, meu “anjo da guarda” nesse trecho da viagem. Fiz uma saída simbólica da Prainha, que nos finais de semana fica cheia de turistas e moradores da redondeza. Fui a uma rádio para entrevista e dei um depoimento no jornal “O Sertanejo”, para o que tive todo apoio do Secretário e de seu assessor, responsável pela Prainha.

Hoje, o pescador Norberto, figura lendária dessa região, me conduziu até a “cachoeira” Grande. Na verdade, trata-se de uma corredeira que se avoluma graças à largura do rio (mais de 300 metros) e não pela periculosidade ou dificuldade que apresenta. Percebi que as corredeiras que enfrentei em junho, entre Vargem Bonita e Doresópolis, antes do encontro com o Samburá eram muito mais violentas, perigosas e difíceis! De qualquer modo, foi um privilégio conhecer e conversar com Norberto.

Ainda estou “frio” para a expedição! Foi um erro interromper a viagem em junho. Não consegui nenhum patrocínio, atrasei três meses a viagem e perdi a convicção. Tudo ficou mais difícil. Os apoios recebidos até agora não representam nada em termos financeiros para mim. Não preciso de hospedagens, nem da mídia local. E continuo um desconhecido para o País.

Não estou desprezando o esforço de tanta gente; apenas sou realista. A única mudança que houve e tem grande significado para mim é o apoio da Mory, minha mulher. Sua presença real e simbólica ao meu lado é a minha grande motivação. Venceu seus próprios temores para me levar de volta ao rio; dedicou-se a contatar prefeitos, vereadores e servidores municipais para tentar conseguir apoio em minhas atribuladas chegadas às cidades ribeirinhas; e mais do que isso, à sua maneira, com seu olhar carinhoso demonstrou ter orgulho de mim!
Mas e a mudança de estação? E as chuvas que chegaram fortes? Como farei? Estou preocupado com esse momento pois ainda estou em uma região de muita chuva, parte central de Minas Gerais. Com relação ao meio ambiente a transformação foi radical! Primeiro, a represa, de águas azuis e límpidas, em contraposição às águas barrentas do trecho que percorri. Depois da represa, águas verdes e cristalinas...


Para minha surpresa, as margens ainda tem belas matas ciliares, apesar de muita destruição, que continua acontecendo, sem que os responsáveis sejam punidos. Finalmente, muita gente habita as margens do São Francisco: ranchos e sítios!

Ainda faltam quase 70 quilômetros para Pirapora. Se a chuva parar amanhã, chegarei dia 23 à tarde. Chove muito! Por enquanto, a barraca está agüentando e o vento parou de fustigar. Tempestade! A água já está entrando por baixo da barraca... vai ser terrível, esta noite! E nada posso fazer... amanhã, mesmo que a chuva pare, estarei com a barraca encharcada... Vou tentar dormir e fingir que tudo não passa de um pesadelo! Minha vida é assim... nada acontece facilmente... tudo tem que ser pela via mais difícil. 

A tempestade aumenta – 02h00

Depois de ouvir uma revoada de pássaros resolvi verificar o nível do rio... que surpresa! Minha canoa já estava sob as águas, que se aproximavam perigosamente da barraca. Os raios e trovões já haviam cessado e a chuva estava mais branda.

Tirei toda roupa, enfrentei a tempestade, retirei a canoa da água e comecei a me preparar para uma possível retirada de emergência. Guardei o que pude, fechei as sacolas e as arrumei dentro do barco; tirei tudo, inclusive o saco de dormir e o isolante térmico; só ficou a barraca para me proteger. 



Foi um erro, pois a barraca estava úmida e a temperatura baixava rapidamente. Passei frio o resto da noite, observando o nível do rio. Para isso coloquei um pedaço de madeira, como marcador, na frente da barraca; se a água passasse daquele ponto, evacuação imediata!

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