quinta-feira, 8 de julho de 2010

Divisa de Pedras de Maria da Cruz e Januária, 03/10/2009 – 18h05

Sul: 15º 41'04” – Oeste: 44º 31'48” – Altitude: 460 metros
São Francisco é uma linda cidade do oeste mineiro! A que mais valorizou o rio até agora, pois sua igreja é vista à distância e, à chegada, há um excelente local para ancoragem de barcos. Todas as cidades ribeirinhas do São Francisco deveriam pensar em sua maior vocação, que é estar e ter nascido à margem do rio, de onde chegam seus alimentos e as pessoas que vivem e se movimentam por essa estrada de água!

Também tem um serviço de balsa, como em São Romão, para travessia de pessoas, veículos e cargas, além do transporte de passageiros em grandes canoas com motor central a diesel. Muitos desses barcos também transportam areia para São Francisco.

A cidade oferece um grande hotel, com diária econômica e excelente café da manhã, 70 quartos em várias categorias, e um belo restaurante, à beira-rio, onde comi a melhor muqueca de surubim da minha vida! Imperdíveis os dois!

Escolhi um quarto mais simples, no térreo, com banheiro e ventilador, cuja diária era de apenas R$15,00 (inclusive com o café da manhã), e que, para meus hábitos espartanos já era um grande luxo! No café, cinco tipos de sucos naturais, cinco tipos de pães e de bolos, cinco frutas diferentes, café, leite, chocolate, chás de vários tipos, mussarela e mortadela! Fartei-me todas as manhãs! Por que cinco? Não sei...

Só encontrei uma lan-house aberta mas consegui fazer o que era necessário: acessar emails, publicar um texto no blog, acessar minha conta bancária... as pessoas da cidade foram muito acolhedoras e gentis; sabem receber os turistas! A começar pelo recepcionista do hotel, que não apenas me tratou bem, como me ajudou a levar a canoa e todas as tralhas para o hotel... e não era fácil a altura do barranco! Na minha volta ao rio ele também me ajudou, e até conseguiu um carro para o transporte! Dessa vez levamos tudo em um só carreto, sob os olhares e as fotografias de um funcionário da Comissão Nacional de Energia Nuclear, um técnico que dá apoio aos pesquisadores que estavam lá para analisar a possível contaminação por flúor em poços artesianos.

A cidade demonstra uma forte vocação comercial, principalmente vestuário e calçados. Curiosamente, os comerciantes colocam grande parte de seu estoque nas calçadas, penduradas nos toldos ou amontoadas sobre caixotes! Existem muitas avenidas, quase todas bem arborizadas, com boa sinalização. O calor, assim como nas outras cidades ribeirinhas, é asfixiante! Mesmo bebendo muita água, é insuportável! Estranho é não haver quase sorveterias nessas cidades! Só existem dois estabelecimentos bancários: um público e um privado; nos Correios é possível movimentar também um terceiro.

Saí de São Francisco às 08h00, depois de dois dias na cidade. Remei com muita energia, pois o calor estava forte e queria sair logo de dentro do rio. Depois de algumas horas, lá pelo meio-dia, encontrei um canal estreito, à margem direita, formando uma ilha. Segui por ele sem saber onde iria dar, achando que se tratava apenas de uma pequena ilha. Para minha surpresa, a ilha se estendia por cerca de uma légua1!

Foi fantástico pois, sendo estreito, poucos conhecem esse canal e a Natureza, por conseqüência, está bem preservada, com uma razoável mata ciliar e muitos pássaros. Ao sair do outro lado percebi o quanto o rio está degradado nessa região; fora desse canal, a mata praticamente desapareceu por completo! Os ranchos se sucedem no caminho, com muita gente e muita sujeira atirada no rio sem respeito!

Também encontrei muitos pescadores usando enormes redes de arrasto sem o menor receio, pois não há nenhuma fiscalização! Nos quase oitocentos quilômetros que percorri até agora só encontrei um barco da polícia ambiental. Mais nada! De que adiantam leis que não são observadas nem controladas? Se não há punição para os infratores, a lei é dispensável... pior ainda, pois o estado policial é desmoralizado por quem comete crimes ambientais à revelia da lei, sabendo que não serão punidos.

Nosso país tem excesso de leis e falta absoluta de punições. E o pior é que as leis atuais são de má qualidade, ambíguas, contraditórias e sem regulamentação em muitos dos casos. É isso que assegura à bancada ruralista, truculenta e arrogante, a contínua expansão das fronteiras agrícolas do país, em detrimento do meio ambiente.

Melhor do que a prolixidade das leis seria a formação cultural de nosso povo. Um país onde a população é culta e consciente não precisa de tantas leis nem de tantas prisões. Não creio na Teoria do Bom Selvagem; sei que existem pessoas de má índole desde o berço; mas educação tira muitas pessoas das portas do crime e lhes concede oportunidades de desenvolvimento profissional e financeiro. Sem miséria, 90% dos problemas de criminalidade desaparecem. Sem miséria e com cultura, as famílias conseguem pensar em planejamento familiar e reduzir a marginalidade!

1 Uma légua equivale a, aproximadamente, seis quilômetros, e é a medida mais utilizada pelos pescadores e ribeirinhos.

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