quinta-feira, 8 de julho de 2010

Itacarambi, 06/10/2009 – 23h25

Cheguei na cidade às 16 horas de ontem. O dia foi extenuante devido ao sol intenso e ao vento, que tornavam cansativas e pouco producentes as remadas... progredia lentamente, parando a cada meia hora para beber água e recuperar o fôlego. Com a ventania, meu guarda-sol se tornara inútil, mais um estorvo para transportar na canoa.

O sol abrasador provoca forte evaporação das águas do rio, causando uma desagradável sensação de sufocamento. Meu corpo queimava em febre e me obrigava a passar protetor solar várias vezes por dia... o desconforto era desanimador!

Passei por um enorme banco de areia repleto de pássaros: garças, biguás, quero-queros e uma espécie semelhante a uma gaivota, muito territorialista e atrevida, que ficava fazendo vôos rasantes sobre minha cabeça, tentando me afastar dali. Essas aves voavam em bando, sempre fazendo enorme estardalhaço com seus grasnidos agudos e desagradáveis. Gostaria de conhecer seus nomes e saber seus hábitos... Passei ao largo e segui viagem para não molestar os pássaros em seu habitat...

Pouco adiante avistei um barco com dois pescadores que, estranhamente, lançavam uma tarrafa meio fechada bem próximo a um enrosco. Para minha surpresa, ao recolherem a tarrafa, veio um belo surubim de uns 20 quilos, com um tronco escuro... cumprimentei-os de passagem, admirado de sua habilidade em pegar esse peixe em um lugar tão complicado... percebi que esses pescadores têm uma grande intimidade com o rio e sabem exatamente onde se encontram os peixes maiores...

Já avistava um grande morro arredondado há algum tempo, e sabia que tinha algo a ver com a cidade que eu buscava: Ita (pedra) carambi (caramba, o que é isso?). Dizem que o nome significa “rio cheio de pedras” ou “rio da pedra redonda”... é estranho que não saibam a origem do nome desta cidade, que antes já se chamara Porto do Jacaré... seja qual for seu significado, está associado a essa pedra solitária à margem do rio.

À chegada me deparei com um barranco barrento, com várias escadas de metal e corrimão, onde os barcos de pescadores atracavam, em um ir-e-vir constante à praia que se formara do outro lado do rio, levando e trazendo mercadorias e banhistas. Junto aos barcos, muitas crianças e adultos, brincando nas águas, deixando-se levar pela correnteza, despreocupadamente... pensei no perigo que a brincadeira representava.

Perguntei por uma pousada à beira do rio e me recomendaram uma logo abaixo, visível desde o rio, sobre o barranco alto. Logo a encontrei: uma casa de madeira, com janelas voltadas para o rio, um pequeno ancoradouro e uma enorme escada de cimento pela qual eu deveria levar minhas tralhas, em sucessivas subidas e decidas estafantes, principalmente para quem remou um bocado, como eu.

Amarrei o barco no cais e subi, com dificuldade, a escadaria, pois me sentia exausto do calor, esforço físico e a falta de alimentação adequada. No alto, um grande portão de ferro trancado com um cadeado, e nenhuma campainha. Bati no ferro e gritei... depois de alguns minutos, apareceu uma senhora e confirmou que havia vagas na pousada. Depois eu saberia que era o único hóspede, que lá moravam a proprietária, seu filho e sua mãe, uma simpática senhora com Alzheimer em avançado estado de degeneração.

Apesar do preço, aceitei ficar ali, até porque não saberia como tirar meu barco da água. Desci e subi várias vezes, pois não havia nenhum funcionário para me ajudar. Finalmente me instalei em um quarto cheio de pernilongos e uma janela que dava para um corredor escuro e sem ventilação. As janelas que davam para o rio eram do quarto do filho, cuja distração era conquistar as meninas da cidade!

À noite, depois de descansar e jantar em um restaurante próximo, recebi a visita da secretária do Meio Ambiente, pessoa muito agradável e simpática, que ouviu pacientemente minha história e me convenceu a ficar por dois dias na cidade. Na verdade, eu pretendia, inicialmente, ficar uma semana, para conhecer o Parque Nacional “Cavernas de Peruaçu”; no entanto, o custo da pousada era proibitivo para minhas finanças já comprometidas desde o início dessa viagem...

Hoje fui à secretaria da Educação onde a secretária me agendou uma palestra para os professores e diretores das escolas da rede pública de ensino. Almocei na própria pousada, uma comida saborosa feita pela dona, uma senhora elegante e educada. Antes fiz fotos de antigos casarões e figuras bizarras das praças temáticas que um prefeito anterior deixara para seus moradores. Não se pode dizer que as praças sejam bonitas; são de um gosto duvidoso, mas bem cuidadas e curiosas!

À tarde proferi minha palestra para cerca de 50 educadores que lotavam a sala de refeitório de uma das duas grandes escolas de primeiro grau do município. Falei bastante: quase duas horas, conseguindo prender a atenção de todos para as questões ambientais do rio São Francisco, para a imperativa necessidade de conscientização do povo e da nova geração que eles conduzem, e para uma diferente visão de desenvolvimento sustentável que não seja tão prejudicial à Natureza.

Mostrei alternativas e declarei o meu comprometimento com as causas ambientais e preservacionistas. Falei da escassez de água doce e potável, justamente onde ela é tão abundante, da fragilidade da vida selvagem e da ação predatória do homem. Não sei se minhas palavras agradaram mais do que agrediram conceitos ultrapassados e arraigados, pois as manifestações entusiásticas só se evidenciaram pelas palmas ao final, que bem podem ter sido de satisfação por eu ter encerrado minha longa preleção!

Seja como for, cumpri minha tarefa e segui para a secretaria de Turismo, instalada em uma belíssima e bem conservada casa de estilo colonial, construída na primeira década do século passado, primorosamente restaurada e decorada com obras de arte!

Fui bem recebido, relatei minha viagem, meus objetivos e a frustração por não poder conhecer o parque de Peruaçu, rico acervo natural com inscrições rupestres e importantes descobertas arqueológicas, como a múmia transferida para o Museu Nacional do Rio de Janeiro, e uma preguiça gigante, animal pré-histórico também encontrado em outras cavernas e regiões do país.

secretária se comprometeu a tentar uma visitação ao parque amanhã, ao menos para eu conversar com o espeleólogo do Instituto Chico Mendes. A Sociedade Brasileira de Espeleologia, da qual fui sócio por tantos anos, e a Redespeleo, de cujos eventos participei por tantos anos, ambas ignoraram meus apelos para ajudar no contato com a direção do parque que, por sua vez, também não me atendeu.

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