quinta-feira, 8 de julho de 2010

Distância de Pirapora: 45 km – 23/09/2009 – 17h17

Sul: 17º 41´ 47” – Oeste: 45º 01´09” – Altitude: 482 metros

Acordei às 06h00... na verdade, quase não dormi depois das 02h00! Pela manhã a chuva continuava a cair fraca, mas toda barraca estava encharcada! Esperei cerca de uma hora mas, como não havia perspectiva de o sol se abrir, resolvi prosseguir a viagem. Desmontei a barraca e a coloquei no barco, sem nenhuma preocupação de arrumá-la! Não tinha jeito mesmo...

Tive que espantar o gado para ter um pouco de privacidade, pois eles simplesmente queriam revirar todo meu equipamento em busca de comida! Só não vieram antes porque estava chovendo... bastou abrandar um pouco a chuva para eles se aproximarem devagarinho... primeiro, do barco, depois das sacolas que ainda estavam fora. Aproveitaram minha ausência para atacar!

Dá para compreender a analogia que os hindus fazem entre o boi e um místico... esses animais são tranqüilos e pachorrentos, caminham devagar e emitem aquele mugido inconfundível e grave... ruminam a comida como um macrobiótico, e não enfrentam seu inimigo, exceto quando este se aproxima de uma fêmea no cio ou com filhotes...

Fiquei apreciando aqueles animais enormes à minha volta, sem representar nenhum perigo... se fosse um animal selvagem, eu estaria morto. São belos e parecem sábios, embora sejam mesmo tolos, e caminham para o matadouro sem reagir, como Gandhi!


Devo ter saído lá pelas oito horas. Remei até o meio-dia, quando a chuva voltou a cair. Procurei um lugar para montar a barraca, mas a mata era bem fechada em ambas as margens. Parei em um rancho e perguntei se poderia montar a barraca no terreno ao lado da casa. O dono, Francisco como o rio, foi até a canoa, ajudou-me a tirar a bagagem e disse que eu ficaria hospedado em sua casa! Hospitalidade Mineira!

Francisco mora em Uberlândia, mas passa boa parte do ano em seu rancho. Estava com seu pai, Francisco como o filho; ele, com 56 anos, o pai com 72. Ofereceu-me um banho que aceitei de pronto! Banho quente, com direito a sabonete e toalha! Depois daquela chuva, era tudo o que eu desejava! Tomei o banho como quem bebe água em um deserto!

Depois, enquanto o pai preparava o almoço, saímos para conhecer o rancho, de 36 mil metros quadrados; na verdade, era uma pequena ilha do São Francisco, concessão da Marinha, que é responsável por todas as terras dentro e às margens do rio.

Francisco me disse que encontrara as terras completamente desmatadas... plantou árvores frutíferas para se alimentar e atrair pássaros; seu aroma se espalhava por todos os lados da ilha. Criava galinhas caipiras e d'Angola, com aquela aparência rajada, branca e preta, e seu pescoço preto e cabecinha minúscula. Andavam soltas pelo terreno à frente da casa, onde curiosamente ele jogava pontas de cigarros e embalagens de refrigerantes e cervejas. Dizia que de vez em quando retirava tudo e levava para a cidade, jogando tudo nas lixeiras... estranho hábito...

No interior da ilha existem duas ou três figueiras enormes, que ele considera seu maior tesouro! Realmente, são árvores magníficas, entrelaçadas no mato com seus troncos negros, contrastando com as folhas verdes e brilhantes.

Francisco é um bom homem. Construiu um chalé, que aluga para pescadores, aos quais ensina as “manhas” e mostra os melhores lugares para pesca no Velho Chico. Estava justamente esperando um grupo de pescadores quando eu cheguei.

Almoçamos depois de tomarmos umas doses de cachaça e provar um tira-gosto... coisa de mineiros! Tira-gosto, como disse o delegado lá de Iguatama, é para se comer depois de um gole da cachaça: para tirar o gosto! Arroz, feijão, jabá, torresmo, mandioca cozida e salada de tomates, além de um suco de tamarindo. Uma delícia!

Terminado o almoço, a chuva já havia parado; como ainda era bem cedo, resolvi prosseguir e ganhar distância. Precisava avançar mais para poder chegar a Pirapora ainda no dia 24 de setembro, dia do aniversário de minha filhota Luciana!

A tentação do conforto era grande, mas agradeci-lhes a hospitalidade e segui meu caminho por mais de uma hora, quando a chuva voltou a cair. Encontrei um local muito bonito, mas com muita lama. Sem escolha, pressionado pelo tempo e pela chuva, montei minha barraca ainda molhada, subindo pelo barranco e procurando um lugar no enorme gramado à minha volta. Deixei-a secar no vento, antes de ocupá-la.

Para minha sorte, a chuva parou e até apareceu uma réstia de sol... mas a noite seria longa, pois ainda era muito cedo para dormir, e não tenho fome nem disposição para preparar um jantar. Comi demais e bebi umas várias doses de cachaça no almoço!

Durante nossas conversas Francisco me dissera que há alguns anos (depois soube que foi em fevereiro de 2004) uma indústria metalúrgica de Três Marias fora responsável por um terrível desastre ecológico às margens do São Francisco. Essa indústria (Votorantim), próxima à ponte da BR-040, explora o manganês e joga seus dejetos (minério processado, produtos químicos, metais pesados, ácidos, etc) em um lago formado à beira do barranco, à margem do rio.

Durante a temporada de chuvas a barragem abriu as comportas e toneladas desses produtos foram lançadas ao rio, causando a maior mortandade de peixes e poluindo suas águas. Durante muitos meses os pescadores foram proibidos de pescar e ficaram sem trabalho! O incidente (crime ecológico) foi abafado pela imprensa e a empresa não pagou sua dívida social, nem corrigiu o problema; até hoje o lago está lá, ao lado do rio, diante dos olhos dos fiscais do Ibama, se porventura eles passassem por lá.

Os pescadores, sem condições de sobrevivência, penduraram as carcaças de grandes peixes, mortos pela poluição, nas árvores, ao longo do rio até Pirapora. Essas carcaças ficaram apodrecendo ao relento, como testemunhas do crime ambiental praticado. Infelizmente, esse não é o único crime ambiental praticado pelas empresas de mineração, que nunca tiveram grandes preocupações em preservar a Natureza. Prova disso são suas atividades mais “nobres”, sempre de alto impacto ambiental, sempre relacionadas à mineração e alto consumo de energia elétrica.

Mesmo lugar - 02h30

A chuva voltou! Mais branda que ontem, mas persistente... pelo tempo decorrido entre o relâmpago e o trovão¹, o olho da tempestade está a uns 5 km daqui. Por enquanto, não percebi nenhum aumento no nível das águas do rio.

Um péssimo sinal: minhas baterias estão todas com pouca energia! Creio que a umidade da primeira fase da expedição tenha danificado sua estrutura e reduzido seu tempo de vida pois, antes de retornar ao rio eu carreguei todas elas.

¹ Velocidade do som: 340 metros por segundo; calcula-se a distância da tempestade multiplicando-se a velocidade do som pelo tempo decorrido entre o relâmpago e o trovão.

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