quinta-feira, 8 de julho de 2010

Dores do Indaiá, Revisão de percurso, 18/06/2009 – 17h30

Sul: 19° 32´ 36” – Oeste: 45° 25´ 26” – Altitude: 618 metros

Em linha reta eu percorri cerca de 30 km em direção ao lago de Três Marias. No entanto, considerando as voltas que o rio dá, eu devo ter percorrido, efetivamente, uns 50 km! Amanhã poderei alcançar a ponte da rodovia que liga Belo Horizonte a Abaeté, e depois de amanhã chegarei à corredeira, logo depois da ponte da estrada de Abaeté a Pompéu, já na entrada da represa.

Aí reside meu dilema: remar toda represa e enfrentar as prováveis ondas ou transferir a canoa diretamente para Três Marias? Gostaria de remar no lago mas, cada vez que passa por mim um pequeno barco a motor, minha canoa balança desconfortavelmente por mais de 100 metros, até as águas se acalmarem novamente no rio.

Creio que seja devido ao excesso de carga que estou levando... embora a capacidade nominal da canoa seja de até 250 kg de peso, isso é irreal. Qualquer oscilação mais forte, em uma corredeira, é suficiente para que a canoa se encha de água em poucos segundos. Apesar de ser uma canoa construída para realizar longas expedições, creio que ela só seja eficiente com pouca carga, em volume e peso, e em águas tranquilas Em águas agitadas, devido ao seu fundo arredondado, ela se torna instável e facilmente se enche de água.

Meu rendimento nas remadas tem sido obtido à custa de muito esforço físico, que atribuo ao excesso de peso da embarcação. Hoje mudei a técnica de remada, fazendo um movimento com o corpo para a frente, buscando a água o mais à proa possível, e trazendo o remo com o corpo, até bem atrás, usando a musculatura das costas e do abdômen. Isso praticamente dobra a eficiência da remada e diminui o esforço no ombro e nos braços, o que me alivia as dores nas costas. É um ritmo bastante forçado; alterno essa técnica à tradicional para descansar e retomar o fôlego. Mas o rendimento é muito maior; acredito que consiga uns 12 km/hora nesta região.

Quebrei um dente comendo castanhas com granola. Ficou um buraco no dente do maxilar superior direito, mas, felizmente, não sinto nenhuma dor. Mas ficou uma estranha sensação de vazio, uma perda, mutilação... nada posso fazer.

Cada vez mais me convenço da artificialidade da divisão geográfica da bacia do São Francisco. A tentativa de simplificação didática em quatro sub-regiões não se sustenta ao se analisar as características ecológicas. Na verdade, toda divisão, seja qual for o critério adotado, é uma simplificação didática, uma vez que a bacia hidrográfica é um continuum de rios e tributários, matas e fauna indivisíveis. No entanto, as intervenções antrópicas criam hiatos que acabam por determinar o desaparecimento de certas espécies, a endemização de outras, a mudança de feição dos rios, como é o caso da construção de barragens, e até a inserção de espécies exógenas que passam a concorrer com espécies nativas, roubando-lhes o habitat e as presas.

“Como se atreve um leigo a falar de assuntos técnicos, afeitos às ciências ambientais?”

Atrevo-me na qualidade de ambientalista e observador atento, que convive diuturnamente com o rio há 20 dias, examinando e constatando cada detalhe, dormindo em suas margens, ouvindo e observando seus pássaros, conversando com ribeirinhos que passaram suas vidas no rio, enquanto que os doutos, muitas vezes, não conhecem o rio senão através de fotografias, cartas topográficas, viagens de turismo ou de coleta, ou mesmo de literatura, escrita por outros que também aqui não estiveram...

Só não sei das matas, pois os animais que lá se escondem não se mostram para nós... Às vezes, em minha barraca, sinto sua presença, ouço seus passos, percebo sua inquietação diante de um intruso. Mas basta abrir o zíper da barraca para que eles se escondam e tudo volta a se aquietar...

Hoje estou comendo o resto da feijoada de ontem. Feijoada vegetariana, acrescida de pedaços de salame, com arroz à grega, muito azeite e pimenta malagueta. O sabor não tem nada a ver com a feijoada tradicional: a carne é de soja, o feijão é azuki, faltam aquelas carnes gordurosas de porco, falta a caipirinha, a couve, o torresmo, a laranja... mas está deliciosa! Agradeço, mais uma vez à empresa de alimentos pela doação dessa comida tão bem preparada, saborosa e feita com carinho! Estou me mantendo saudável e disposto graças a esses alimentos... muito obrigado!

Como duas porções por vez, mas é por conta do grande esforço físico e do desgaste provocado por seis horas ininterruptas de remo por dia, além das horas de trabalho no acampamento, do transporte das sacolas e das portagens que fiz nas corredeiras.

Noite fria, 19 de junho de 2009 – 07h00

Amanheceu um dia gelado, com neblina densa e muita umidade. Aqui perto do rio, mesmo não chovendo, tudo amanhece molhado. E o calor emanado de meu corpo e da respiração acaba por se condensar na parte interna da cobertura da barraca, deixando tudo úmido e frio.

Com esse tempo não adianta acordar cedo, pois não quero remar com essa neblina. Não dá para enxergar nem a outra margem do rio! É preciso esperar que a neblina se dissipe, o que ocorre quando o sol aquece a terra, lá pelas 8 horas.

Como sempre, demorei bastante para dormir, tive um sono interrompido várias vezes, mas eu me sinto disposto e descansado. Acho que me falta um travesseiro...

Esta foi a primeira vez que me abasteci de água tirada diretamente do Velho Chico. Até hoje havia conseguido beber somente das águas cristalinas das cascatas de seus afluentes, exceto em Iguatama, onde peguei água da torneira e tratei. Ontem filtrei uns 9 litros. É uma água barrenta, e mesmo filtrada ela conserva a cor amarelada. Por via das dúvidas, coloquei umas 15 gotas de cloro e o gosto não será dos melhores.

Preciso aguardar o sol aparecer, pois minhas mãos estão geladas e não consigo sair da barraca para levantar acampamento. Tomei café da manhã aqui dentro mesmo!

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