quinta-feira, 8 de julho de 2010

Divisa de Ibiaí e Ponto Chic, 28/09/2009 – 19h00

Ontem visitei as ruínas da igreja de Barra do Guaicuí, à margem direita do rio das Velhas. Uma das paredes, onde seria o altar, está coberta pelas raízes de uma imensa e majestosa gameleira¹. Seus galhos se sobressaem acima do que seria o teto da igreja. As paredes se mantêm de pé, mas não existe telhado, nem imagens, nem mesmo piso! Mesmo assim, é uma figura imponente, graças à gameleira, e por estar à margem do rio e sobre uma pequena colina, dominando a vista das águas que correm abaixo.

Apesar dos esforços desenvolvidos pelo projeto Manuelzão², o rio das Velhas ainda é um imenso esgoto a céu aberto, fétido e imundo! A confluência com o São Francisco faz deste a grande vítima dessa poluição, que traz os dejetos da grande Belo Horizonte, com uma população superior a três milhões de habitantes e muitas indústrias poluentes, e se propaga rio abaixo, por quilômetros, tornando impróprias para beber as suas águas, e contaminando os peixes que são capturados e comercializados mesmo assim.

Hoje me levantei muito cedo e consegui iniciar o remo às 06h30. Às 10h30 já estava chegando a Ibiaí. É uma visão estranha: metade do rio é tomada por uma praia de areia, onde construíram um quiosque. Muitas pessoas se divertem à margem... quando o rio sobe, na época das chuvas, o quiosque é levado pelas águas; todos os anos é construído um novo quiosque. A areia se estende, submersa e quase à superfície, até três quartos da largura do rio, tornando difícil a navegação neste local.

A cidade é pequena, muito quente e, fora a prainha, sem nenhum atrativo. Conversando com moradores, soube que não há empregos e a população não cresce, pois muitos jovens buscam outras cidades para trabalhar. Muitos dos que ficam se embriagam e abusam do rio, que já causou muitas vítimas por afogamento. Hoje mesmo, enquanto eu almoçava, um rapaz embriagado desapareceu nas águas barrentas e poluídas do São Francisco.

Logo ao entrar na cidade, encontrei uma senhora, sentada sob a sombra de uma grande árvore, no alto do barranco. Ela resmungava chorosa e bem baixinho... senti pena e lhe perguntei por que estava assim tão triste e inconsolada. Ela me fitou longamente e me disse que tinha perdido seu marido há muitos anos e teve que cuidar sozinha de seus dois filhos. Com o tempo, adolescentes, um se envolveu com drogas e bebidas, o outro se envolveu com ações criminosas; acabaram com tudo o que o marido lhe deixara, e hoje sua modesta pensão não dava sequer para ela se alimentar e viver.

Um sentimento de impotência me tomou, pois nada poderia fazer por aquela mulher sofrida e solitária. Deixei-a ir e prossegui minha busca das razões de tamanho sofrimento... o que leva seres humanos a tamanha decadência moral?


Seguindo meu caminho me deparei com outros locais onde o rio é tão raso que minha canoa chegava a raspar o fundo do casco na areia! Logo depois de uma segunda prainha fui alcançado pelo vapor Benjamin Guimarães, que seguia viagem para Januária, também um de meus destinos. Ao passarem, seu comandante soou o apito do barco, conforme havia me prometido. Aquele som longo me pareceu um lamento, a saudade, talvez, de uma época de glórias, luxúria e riqueza que não existem mais.

Não sei por que, mas fiquei muito feliz com aquela deferência... o barco pareceu-me vazio... poucas pessoas no convés além dos tripulantes.

Amanhã chegarei a São Romão ao final do dia, pois faltam menos de 50 km. Devo pernoitar na cidade e permanecer mais um dia por lá, por se tratar de uma cidade histórica, com mais de 400 anos! Devem existir muitas construções antigas, que espero ver preservadas. Vamos conferir...

Ontem tive uma baixa crítica em meus equipamentos: ao montar a barraca sobre um barranco de uns 2 metros de altura, uma das varetas que sustenta a cobertura escapou de minhas mãos e lançou-se para dentro do rio. Saltei imediatamente na água e mergulhei à procura do objeto, várias vezes, sem êxito... desapareceu... acabei montando a barraca com apenas uma haste, fixando-a em um galho de árvore.

Em Ibiaí encontrei apenas uma barraca de quatro lugares, mas tive que comprá-la. Quando a montei, para minha surpresa, era um pouco maior que a minha... a barraca é bem alta e confortável, embora de qualidade inferior. Problema resolvido.

À tardinha, depois de ultrapassado pelo Benjamin Guimarães, procurei um local para acampar, mas estava difícil. A mata nas margens era bem densa, e um pescador me alertara sobre a presença de onças na região. Às cinco horas encontrei um lugar, mas era de um rancho. Perguntei a um senhor à beira do rio se poderia acampar ali, e ele me respondeu que sim, desde que pagasse dez reais! É claro que não aceitei! O que ele me oferecia além daquilo que a própria Natureza me dava de graça? Nada!

Para minha sorte, uns metros adiante encontrei um local excelente, apesar do barranco alto e de muitos insetos. Ficava sob uma árvore frondosa e tinha uma bela vista da curva do rio. Encostei a canoa sob um arbusto à beira-rio e subi o barranco. Tive que subir todos os sacolões, pois não queria deixar nada à margem e visível...

Juntei gravetos e galhos secos caídos no barranco e acendi uma fogueira para espantar os insetos. Aproveitei para queimar o lixo deixado por pescadores: muitos sacos plásticos, garrafas pet e outras sujeiras abandonadas sobre o barranco.

Minha canoa ficou protegida atrás do arbusto que se debruçava sobre o rio, escondendo-a completamente, e formando um portinho! Estava bem instalado!

Como ontem, usei a canoa como uma banheira confortável para tomar banho. Foi a maneira mais prática que encontrei quando as margens não me permitem entrar no rio, seja devido à lama, seja pelos insetos. E acabo por lavar o barco também!

¹ O termo Gameleira, além de ser a designação comum a diversas árvores da família das moráceas, especialmente as do gênero Ficus, com madeira utilizada para a confecção de gamelas e objetos domésticos, pode remeter mais especificamente às seguintes espécies de árvores: Coajinguva (Ficus insipida); Gameleira-branca (Ficus doliaria); Clusia burchelli da família das gutíferas, nativa do Brasil (Maranhão), de folhas coriáceas, flores róseas, em cimeiras e drupas piriformes. A maior gameleira do Brasil, também chamada de figueira é a Ficus enormis. A Ficus doliaria (gameleira-branca ou guaporé) assim como a Ficus vermifuga (gameleira-brava) segregam látex de propriedades anti-helmínticos. Uma das espécies é trepadeira, quando nova, podendo desenvolver-se em outras árvores. Também chamada de iroko, suas folhas são utilizada no preparo de água sagrada nos rituais da cultura afro-brasileira.

² Projeto “Manuelzão” - http://www.manuelzao.ufmg.br/ - “Conhecer a realidade de um rio de seu melhor ângulo: o de dentro. Essa foi a proposta da Expedição Manuelzão desce o Rio das Velhas, realizada pelo Projeto Manuelzão em 2003. Três navegadores percorreram de caiaque todo o curso do rio, em seus 804 quilômetros, indo da nascente, na Cachoeira das Andorinhas, até a foz, no São Francisco, em Barra do Guaicuí.”

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