quinta-feira, 8 de julho de 2010

Manga & Matias Cardoso, 08/10/2009 – 15h45

Sul: 14º 41' 13” – Oeste: 43º 54' 44” – Altitude: 440 metros

Passei por Matias Cardoso (-10.7 km) e Manga (-8.6 km) e nem me preocupei em parar... uma é pequena e sem atrativos, e não me pareceu ter qualquer interesse que justificasse a interrupção de minha viagem; outra está de costas para o rio, com um grande barranco de uns 10 metros ou mais, e não tenho nenhum contato ou ajuda.

Comprei umas lingüiças, refrigerantes e água, em um boteco localizado na margem oposta do rio e segui adiante. Como várias outras cidades, Manga está à margem esquerda e a rodovia passa pela margem direita. Essas cidades dependem de balsas, barcaças de maior capacidade para escoar sua produção, receber mercadorias e viabilizar o transporte de passageiros para outras regiões.


Comi as lingüiças e bebi um refrigerante, e segui adiante, na expectativa de avançar ainda uns 20 km; mas não foi possível e não evolui quase nada, pois ameaçava uma forte chuva; encontrei uma pequena praia de cascalhos em uma ilha, que me pareceu um excelente local para montar meu acampamento. Os barrancos da margem esquerda do rio estão completamente devastados nessa região. A mata ciliar não mais existe na maior parte do percurso e o que resta está sendo queimado e derrubado com motosserras! Parei o barco para documentar essa tragédia, mas só consegui poucas fotografias, bem de longe. Não sei onde estão nossas autoridades...

Este local me pareceu ótimo e só tenho vizinhos na outra margem. Deverá ser uma boa noite de sono e poderei sair mais cedo em direção a Carinhanha, minha primeira cidade na Bahia; do outro lado do rio está Malhada. Adiantei bastante meu cronograma sem a visita a Peruaçu e agora sem a parada em Manga. Se tudo der certo nas portagens das represas, creio que poderei chegar a Piaçabuçu dia 5 de dezembro!

Mesmo local - 18:50 horas


Uma súbita mudança no tempo obrigou-me a transferir todo acampamento para um local mais seguro. A praia está acima da água apenas alguns centímetros e bastaria o rio subir meio metro para me deixar dentro d'água. Não foram apenas os relâmpagos, mas uma repentina calmaria e o esvoaçar das aves para longe que me alertaram.

Decidi não desmontar nada; mudei primeiro a canoa, amarrando-a na proa e na popa a um arbusto de tronco forte e resistente. Ficará segura, mesmo que debaixo d'água. Trouxe toda carga para um local mais alto, a um metro e meio da água. E finalmente arrastei a barraca sem desmontá-la e a coloquei no alto de um pequeno morro de areia, meu novo local abrigado dos ventos e da inundação; assim espero. Depois de alguns ajustes e reforços na barraca, estava tudo arrumado em menos de uma hora.


É sempre uma imprudência montar uma barraca tão próxima do rio; em nosso treinamento na Chapada Diamantina aprendemos isso com a cautela excessiva de nossos monitores. Eles tinham razão, pois os rios sobem rapidamente quando chegam as tempestades, e levam tudo de arrasto, sem dar chances para os incautos.

Mesmo assim tenho abusado da sorte, apostando sempre nas estatísticas de chuvas na região. Ocorre que, com minha parada de três meses, essas expectativas ficaram no passado e eu deveria ser mais cauteloso. Está chegando a temporada das chuvas, o inverno dos nordestinos, e mesmo no semi-árido os temporais podem ser violentos.


Às vezes, uma chuva não percebida nas cabeceiras do rio pode trazer uma elevação rápida do nível das águas, sem tempo de se tomar qualquer decisão. No entanto, é sempre mais agradável ter uma visão do rio correndo ao lado de nossa barraca, e assumirmos conscientemente o risco. Não recomendável!

Talvez nem chova esta noite, mas fiquei incomodado com esses pensamentos e com a sensação de que os pássaros tinham enviado um alerta e resolvi atender à intuição. Seja como for, valeu pela manobra de emergência e o treinamento de evacuação!

Com a calmaria voltaram os insetos. Lá fora, os grilos e os vagalumes fazem sua festa. Aqui dentro, mesmo com a barraca fechada, os mosquitos me atacam. Devem ter entrado pelos pequenos furos da tela, às dezenas, e me atordoam com seus ataques irracionais. O jeito é apagar a luz e deixar o silêncio embalar meus sonhos...

Mesmo lugar e... uma tempestade! 09/10/2009 – 05h35

Que noite terrível! A chuva chegou forte e piorou bastante durante a madrugada! A água começou a entrar, infiltrando-se pelas paredes e pelo zíper da barraca. Em pouco tempo, uma poça d'água se acumulava no piso e metade da barraca estava alagada. Sob o piso, um enorme colchão de água! Eu olhava para fora, tentando controlar o nível do rio, mas não dava para ver nada; porém, nos limites de minha visão não havia água; assim, senti-me seguro, por enquanto.

Decidi sair e recobrir a barraca com a lona da outra barraca. Tirei minha roupa e saí, em meio ao temporal. Peguei a lona no barco, joguei-a sobre a barraca e a ajeitei como pude, amarrando as pontas em specs fincados na areia. Aproveitei para pegar duas sacolas: uma de roupa, para o caso de necessidade; outra de cozinha, onde havia panos secos para eu drenar a inundação dentro da barraca.



Voltei para dentro, me enxuguei, sequei o piso e me vesti novamente. Deu certo: já não havia mais nenhum ponto de infiltração e a situação estava controlada. Poderia descansar. Até que tentei, mas a quantidade de insetos dentro da barraca, zunindo em meus ouvidos e me azucrinando sem parar, me impediam de dormir.

Quando tudo parecia se acalmar ouvi o som de um motor de barco e duas pessoas conversando. Eram pescadores, pegos pela tempestade. Chegaram na “minha” ilha e subiram o barranco, deparando-se com minha barraca. Percebi o silêncio constrangedor e resolvi conversar com eles. Afinal, eles deviam estar cansados e aquele poderia ser o local que buscavam para um repouso. De fato, era isso mesmo!


Convidei-os a ficar em minha barraca, mas eles agradeceram e se ajeitaram ali por perto. Cobriram-se com uma lona ou algo assim e fizeram café; conversaram por algum tempo, falando sobre a vida, o medo de morrer afogado, a vergonha de voltar para casa sem ter o que oferecer à família... coisas assim. Fiquei triste; nada podia fazer.

Eles temiam se afogar no rio, pois não sabiam nadar mas, ao mesmo tempo, diziam que se Deus não quisesse assim, nada lhes aconteceria. Essa visão determinística e fatalista das pessoas humildes é que os faz conformados com todas as adversidades.

A chuva diminuiu e eles foram embora. Ainda tentariam pescar alguma coisa nessa noite para levar às suas famílias... discutir preservação ambiental? Nem pensar! Fiquei a imaginar a solidão e o medo dessa gente simples, sem perspectivas e sem ilusões, onde o desconhecido, o misterioso e as lendas se misturam com a realidade. É triste pensar que o Brasil que se vende na mídia passa muito longe do povo desse país imenso e repleto de desigualdades e conflitos sociais irreconciliáveis...


Será que tenho o direito de falar sobre preservação ambiental para quem não tem nem mesmo o mínimo para sobreviver? Parece-me arrogância levantar tais bandeiras antes de solucionar a questão da vida em um âmbito mais real, pragmático e imediato: o acesso às condições de vida com dignidade e à justiça social!

Choveu a noite toda e continuou chovendo pela manhã. Não sei ainda o que fazer. Pensei em seguir viagem, mas a próxima cidade, Carinhanha, está a cerca de 60 quilômetros de distância e provavelmente só chegaria por lá à noite. E a chuva ainda pode piorar, alagando a canoa; e então eu teria mais um problema para enfrentar. Preferi aguardar mais algum tempo para decidir o que fazer. A situação é bem desagradável...


Nesta noite, antes de tudo isso acontecer, consegui falar com minha família. Relatei a situação e Mory (minha mulher) me disse que a assistente social da prefeitura de Manga aguardava minha chegada. Deu-me o telefone dela e arrisquei. Disse-lhe como estava minha situação e que, diante desses fatos, não conseguiria remar de volta rio acima. Pedi-lhe que enviasse uma canoa com motor, para que eu pudesse retornar. Afinal, eram apenas 8 km e, para um barqueiro, mesmo com um motor de rabeta, daria para me rebocar em menos de uma hora.

Ela pensou, consultou seus superiores e me telefonou dizendo que a prefeitura de Manga não poderia me acolher porque não tinham verba para pagar o barqueiro e o combustível... eu pensei comigo: e se eu estivesse em apuros... eles me resgatariam? 

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