quinta-feira, 8 de julho de 2010

Ibiaí, 27/09/2009 – 18h30

Ontem tivemos nosso “cocktail” a bordo do Benjamin Guimarães; estavam presentes a Cristina, da Secretaria de Cultura, Esportes e Turismo de Pirapora; Anselmo, o Secretário; Narciso, Presidente da EMUTUR; Juliana, a vice-prefeita; Antônio e Closé, jornalistas; Comandante Manoel e Capitão Pedro, do vapor Benjamin Guimarães; outros convidados.

Cristina falou em nome da EMUTUR e convidou, pela ordem, Juliana, Closé e eu para falarmos a respeito do meio ambiente e da importância de minha expedição em defesa do rio São Francisco. Foi um sucesso!

Em meu discurso falei sobre a fragilidade da vida.

Mergulho com a tartaruga, na Laje de Santos, SP
Quando estive em Bonito, MS, há cerca de dez anos, eu e minha filha visitamos a gruta do Mimoso, uma pequena caverna alagada, e mergulhamos em seu primeiro salão, um enorme espaço vazio e inundado, cujos estalactites foram abatidos a tiro por vândalos; uma tristeza... essa pequena experiência me despertou o interesse por conhecer a vida submarina. Fiz muitos treinamentos e mergulhei em vários lugares mágicos de nossa costa e, passando por formações de corais e pela grande diversidade de vida marinha percebi como aquela vida era frágil e vulnerável às agressões humanas!... basta um aumento de 3º C na temperatura média dos oceanos para que toda vida marinha desapareça da face da Terra.”

Contemplação do Vale do Pati, Chapada Diamantina, BA
Depois percorri trilhas em muitas montanhas e parques ecológicos nacionais. Observei que a vegetação das montanhas depende de fatores climáticos e de proteção ambiental permanente. Aves e mamíferos são extremamente vulneráveis e animais de maior porte precisam de muito espaço, áreas enormes para caçar e sobreviver. Qualquer intervenção humana pode dizimar toda uma espécie e fazê-la desaparecer para sempre da face da Terra. Anualmente, centenas de espécies animais e vegetais deixam de existir e, com elas, uma parte da cadeia alimentar de outras espécies se torna cada vez mais vulnerável, até um dia desaparecer completamente.”

Caverna das Aranhas, PETAR, SP
Seguindo minha busca pelo entendimento da vida selvagem explorei muitas cavernas, e nelas havia vida, pequenos seres albinos, adaptados à escuridão eterna, e outros animais que buscavam no interior das grutas a proteção e o abrigo para sua sobrevivência. Soube que algumas dessas espécies são contadas em unidades, tão poucos são eles dentro de uma caverna. Basta um descuido, uma pegada humana em uma pequena lagoa de alguns centímetros no chão da gruta para que essa espécie desapareça. A vida é extremamente frágil no interior das cavernas...”

Agora navego pelas águas de um dos maiores rios nacionais, e percebo que a degradação ambiental compromete perigosamente o Velho Chico e seus afluentes, ameaçando-os até mesmo à extinção. Cada córrego que desaparece, cada espécie que se extingue, cada porção de agrotóxico que é jogada em suas águas, é responsável por consumir a energia dos rios e reduzir sua capacidade de sobrevivência.

Por isso, quando se trata do meio ambiente, qualquer intervenção humana precisa ser cuidadosamente planejada para evitar danos trágicos à vida. É da Natureza que extraímos tudo o que temos hoje para nossa subsistência. Aprendemos a recriar espaços para a produção de alimentos que, sem o entendimento dos processos naturais, jamais teríamos nos tornado a espécie mais bem sucedida desse mundo!

Falei-lhes sobre minha visão de mundo e de minhas concepções ambientalistas. Enfatizei que aqueles que falham nas pequenas coisas, certamente falhará na essência de tudo. Porque, para o meio ambiente, um detalhe insignificante poderá ser fatal! Declarei, assim, meu compromisso inabalável com a preservação da Natureza.

Então, citei uma frase que considero emblemática e definitiva para os amantes da Natureza, e cujo autor desconheço:

“A Terra não é uma herança de nossos pais, mas um empréstimo de nossos filhos!”

Porque, enquanto aquilo que herdamos nos pertence e dele podemos fazer o uso que quisermos, por mais irracional que seja, o que nos é dado por empréstimo terá que ser devolvido nas mesmas condições em que o recebemos... esta é a lei.

Cachoeira próxima a Casca Danta, Serra da Canastra, MG
Por fim, falei da importância da água, na evolução das sociedades, sempre em torno dos rios, e minha opção irrestrita pelo São Francisco, um ícone nacional dentre as bacias hidrográficas brasileiras pela sua importância histórica e cultural, pela diversidade biológica de suas matas e águas, pela grande população que vive em seu entorno e dele depende para sobrevivência, e pela sua dimensão geográfica.

Minha concepção é de que todas as bacias hidrográficas e sua vida selvagem e natural devem ser caracterizadas como Áreas de Preservação Ambiental, pois elas é que sustentam todos os ecossistemas, direta ou indiretamente; sem água não há vida.

Mencionei, ainda, a concepção retrógrada e predatória de que o país precisa expandir continuamente suas fronteiras agrícolas para assegurar alimentos para sua população e para o mundo. É uma grande estupidez, pois o conceito de “celeiro do mundo” é ultrapassado e perigoso; os rendimentos de comércio de produtos agrícolas são infinitamente inferiores aos produtos de alta tecnologia. Marx desenvolveu o conceito de “mais valia” onde os preços dos produtos crescem exponencialmente na medida em que é agregada mão-de-obra e insumos nos processos de industrialização. No caso do setor primário (extrativismo e agropecuária), muito pouco valor é agregado em sua pequena cadeia de suprimentos, geralmente dominada por poderosos empresários que representam mais de 80% de toda produção dos campos.

Pior do que estimular o Brasil a ser um país agrícola e comprometer nosso desenvolvimento científico e tecnológico é conceder subsídios a um único setor. Nenhum outro segmento da economia nacional recebe tantos subsídios, seja através de renúncia fiscal, seja pelo oferecimento de crédito financeiro a taxas irrisórias, que nem mesmo a população mais empobrecida pode utilizar, ou ainda pelo continuado perdão de suas dívidas.

Foi uma noite agradável e tive a oportunidade de me expressar livremente, para uma platéia qualificada, ainda que de projeção apenas local, muito diferente daquela plateia arrogante dos latifundiários mato-grossenses  Acredito que meu trabalho em pequenos grupos poderá ser valioso para a conscientização da população ribeirinha. Grandes projetos de comunicação, embora atinjam grandes públicos, tem menor poder de persuasão que o trabalho direto, com participação da platéia.

Sei que nunca será fácil, e que o poder econômico sempre prevalecerá ao bom-senso e à responsabilidade social, mas se nos omitirmos será muito pior, e o desastre poderá ser inevitável e vir muito mais rápido. Nossa esperança se apoia na próxima geração, já que a nossa fracassou por completo na tentativa de reverter esse processo de destruição.

Início da navegação, apenas um riacho, Vargem Bonita, MG
Hoje coloquei a canoa no rio às 08h00 e remei cerca de 50 km em pouco mais de 7 horas. Foi um bom desempenho. Estive em Barra do Guaicuí graças a uma carona providencial de uma draga que fazia trabalhos de retirada de areia na confluência do rio das Velhas com o São Francisco. Disseram-me os operadores da barcaça que a areia se recompõe continuamente naquele local e eles retiram cerca de 150 toneladas em cada viagem de 2 horas, fazendo, em média, 6 viagens por dia: 1.000 toneladas!

Não sei avaliar o impacto dessa atividade, uma vez que eles retiram sempre de um mesmo local e essa areia não é o resultado do assoreamento do rio, que ocorre em função da terra que é despejada no desmoronamento dos barrancos desnudados. Ela é trazida pelo rio das velhas e se acumula em sua foz.

Retirada de areia, foz do rio das Velhas, Barra do Guaicuí, MG
mesmo dilema tenho com relação ao uso do vapor Benjamin Guimarães. Ele queima lenha de “reflorestamento” e já falamos sobre isso; mas também obriga Três Marias a abrir suas comportas a cada viagem a Januária, pois o rio não tem mais um canal suficientemente profundo, na época da seca para permitir a navegação.

No entanto, existe a possibilidade de se utilizar o vapor como meio de conscientização dos turistas que hoje fazem esse percurso. Atualmente, o que se diz aos turistas é apenas o lado belo e romântico, além de estatísticas irrelevantes. O fato é que os turistas querem apenas se divertir, beber, cantar, conversar e curtir a viagem... pouco se importam com a história dos vapores que devastaram as margens do rio...

Panis et circencis”, diria Nero, sob os aplausos da platéia do Coliseu.
E la nave va...”, diria Fellini.

...e eu sigo meu caminho...

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