quinta-feira, 8 de julho de 2010

Em busca de Iguatama, 12 de junho de 2009 – 19h00

Sul: 20° 13´ – Oeste: 45° 53´ – Altitude: 653 metros


Remei forte hoje, por sete horas seguidas, mas não consegui chegar a Iguatama. Nas curvas do rio formam-se redemoinhos que quase param a embarcação, quando não me obrigam a segurar o movimento com o remo para não rodopiar também.

Isso reduz muito a velocidade média, que já é baixa, pois essa região, ao contrário da anterior, tem muito pouca declividade. Da confluência do rio com a ponte onde passa a rodovia Piunhi – Bambuí, onde iniciei a remada hoje, até a divisa do município de Bambuí com Doresópolis, a Natureza é belíssima e encontra-se razoavelmente preservada.

É uma região cárstica, ou seja, possui estruturas geológicas propícias à existência de cavernas, que de fato existem. Durante horas remei admirando as fantásticas rochas que acompanham o rio. Algumas delas chegam a apresentar espeleotemas em sua parte externa, que comumente só acontecem no interior das cavernas. Nunca vira isso antes.

Espeleotemas são formações ornamentais das cavernas, sendo chamadas “estalactites” aquelas que descem do teto, e “estalagmites” as que surgem e “crescem” do solo, em decorrência do gotejamento e acumulação de calcário. É uma região belíssima e muito rica em cavernas.

Infelizmente, quando entramos no município de Doresópolis, além de se acabarem essas formações rochosas magníficas, também o homem deu um jeito de piorar bastante as coisas, desmatando as margens do rio e provocando o desabamento dos barrancos.


Primeiramente, as plantações substituíram as matas ciliares derrubadas. Desapareceu o canto dos pássaros, e os morros estão desnudados desde o topo até a margem do rio.

Devido a isso e à intensidade das chuvas este ano, as voçorocas¹ deixaram o solo exposto em quase toda extensão do rio no município. A grande quantidade de árvores caídas, centenas, com as raízes à mostra, algumas no meio do rio, é um cenário desolador...

Lamentavelmente, a devastação é grande demais para ser recuperada. Ainda assim, nas pouquíssimas manchas verdes que restaram, os pássaros reaparecem: gaviões, garças, periquitos, uma espécie de pato negro e muito esguio (biguá), diversidade incrível!

Hoje parei de remar às 15 horas para poder limpar minha canoa e as sacolas, que estavam cheias de lama; a canoa, com muita água no fundo, devido à chuva da noite passada e da parada no bar do Beto, cujo barranco estava muito enlameado.

Tomei uma sopa de fubá e me recolhi mais cedo. Agora venta bastante e deve chover novamente esta noite. Por isso, retirei o barco do rio e o deixei emborcado para mantê-lo limpo. Não quero chegar à primeira cidade da expedição com aparência de desmazelo.

Nessa região já existem mais pessoas morando próximas ao rio. Às vezes ouço vozes; outras, o barulho de máquinas agrícolas, cães latindo, ruído de veículos em alguma rodovia próxima... É curioso perceber o mundo apenas pelos sons! Com isso perco um pouco da privacidade e espontaneidade; afinal, acampar à beira de um rio implica em certa exposição para satisfazer às nossas necessidades de higiene.

Em Iguatama pretendo refazer minhas sacolas e, se possível, reduzir um pouco a carga, desfazendo-me do que foi inútil até agora. Também preciso recarregar todas as baterias, pois terei um longo trajeto, quase desabitado, até Três Marias... uns 400 quilômetros.

Por se tratar de uma represa, meu rendimento deverá cair bastante: as águas são bem mais lentas... hoje faço, em média, 10 km/h e na represa devo fazer menos de 7 km/h.

Terei também outra preocupação: não me perder nas inúmeras ramificações causadas pelo alagamento dos vales, quando da construção da hidrelétrica e sua represa.

Ontem, pela primeira vez, falei com minha família. Não pude falar com minha mãe. No entanto, a vontade de estar com eles é tão grande como se não tivesse havido esse contato. Amanhã completo 15 dias no rio.

Às vezes passamos anos convivendo com amigos, filhos, esposa, parentes e, no entanto, não dizemos mais do que trivialidades uns aos outros. Não percebemos o privilégio de estarmos junto com aqueles a quem queremos bem! A simples proximidade física satisfaz as necessidades afetivas. Porém, estando afastados e solitários, desejamos intensamente esse convívio trivial, às vezes traduzido apenas em olhares, carinhos fortuitos, gentilezas, gestos, atitudes que passam despercebidas e que, no entanto, nos satisfazem! “Estamos aqui!... vejam!” Poucas palavras para tamanho sentimento!

Se tivéssemos esses períodos de reclusão voluntária, de reflexão perante a vida, nossa percepção de quão efêmera é a existência talvez nos tornasse mais generosos ao manifestar esses sentimentos.

Esquecemos de dizer o quanto queremos bem a esses seres de nossas vidas. Deixamos de fazer um carinho, relembrar uma data especial e única apenas para nós... É tão fácil, tão simples e, no entanto, construímos muralhas em torno de nós... Ocultamos esses sentimentos e, a cada dia, fica mais difícil dizer simplesmente: “que bom estar aqui com você!”.

Em certa época de minha vida me interessei pelos conhecimentos esotéricos e acabei chegando ao Zen Budismo. Pertenci, por pouco tempo, a uma comunidade Zen.

Em um desses encontros fiquei uma semana, em retiro espiritual, em Campos do Jordão. Nossa rotina diária era meditação, trabalhos manuais, leituras e reflexões. Não existe religião mais solitária do que o Zen Budismo. O objetivo da meditação Zen é esvaziar a mente de todos os pensamentos para que se manifeste a Iluminação (“Satori”).

Os monges dedicam suas vidas a esse mister: a busca da compreensão absoluta! É como se, de repente, tudo se tornasse claro em nossas mentes... “Oh, my love, for the first time in my life, my eyes are wide open... Oh, my love, for the first time in my life, my eyes can see... !” Quem não se lembra dessa canção de John Lennon?

Não estou em busca do meu “Nirvana”, mas o isolamento nos torna introspectivos, vulneráveis a reflexões mais profundas, ao entendimento das razões primárias do existir, de termos vínculos nessa vida e buscarmos a felicidade.

Já para Budha², a felicidade não pode existir neste mundo, e só estamos aqui para nos livrarmos do ciclo de renascimento provocado pelo karma que trazemos de outras existências.

Esse seria, portanto, o objetivo último da Iluminação: atingir o estado de paz (o Nirvana, o mundo perfeito), e não precisar voltar, pela reencarnação. São infinitos os caminhos da Sabedoria, mas apenas um pode ser trilhado por cada um de nós!

¹ Voçorocas são fendas no terreno, geralmente causadas pela retirada de sua cobertura vegetal. As plantas e suas raízes protegem o solo da erosão causada pela água das chuvas.

² As Quatro Nobres Verdades são um dos mais fundamentais ensinamentos do Budismo. Em termos resumidos, estas nobres verdades referem-se ao sofrimento, sua natureza, sua origem, sua cessação e o caminho que conduz a essa cessação. Os budistas crêem que as Quatro Nobres Verdades estão entre as diversas experiências que Sidarta Gautama (o Budha) realizou durante seu processo de iluminação. (Wikipedia)

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