quinta-feira, 8 de julho de 2010

Iguatama, Acampamento na lama, 15/06/2009 – 18h30

Sul: 20° 10´ – Oeste: 45° 43´ – Altitude: 638 metros


Tentei remar mais tempo hoje e acabei sendo obrigado a acampar em meio a uma árvore derrubada pela enchente e sobre um lamaçal ressecado e rachado, prestes a desabar. Isto porque, em todos os locais que tentei desembarcar, a lama chegou aos meus joelhos. Senti-me na situação de uma pobre vaca atolada na lama, que encontrei pouco antes de chegar a este local. Tentei tirá-la, mas não consegui. Cheguei minha canoa bem perto dela, mas não sabia o que fazer. Se me aproximasse demais, ela certamente tentaria subir no barco, desesperada que estava. Pedi ajuda a dois pescadores que estavam na margem oposta, mas eles se recusaram a ajudar. Tive que abandoná-la, a contragosto.

Certamente, a pobrezinha iria morrer afogada ou de frio durante a noite. Na propriedade, aparentemente, não havia ninguém, pois não responderam aos meus chamados... era um animal de raça, creio que holandesa, e rastreada, pois possuía duas etiquetas em cada orelha.

Bem, falemos de nossa estada em Iguatama.

Fui muito bem recebido nessa simpática cidade, graças ao apoio de um jornalista de Belo Horizonte, Closé Limongi, que foi pessoalmente à cidade me entrevistar e me acompanhar em uma visita oficial, pois ele conseguiu o apoio e a atenção das autoridades locais.

O jornalista é diretor de uma revista que se propõe a apresentar os roteiros turísticos do estado de Minas Gerais. No próximo número, de junho de 2009, sairá uma reportagem de capa sobre minha expedição e a visita a Iguatama, onde conheci duas realizações importantes: o Centro Oftalmológico, que atende a mais de 100 pacientes por dia, sendo 30 de cirurgia de catarata, e a Faculdade de Ecologia e Estudos do Meio Ambiente, mantida pela Fundação Educacional Vale do São Francisco, autarquia criada pela prefeitura de Iguatama e que se propõe a formar especialistas no meio ambiente que contribuam para conhecer, catalogar e estudar a flora e a fauna da região, colaborando com sua preservação.

Muita coisa aconteceu neste final de semana. Ao chegar à cidade constatei, surpreso, que não existe uma área de portagem para os barcos de pescadores e comerciantes da região. O acesso por barco significa ter que deixá-lo à beira do barranco e escalar um trecho escarpado de 12 metros de altura, cuja base é de lama, sem nenhum melhoramento que facilite a vida dos barqueiros para chegar à entrada da cidade.


Depois compreendi a razão disso: quando chega a época das chuvas, o rio São Francisco chega a subir mais de 10 metros, atingindo a ponte e invadindo as plantações. Essa ponte interliga Formiga a Bambuí e é o único acesso por rodovia à cidade de 7.000 habitantes.

Os pilares da ponte estão cercados de lama e cobertos de destroços e entulhos de árvores arrastadas pela enchente. Apenas um terço da largura do rio é navegável. Deixei o barco amarrado sob esta ponte com a maioria das sacolas. Levei apenas o essencial. Disseram-me que não me preocupasse, pois ninguém tocaria no barco e em meus pertences.

Consegui me hospedar em um pequeno hotel a 500 metros da ponte. Assim que me instalei, Closé me ligou confirmando sua chegada para a manhã de domingo. À noite, um diretor da faculdade e sua esposa foram me visitar e dar as boas-vindas em nome da administração municipal. Fiquei sensibilizado com essa atenção.

Eu me deitei cedo, cansado e frustrado por não poder arrumar minhas coisas como pretendia. Seria impossível levar todas as sacolas até o hotel, tendo de escalar o barranco. Apenas coloquei as baterias para carregar e tomei um banho quente.

Logo pela manhã chegou Closé e saímos para fotografar uma enorme escultura de madeira de uma carranca, à entrada da cidade, do outro lado da ponte, na rodovia. Ao retornar ao hotel, uma comitiva de professores e diretores da faculdade nos esperava para a visita.

A Clínica Oftalmológica foi construída em mutirão pela própria população de Iguatama e atende a cidades de toda região. Os pacientes de Iguatama são atendidos de graça, mas os que chegam de outros municípios pagam um valor básico pela cirurgia de catarata. E a cidade ganha com o turismo de saúde.

Faculdade ainda está em construção, embora já ministre cursos de Biologia e Ecologia. Existem várias estufas de criação de mudas, uma clínica veterinária para tratar de animais silvestres acidentados, um pequeno museu com espécies empalhadas da região – geralmente animais mortos em atropelamentos – e um acervo de mais de 5.000 sementes (sementário) de plantas típicas da região, que está sendo catalogado pelos professores.


Hoje a faculdade possui cerca de 150 alunos matriculados e, assim como a clínica, não recebe ajuda ou verba oficial para sua manutenção e funcionamento. Quem nos apresentou a faculdade foi sua diretora.

Próximo a Iguatama existe uma lagoa de procriação, de nome Inhuma¹, parcialmente alimentada pelas grandes cheias do rio, e com fantástica diversidade biológica, que é objeto de estudos e monitoramento pelos professores e alunos da faculdade.

Essas visitas e o entusiasmo demonstrado pelos alunos, professores e diretores da faculdade por seus projetos evidenciam que, mesmo pequenos municípios com receitas pouco expressivas, podem realizar grandes obras e atender aos anseios da população. Basta acreditar, ter criatividade e agir com honestidade e transparência.

Iguatama foi criada em função do movimento de garimpo do ouro que existia nos tempos do Império. Era, então, conhecida como Porto Real pois havia uma balsa que transportava o ouro de um lado a outro do rio, onde se cobrava o "Quinto" (5ª parte da produção, que era destinada à Coroa Portuguesa).

Em Iguatama também funciona uma indústria (White Martins) que explora o calcário extraído das rochas cársticas da região. É triste saber que parte expressiva das cavernas brasileiras nunca será conhecida, por serem destruídas pela mineração.

Esse é o lado perverso do “desenvolvimento” econômico, construído sobre os destroços de nosso patrimônio espeleológico. A revogação do único decreto que protege as cavidades naturais brasileiras coloca em risco todas as cavernas brasileiras, mesmo aquelas que já são conhecidas e exploradas para fins científicos, turísticos ou esportivos.


Hoje pela manhã deixei Iguatama, levando comigo a gratidão por esse povo que me recebeu com tanta consideração e hospitalidade, valorizando meus esforços pela preservação de um de nossos mais expressivos recursos hídricos.

Remei por 8 horas seguidas, estimulado pelas energias recebidas de Iguatama. Acabei por me complicar na escolha de um local adequado para pernoite. Os barrancos, nessa região, desde a confluência com o Samburá, são muito altos, íngremes e barrentos. Às vezes é impossível desembarcar, tanta é a lama que existe em suas margens.

Estou em um lugar precário e instável, pois qualquer chuva poderá fazer toda essa terra ceder, levando junto minha barraca, as sacolas, a canoa e eu. No entanto, é improvável que chova hoje e, de qualquer forma, já me acostumei a desafiar, mesmo involuntariamente, o perigo, acampando sempre em áreas de risco iminente.

Desde o início de minha expedição tenho sido um sobrevivente, superando, dia após dia, as dificuldades e contratempos que surgem pelo caminho. Ainda restam inúmeros obstáculos; nem consigo imaginá-los, pois o rio se transforma a cada dia.


Closé prometeu-me entrar em contato com amigos que poderiam me ajudar a superar as corredeiras na entrada do lago de Três Marias, sob a ponte da estrada que liga Abaeté a Pompéu. Também fará contato com um clube náutico de Três Marias, para conseguir um local de pernoite e ajudar na portagem da barragem e da cachoeira Grande, uma corredeira localizada uns 10 km abaixo da represa. Disse, ainda, que tentará um contato com Dom Luiz Cappio, o polêmico bispo de Barra, na Bahia, que em 2008 fez uma greve de fome em protesto à transposição das águas.

Esta será uma longa noite: a barraca está toda molhada, a cama está em um plano inclinado, minha canoa está cheia de água barrenta e fétida, e as sacolas imundas! Não tive ânimo de preparar um jantar; preferi comer sementes com granola e tomar um refresco de limão. Este lugar insalubre está infestado de insetos! Felizmente, eles ficaram fora da barraca, esperando por um vacilo meu... Amanhã também será um dia difícil.

Não sei como farei para limpar a canoa. Preciso, pelo menos, retirar a água que a invadiu em uma corredeira causada por uma obra clandestina e estúpida de uma empresa que, sem licença do Ibama, desviou o curso do rio, reduzindo em 3 quilômetros o seu trajeto original, para escoar a produção de cana de açúcar daquela região. Tive que passar debaixo de uma ponte de madeira improvisada, com pouco mais de um metro de altura das águas do rio, com inúmeros pilares em torno dos quais a água forma uma estranha corredeira.

A água entrou quando o barco se chocou contra um dos pilares, girando sobre si mesmo e quase afundando. Poderia ter sido pior. Como não sabia dessa cretinice, navegava sem amarrar a carga. Se a canoa virasse, poderia ter perdido muita coisa, inclusive a filmadora e a máquina fotográfica, com todas as imagens captadas até agora em minha viagem!

Dores nas costas continuam a me incomodar bastante. O braço direito, que eu mais utilizo, fica com o movimento prejudicado e a remada se torna ineficiente. É uma dor antiga, crônica, que se agravou com o forte esforço das remadas. Eu me esqueci de comprar um anti-inflamatório em Iguatama para aliviar seus efeitos.

Olhando o mapa, estimo chegar à represa em três dias. Se a primeira portagem for rápida, creio que até o final de junho estarei diante da hidrelétrica. Pelo mapa, se eu usá-lo com a bússola para navegação no lago, não terei problemas para encontrar o caminho.

Também estou pensando em mudar meus planos de parada: só pernoitarei nas grandes cidades, como Pirapora e Januária, além de cancelar a visita às cavernas de Peruaçu.

Encerrando a viagem em Piaçabuçu e deixando de fazer o trecho de mar até Aracaju, creio poder terminar a expedição no final de agosto, talvez dia 28, aniversário de meu pai.

Como no lago de Sobradinho a navegação é prejudicada pelas grandes ondas que lá ocorrem, terei que aceitar o transporte da canoa por um barco maior, uma balsa ou chata, o que encontrar. Também terei que fazer várias portagens na região entre Juazeiro e Paulo Afonso, o que poderá encurtar a duração da viagem e assegurar esse meu novo propósito.

São atitudes sensatas diante dos inúmeros problemas que venho enfrentando na expedição. Não esperava tantos contratempos, e não tinha informações corretas e suficientes.

Além disso, estou bastante incomodado com a falta da companhia de minha família, e lamento não estar acompanhando o crescimento de meu netinho... são perdas expressivas para quem tem um vínculo tão forte com a família!

Ainda assim, terei coletado material suficiente para meu livro, tanto pelas observações constantes do meio ambiente, como pelos depoimentos e fotografias já obtidas.

Esse trecho em que me encontro é monótono e cansativo, pois não há mudanças significativas no ambiente natural e não existem comunidades ribeirinhas a visitar. Com isso, a expedição acaba se reduzindo a algo próximo à aventura, e não ao entendimento das sociedades locais, ou a reflexões sobre o significado disso tudo em minha vida.

Não encontrei um meio eficaz de modificar meu posicionamento perante essa monotonia da vida no rio São Francisco. Sinto-me limitado e incapaz de reagir... Meus pensamentos acabam se reciclando indefinidamente, pela falta de discussão e antagonismo. Isso restringe muito os impactos esperados em minha transformação intelectual.

Concluo que a vida no rio ou em qualquer outro ambiente natural e selvagem, se não estimulada por outros meios, tende a reduzir gradativamente a produção intelectual.

Não é a solidão que me incomoda, mas a falta de idéias, de inspiração para a criação. Sou vítima de meus próprios pensamentos, que se enclausuraram em idéias pré-concebidas, no círculo vicioso do raciocínio, embotado pela falta de diálogo. A dialética é essencial para a evolução intelectual, ainda que provocada apenas pela leitura. Para piorar esse quadro, minha veia poética se exauriu por completo. Perdi meu estilo literário e até mesmo o desejo de escrever.

¹ Inhuma ou Anhuma – nome de pássaro de porte médio, como as seriemas, encontrado nas regiões de cerrado de Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná.

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