quinta-feira, 8 de julho de 2010

Januária, 14 km depois... 04/10/2009 – 22h54

Não conheci Januária...

Saí cedo de meu acampamento – 06h45! No entanto, ventava muito e o rio estava agitado, formando “marolas” (ou seriam “riolas”?) e até pequenas e sucessivas ondas, dificultando a navegação. Meu ritmo era lento e cada remada exigia grande esforço para um pequeno deslocamento. Atravessei o rio para ver se a margem direita estaria melhor, mas nada adiantou. Segui remando, até porque não havia como parar: encostar a canoa no barranco, nessa situação, poderia causar um acidente.

De repente, no meio do rio dois garotos brincavam, e então percebi que estavam sobre um banco de areia que ocupava metade do leito do rio! Contornei com cuidado e parei perto eles, a canoa encalhada no fundo. Estavam curiosos por saber quem eu era, como chegara até ali e até onde remaria... chamavam-me “papai noel” devido a minha barba branca e longa. Conversamos um bocado; eram gêmeos e logo outros garotos também se aproximaram, diante do inusitado da cena... eram de Pedras de Maria da Cruz e costumavam brincar no rio nessa época do ano.

Conforme me explicaram, Maria da Cruz existiu de fato, e na pequena cidade que leva seu nome tem uma pedreira, o que talvez justificasse a origem do nome; mas não sabiam o que ligava a mulher às pedras... teria morrido lá? Teria sido suicídio? Hoje eu sei que Maria da Cruz foi uma fazendeira, e a cidade, agora com cerca de 10.000 habitantes, a homenageou quando foi emancipada, em 1992.

Segui adiante, pois pretendia chegar a Januária antes que o Benjamin Guimarães zarpasse de volta para a cidade de Pirapora. Nem sei porque queria vê-lo de novo. Decidi não parar em Pedras de Maria da Cruz, que fica na margem direita e acabara de atravessar para a outra margem logo depois do banco de areia. Aquele enorme assoreamento me assustou: em que situação deplorável se encontra o rio!

Havia uma ilha à margem esquerda e imaginei que atrás dela o rio poderia estar mais calmo; mas me enganei... a travessia me custou um esforço enorme, pois as ondas eram maiores e quase viraram minha embarcação! O vento aumentava, minha carga não estava amarrada, e eu não usava o colete! Uma grande imprudência, pensei. Poderia ter prejudicado toda expedição... tive que usar toda minha força para terminar a travessia. Atrás da ilha, realmente, o rio estava calmo; mas era um trecho muito curto para justificar tamanho esforço; logo voltei ao canal principal.

Passei por Pedras de Maria da Cruz pela margem oposta e logo percebi que perdera uma grande oportunidade de conhecê-la... uma igrejinha pintada de azul claro, com duas torres e o que parecia ser um moinho de vento por detrás ornamentavam a colina em que fora construída. Uma grande ponte de arquitetura moderna completavam o cenário! Parecia ser um local aprazível e que merecia ser visitado. Mas já era tarde. Tirei algumas fotos à distância, passando sob a ponte e ao lado de um grande barco de ferro de estranha cor verde claro. Segui adiante lamentando perder a oportunidade.

Logo em seguida a ventania passou e avistei Januária. O rio se alargara e havia uma grande ilha à margem direita. Por sorte, eu estava do outro lado. Se passasse por trás da ilha nem teria avistado a cidade, que se escondia em um feio barranco degradado. Um serviço de barcaças transportava veículos, cargas e pessoas de um lado a outro do rio. À beira do barranco, em um porto improvisado, lá estava o Benjamin Guimarães!

A tripulação me reconheceu, assim como Tina. Convidaram-me a subir a bordo, o que aceitei de imediato. Ofereceram-me um prato de comida e água, que também aceitei. Comi rapidamente, porque o vapor se preparava para um passeio com turistas de Januária, enquanto os passageiros de Pirapora faziam um passeio pela cidade.

Neste momento decidi não parar em Januária; não tinha nenhum contato na cidade, e deixar a canoa no barranco seria uma temeridade; havia uma multidão se acotovelando à margem do rio, todos querendo ver o Benjamin Guimarães! Disseram-me que também havia “visitantes ilustres” na cidade: deputados e senadores a passeio... ilustres?

A cidade não tem nenhum acesso urbanizado ao rio, e é mais uma construída de costas para aquele que lhes dá comida, transporte, empregos, água... é lamentável! Cumprimentei toda tripulação, agradeci o almoço, e parti. Logo em seguida o vapor também zarpava em direção a Pedras de Maria da Cruz...

Remei por mais 14 km e encontrei uma pequena praia onde havia um quiosque de pescador, muito comum nessa região; eles partem para pescar, mas garantem locais de parada de modo a se abrigar à noite e nas tempestades. É uma espécie de alojamento aberto onde guardam um pouco de comida, redes de pesca e de dormir, utensílios de cozinha e alguma roupa, e serve de abrigo provisório nos longos dias de pesca passados no rio. Esse está desabitado hoje.

Aproveitei para me refrescar no rio, pois o calor foi pior ainda com a ventania. A pele resseca mais rápido e o sol queima depressa, mesmo com bloqueador solar. Meus lábios pioraram bastante; estão rachados e ardem, mesmo tomando água sem parar. Nada que eu passe funciona, e até parece piorar! Temo que tenha sido a manteiga de cacau! Mesmo a saliva não causa qualquer alívio e acabo perdendo o apetite.

Até hoje, desde que retomei minha viagem, não preparei nenhuma refeição porque tenho comido quase todos os dias nas cidades por onde passei. Talvez a falta de alimentos sólidos também tenha agravado o problema nos lábios; talvez tenha sido o bico da garrafa térmica que se contaminou pelo uso freqüente. Pode ser ainda o sal das castanhas...

Um comentário:

MEDIAocridade disse...

Só uma correção: a homenagem a Maria da Cruz veio antes da emancipação da cidade. O lugar se chamava "Maria da Cruz" e com a emancipação passou a chamar-se "Pedras de Maria da Cruz".