quinta-feira, 8 de julho de 2010

Moema, Progresso Lento, 17/06/2009 – 18:20 h

Sul: 19° 46´ – Oeste: 45° 28´ – Altitude: 618 metros

Apesar de ter cumprido a meta de chegar à BR262 às 14 horas, avancei muito pouco depois disso. Fiquei 45 minutos com as minhas filhas ao telefone e depois remei apenas 30 minutos mais. O motivo disso é a dificuldade de encontrar bons lugares para acampar. Ao ver um lugar satisfatório, acabo optando por parar por aí. Não é razoável.

Calculando a distância até o início do lago de Três Marias pela média atual, ainda demorarei uns três dias para chegar até lá. Deveria remar oito horas por dia.

Enquanto armava meu acampamento, um grupo de uns vinte quatis subiu na árvore logo atrás de mim. Inicialmente, pensei que fossem macacos, mas logo vi a cauda grossa, peluda e listrada. Eles faziam grande alvoroço mas, quando me viram, foram saindo devagarinho e me abandonaram. Lamentei muito, pois nem mesmo pude filmar esta cena... o interessante foi o comportamento do líder do bando: ao me ver, emitiu um silvo estridente e permaneceu parado, olhos fixos em mim, até que o último quati abandonasse a árvore. Só depois, ele partiu!

Durante o dia, ainda pela manhã, ouvi o som de muitas asas batendo sobre mim. Eram aves migratórias, às dezenas: patos, garças brancas e azuis, e cabeças secas. Os patos voavam em formação em “V”, como de costume. Eram muitos grupos, uns após os outros, todos na mesma direção. As garças, porém, voavam em círculos, bem acima dos patos, como se apreciassem a paisagem, seguindo na mesma direção.

Fiquei tão impressionado que me esqueci de filmar. Quando peguei a filmadora já era o último grupo que passava. Só pude captar uma pequena parte daquele espetáculo!

Pela manhã encontrei o Sr. Roberto, aquele meu vizinho que viera me visitar na véspera. Ele é um pescador de 70 anos de idade, e concordou em me dar um depoimento sobre sua concepção dos problemas e dos acertos nessa região do rio, conforme mencionei. Segundo ele, as melhores espécies de peixes, principalmente o surubim e o dourado, estão desaparecendo. Primeiro, por causa do vinhoto da cana de açúcar, que era jogado no rio pelos agricultores, causando grande mortandade de peixes.


Depois veio o assoreamento do rio, causado pela destruição das matas ciliares, o desbarrancamento e a enxurrada das fortes chuvas de verão. A profundidade do rio, que era de quase 12 metros, hoje está reduzida a menos da metade. Os grandes peixes, que dependem dessa profundidade para sobreviver, aos poucos desaparecem. E o rio está cada vez mais pobre.

Ele destacou o trabalho da Associação Ambientalista do Alto São Francisco, que atua na região. Com seu apoio, já plantaram mais de 100 mil árvores, através de coleta de sementes nas matas remanescentes. Hoje são matas primárias, em formação, mas bem diversificadas. Houve também muita caça predatória, principalmente de capivaras, onças e jacarés. Apesar disso, ainda se encontram algumas espécies, como as capivaras, lobo guará, jacaré e até mesmo onças. Sr. Roberto é um exemplo de pescador que deveria ser destacado, pelo seu trabalho.

Minas Gerais vive um paradoxo: possui grande e diversificada riqueza em seu subsolo, desde minérios, pedras preciosas e semi-preciosas, calcário, um solo muito fértil em vastas regiões, e esse gigante chamado São Francisco, fonte de vida e energia. No entanto, a maioria de suas estradas vicinais não é pavimentada. Percorrendo o rio São Francisco observam-se poucas e pequenas cidades ribeirinhas e, mesmo essas, pouco fazem do uso eficiente do rio. Existem muitos ranchos de pesca ao longo de suas margens, mas pouca presença humana, o que evidencia seu uso apenas para lazer.

Diante disso, volta aquele dilema: o progresso em detrimento da preservação ambiental. À medida que chegam as lavouras de cana de açúcar, soja e outras monoculturas, a Natureza é penalizada e destruída. O homem ainda não equacionou corretamente esse problema e o futuro parece comprometer definitivamente os recursos e a beleza cênica da Natureza. Parece que não há como fugir desse cenário desolador.

Se os países ricos já esgotaram suas florestas e liquidaram com a fauna, como imaginar que não faremos o mesmo? É apenas uma questão de tempo para que isso aconteça. E por que não o faríamos, condenando-nos ao subdesenvolvimento? Afinal, a sociedade capitalista e de consumo intensivo é um desafio aos ambientalistas: não é convincente o argumento da preservação como alternativa de qualidade de vida.

Apesar disso, e mesmo convicto de que essa tragédia virá um dia, e que também nós esgotaremos nossos recursos naturais em troca da vida urbana e do consumo, não posso deixar de manifestar meu protesto veemente contra a ambição desmesurada dos grandes produtores rurais e da indústria de transformação, que comandam esse processo.

É preciso encontrar urgentemente o equilíbrio entre a produção, o desenvolvimento, e a preservação da Natureza, sob pena de tornar esse planeta inviável para sustentar a vida!

Um comentário:

Luanda Goux disse...

Oi João, li seu blog e me emocionei. Sou de Moema, em São Paulo, mas meu tio de Barra Bonita, com quem sempre vou remar, também me fala da necessidade de equilíbrio. Também acho que esse é o segredo para preservar o mundo para as novas gerações.