quinta-feira, 8 de julho de 2010

Lagoa da Prata, Um encontro insólito, 16/06/2009 – 17h15

Sul: 19° 54´ – Oeste: 45° 34´ – Altitude: 626 metros


Finalmente encontrei um excelente local para acampamento, com “portinho” de pedras, lugar plano para a barraca, tranqüilo... só que tive que parar de remar ao meio-dia! Foi necessário, porque minha roupa estava toda suja, enlameada e mal-cheirosa; o tênis, a canoa, as sacolas... tudo sem condições de uso. Já não conseguia conviver com esta bagunça! E ontem nem jantei, nem tomei o café da manhã, por causa da lama e do péssimo lugar em que acampei; precisava desse tempo para descansar e me refazer dessa seqüência de problemas.

Bem, de volta à normalidade, jantei às 16 horas e já preparei a feijoada que irei comer amanhã à noite, pois ela precisa ficar de molho em água morna por várias horas; depois, é só esquentar.


Agora há pouco, meu “vizinho” veio me visitar. Ele tem um rancho de pesca ao lado e convidou-me para ficar hospedado lá; esse povo de Minas é mesmo hospitaleiro e sabe nos cativar! Não aceitei o convite, pois já estou bem instalado por aqui e minha roupa está toda secando nos galhos das árvores. Então, convidou-me para tomar o café da manhã com ele.

É uma pessoa consciente. Seu filho participa de uma ONG, Associação Ambientalista do Alto São Francisco. Contou-me que, felizmente, os moradores locais deixaram de caçar animais selvagens, mas os peixes estão cada vez mais raros e menores. Em sua opinião o governo, através de seus órgãos de apoio ao meio ambiente, deveria fazer um trabalho de repovoamento do rio com as espécies nativas mais nobres, como o surubim e o dourado.

Esta área, que compreende o sítio dele e vários outros ao redor, foi reflorestada recentemente, pelos atuais proprietários, que plantaram mais de 100 mil mudas de árvores nativas, cujas sementes foram colhidas na própria mata ciliar da região.

Agora chove um pouco e minha roupa, certamente não irá secar... mas pelo menos está limpa e amanhã eu a colocarei sobre as sacolas para secar enquanto remo, se houver sol.

O mapa rodoviário que me sobrou não está em escala que permita estimar distâncias. No entanto, suponho que ainda tenha uns 300 km até a barragem de Três Marias. Percorrendo 30 km por dia em média (o que é uma estimativa conservadora), mesmo parando um dia para portagem na entrada do lago, eu ainda chegaria lá este mês.


Minha expectativa é que a viagem se torne mais fácil depois da represa, pois a vazão do rio é regularizada pelo controle da barragem e há mais povoados e cidades a partir de lá.

Reduzindo minhas visitas a 20 cidades, e deixando de visitar o Parque Cavernas de Peruaçu, eu economizaria praticamente um mês e chegaria à foz em meados de agosto. Sim, estou ansioso por simplificar os meus planos. Em parte pela saudade, em parte por perceber que os impactos de minha passagem pelo rio tenham se tornado irrelevantes...

Se a greve de fome de Dom Cappio, personagem notória do Vale do São Francisco, se tornou folclore e não surtiu nenhum efeito, o que eu poderia conseguir com minha passagem quase anônima pelos 2.800 km do rio? Agora entendo que não basta a determinação e a coragem de enfrentar o desafio. É preciso “vender” bem a ideia e ter boa presença na mídia, mesmo antes de demonstrar que é capaz de realizar o feito com sucesso.

A cada dia eu me espanto com o tamanho de meu empreendimento! Uma pequena canoa, uma “casca de noz”, vencendo as águas lentamente, uma remada a cada dois segundos durante horas sem fim, 30 a 40 km por dia, mais de 1 milhão de remadas ao término da expedição! Quando entramos nesse nível de detalhes é que percebemos o esforço necessário para se atingir nossos objetivos.

E a paisagem segue imutável durante horas... só o barulho do remo puxando as águas para trás da canoa; os mesmos pássaros, as mesmas árvores, o mesmo barranco, a mesma água barrenta fluindo sem cessar... haja determinação! Ninguém pode imaginar a dimensão dessa tarefa para um ser humano isolado do mundo civilizado! Não é querer valorizar minha expedição; apenas constato a minha realidade.

Todos os dias, levantar acampamento e remar sem parar durante 6 a 8 horas; procurar um local para o novo acampamento, geralmente úmido, íngreme e enlameado; retirar as sacolas do barco; montar a barraca; fazer o jantar e lavar a panela e as roupas; e, finalmente, dormir. Passar o dia inteiro observando o rio para evitar os troncos submersos, redemoinhos, árvores caídas... os pensamentos vêm e se vão sem se completar, repetidos à exaustão. Estar sempre atento a alguma fonte de água menos enlameada para filtrar e tratar, completando minhas provisões, pois água é essencial à vida e nunca pode faltar!


À noite, cansado e com os músculos doloridos, o sono não vem. Só ouço o cricrilar dos insetos e o “marulhar” do rio... Reviro-me no chão em busca de uma posição mais confortável, mas ela não existe. A dor nas costas restringe minhas posições...

“Então, por que veio?”, alguém perguntaria...

Sim, por que estou aqui? Para que minha vida faça sentido, para que eu justifique minha presença por mais alguns anos... para que, em minha velhice, eu tenha histórias para contar aos meus netos... para que minhas filhas se orgulhem de mim...

Talvez a imagem que faço de mim seja maior do que sua real dimensão, e eu seja apenas mais um reles passante nesta vida sem sentido; como isso não me consola, busco realizar algo verdadeiramente relevante, que me diferencie, afinal, da gigantesca massa humana que povoa, anônima, nosso planeta.

Hoje, diante da imensa tarefa que me reservam os dias vindouros, talvez preferisse estar em casa, cuidando de meu netinho, brincando com meu cãozinho Potchó, cuidando de minha esposa e de minhas queridas filhas... mas não posso desistir, não pelos outros, mas por mim mesmo! Esta será minha segunda aposentadoria: a dos esportes radicais, esportes da Natureza, de aventura...

Depois, quando eu voltar, darei mais importância aos pequenos gestos, às palavras singelas, ditas apenas para agradar, às preces e às reflexões que farei em minhas caminhadas pelos parques, às infinitas lembranças dessas vivências...

Sem novas e aventureiras ambições serei mais comedido nas ações e nas palavras... deixarei de ser polêmico nos debates; aceitarei mais do que minhas compulsões permitem; serei menos egoísta e dedicarei a vida a cuidar das pessoas que amo...

Terei bastante tempo para isso!

Assim mesmo, estando na cidade, o tempo continuará a passar lentamente, ao menos para mim, pois farei apenas uma coisa de cada vez, como faço aqui. Talvez nisso resida o segredo de uma vida tranquila; não feliz, mas sossegada.


Não creio na felicidade como um estado de alma permanente ou mesmo duradouro. Vejo-a simplesmente como uma emoção efêmera, um sentimento que passa e nos faz sorrir por um momento... e logo depois constatamos que o mundo à nossa volta permanece o mesmo!

Nenhum comentário: