quinta-feira, 8 de julho de 2010

Meu Projeto

Minha expedição começava a se delinear e tomar forma. Comprei e li todos os livros que encontrei, li artigos e debates na Internet a respeito da polêmica do desvio das águas, acompanhei por incontáveis vezes o traçado do rio no Google Earth e nos mapas geográficos do IBGE para os estados de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas, por onde passaria.


Faltava definir o meio de transporte que mais se adequasse ao grande rio. Deveria ser de fácil manobra e transporte, capacidade de carga para 120 dias e ser eficiente em corredeiras... apesar de não ser o barco ideal para corredeiras, optei pela canoa canadense¹ pela sua versatilidade e grande capacidade de carga. Outro aventureiro já havia feito esse percurso em 2004, com sucesso, e também de canoa canadense.


Junior, em sua viagem, coletou amostras da água em diversos pontos do rio para uma equipe de pesquisadores de uma Universidade Federal. Achei a ideia interessante e me propus a atualizar esses dados com novas coletas. Até obtive os kits de coleta de uma indústria. No entanto, infelizmente não consegui contato, em tempo hábil, com esses pesquisadores e com outros centros de estudo, e a proposta foi inviabilizada. Lamentei muito isso...

Aproveitei seu projeto no que pude e obtive dele todo apoio e ajuda para desenvolver o meu próprio projeto. Pretendia identificar minha expedição com as questões ambientais que predominam nas acaloradas discussões sobre a revitalização do São Francisco, mais importantes do que as razões, verdadeiras ou não, da transposição de suas águas, de cunho essencialmente político e eleitoreiro, menos do que as razões econômicas ou sociais, propaladas aos quatro cantos pelos seus defensores.

Meu projeto teria que finalizar com um produto relevante: a publicação de um livro ilustrado, um documentário com meu entendimento do rio e de seus dilemas, uma radiografia leiga e apaixonada daquilo que minha visão pudesse captar de seu meio ambiente e sua população.

Um lugar que há muito tempo pretendia visitar e deveria ser incluído em meu roteiro é o Parque Nacional Cavernas de Peruaçu. É uma região pouco visitada, pois o parque ainda não tem plano de manejo aprovado pelo IBAMA². Lá se encontram grutas de rara beleza e grande importância cultural, científica (espeleológica) e turística para a região e para o Brasil. O Parque Nacional “Cavernas de Peruaçu” localiza-se entre os municípios de Itacarambi e Januária, ao norte de Minas Gerais. Meu propósito inicial era permanecer por lá durante cerca de uma semana e percorrer parte do vale do rio Peruaçu.

Em minha passagem pelas cidades, pretendia conversar com a população, ouvir suas histórias, conhecer seu entendimento a respeito do rio São Francisco e, se possível, apresentar minhas próprias idéias a respeito da preservação ambiental, expondo-lhes as experiências pelas quais passei e as informações que obtive de pescadores, de outros ribeirinhos e da própria Natureza a respeito da situação ao longo do rio. Afinal, somente eles poderiam assegurar a preservação ambiental de sua região, com atitudes corretas e conscientes.

Era meu propósito levar comigo um documento que denominei “Protocolo do São Francisco”, espécie de compromisso público para o qual pretendia obter o apoio e a adesão de políticos, empresários e da população local, como um compromisso e um plano de ação destinado a assegurar a recuperação e a revitalização do rio São Francisco em um prazo razoável e de forma permanente e sustentável.

Muitas outras possibilidades poderiam ser aventadas, enriquecendo a expedição e seus resultados, mas preferi focar mesmo nesses aspectos ambientais, e não na imagem de aventureiro e canoísta. Seria, certamente, a maior viagem de minha vida, reservando intensas emoções desde seu início. Sentia-me pronto, preparado, motivado e ansioso por começar. Os preparativos duraram 5 meses, até maio de 2009.

Cada detalhe havia sido previsto, embora soubesse que, na prática, a realidade seria bem diferente, e estaria exposto a situações nunca antes vivenciadas. Uma aventura, de verdade! Minha maior preocupação era o volume e o peso das cargas que teria de transportar, uma vez que o propósito inicial era de não depender de nenhum apoio externo... uma expedição auto-suficiente, mesmo com meus eventuais encontros com a população. Constatei, ao longo do caminho, que era um propósito purista e equivocado.

¹ Canoa Canadense – pequeno barco a remo, de 4,55 m por 0,80 m com as extremidades levemente curvas e fundo arredondado e sem quilha. Fabricada com fibra de vidro, seu peso é de 23 kg. Utiliza apenas um remo de única pá, alternando-se as remadas com ambas as mãos. Possibilita diferentes técnicas de remada, o que lhe confere grande versatilidade de estilos e facilidade de manobras. Adequada a águas tranquilas  apresenta maior fragilidade em ambientes de águas revoltas e corredeiras.

² IBAMA – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis.

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