quinta-feira, 8 de julho de 2010

Dificuldade e prazer, 5 de junho de 2009 – 19h20

Sul: 20° 21´ – Oeste: 46° 18´ – Altitude: 746 metros

Superado o grande desafio da portagem na cachoeira, minha expectativa era de que conseguiria um bom desempenho nas próximas remadas, percorrendo uns 20 a 30 km hoje.


Porém, meu entusiasmo não passou da segunda curva do rio! As corredeiras não só aumentaram em quantidade, mas o grau de dificuldade se tornou maior ainda!

Logo na segunda corredeira do dia cheguei a pensar em uma portagem; mas o tempo que se perde tirando todas as sete grandes sacolas, que estão sempre bem amarradas, o seu transporte, que consome muito esforço e o transporte do barco, que além de tudo produz fortes impactos em sua estrutura, tudo isso levado em conta me faz pensar em arriscar um pouco mais e enfrentar as corredeiras. Afinal, para isso vim até aqui. Optei por avançar pelo rio e deu certo. Foi difícil, mas saí ileso. Aos poucos irei adquirindo experiência para vencer esses obstáculos.

Continuei com novo ânimo, estimulado pelo bom resultado, e por passar mais duas corredeiras pequenas, quando ouvi o forte e inconfundível ruído de uma cachoeira... parei o pequeno barco e percebi que o rio estava todo obstruído por grandes rochas cinzentas.

Havia três passagens: um canal artificial na margem direita, provavelmente construído para uso no garimpo, já abandonado, e dois centrais, onde a força das águas produzia aquela espuma, as águas brancas dos esportistas de canoagem.

Caminhando pelas rochas, junto ao canal, percorri cerca de 150 metros, escalando e acompanhando as águas que, no começo, até pareciam possíveis de serem superadas.

No entanto, logo depois de uma curva à direita, o rio parecia um grande liquidificador, as águas sendo atiradas para todo lado, provavelmente devido a um buraco ou uma pedra grande no meio do canal.

Impossível atravessar por este caminho...

Restou a opção da portagem. Eram cerca de duas e meia da tarde. Atravessei com o barco para a margem esquerda, onde havia uma pequena praia ao lado de uma cachoeira, na qual desembocava algum pequeno afluente do São Francisco.


Ancorei a canoa e subi no barranco. A mata densa ocultava uma antiga picada abandonada. Peguei meu facão e, constrangido e triste por desmatar, refiz parte da trilha, cortando o mínimo de vegetação necessária para permitir minha portagem.

Às quatro da tarde só faltava transportar a canoa, o mais complicado naquele lugar. Resolvi alterar os planos e conduzi a canoa pelo rio, com as duas amarrações de proa e popa usadas anteriormente, até chegar à cachoeira. Puxei a canoa por cima das águas e a baixei depois da corredeira. Deu certo, e às cinco da tarde já estava montando meu acampamento.

Refleti bastante acerca dessas dificuldades, muito maiores do que o esperado. A primeira sensação é frustrante: não sei quanto me desloquei nesses cinco dias, mas foi muito menos do que os cento e quarenta quilômetros planejados até Iguatama, onde deveria estar chegando. Talvez bem menos da metade do percurso, pois perdera a noção das distâncias...

Com certeza, quem me acompanha pelos sinais do rastreador deve estar muito preocupado com os deslocamentos insignificantes que tenho registrado. Mas não há saída; infelizmente, nada posso fazer quanto a isso. Estou em um local selvagem, deserto, isolado de toda civilização. Não há nenhum sinal de celular... de qualquer modo, tenho meu SPOT comigo.

Por outro lado, essa é a maior e mais complexa experiência de minha vida. Estou sobrevivendo com meus próprios recursos, vencendo desafios que nunca concebi, superando limites que jamais poderia imaginar que fossem possíveis para mim.

Quantas pessoas, na sua vida, têm uma oportunidade como essa? Quantas se arriscariam a deixar todo conforto do mundo para percorrer um caminho tão inóspito e selvagem, em busca de um ideal?

As imagens que venho registrando são únicas, belíssimas e exclusivas. Já tirei mais de 250 fotos, sem desperdício, e ainda não percorri nem 1% de todo trajeto de minha viagem. Não economizo paisagens nas fotos.

Meu receio é que as baterias se esgotem antes que eu chegue a Iguatama e deixe de registrar imagens irrecuperáveis, sequer em minha própria memória. Quanto à segurança, eu me preocupo com uma mudança repentina do tempo, uma chuva forte e inesperada, um vendaval... talvez até na cabeceira do rio, sem que eu perceba...

Como não tenho opções, acampo sobre rochas, a dois ou três metros do rio. Qualquer aumento no volume das águas pode ser fatal para minha expedição... melhor nem pensar; fora isso, estou tranqüilo, bem alimentado e com muita disposição e saúde.

Só tenho escrito relatos... a desejada inspiração me abandonou, talvez devido às intensas experiências que tenho vivido, e que deixam todos os meus sentidos ligados o tempo todo.

Aqui não há condições de se cometer erros. Qualquer distração pode ser fatal. Um pequeno acidente pode ter conseqüências imprevisíveis devido à distância dos centros de atendimento e à dificuldade de resgate. Parece que estou vivendo um episódio da TV... “survival”, “à prova de tudo”, algo assim... minha diferença é o planejamento detalhado e meu preparo físico.

Enfim, vivo uma experiência real, intensa, única e inesquecível. Tão intensa que adormecer se torna difícil, tantas são as memórias captadas e resgatadas pelo dia afora.

Até agora meu barco tem resistido heroicamente, apenas com arranhões sobre a pintura e pequenas rachaduras no casco, na popa e no centro da canoa. Nada grave, enfim.

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