quinta-feira, 8 de julho de 2010

Nossas contradições, 7 de junho de 2009 – 21h15

Depois de um dia intenso, nem o cansaço, nem o comprimido para relaxar adiantaram... continuo sem sono... as cenas das águas correndo por baixo de mim e a vontade (quase) inabalável de realizar meu projeto integralmente.


Às vezes me incomoda muito o fato de ter sido ignorado pela imprensa e pelas autoridades... afinal, meu projeto é educativo, trata da preservação do meio ambiente e tem um forte chamamento de aventura. Todos os ingredientes de que a mídia diz gostar!

Penso naqueles que escalam “big walls"¹ e ficam dias sem fim pendurados nas cordas, ascendendo palmo-a-palmo as reentrâncias mínimas das rochas. Penso nos alpinistas que, às vezes, passam um mês inteiro em acampamentos gelados, esperando por uma “janela” do tempo para alcançar o cume de uma montanha gigante.

Mas penso também nas pessoas que, como eu, optaram por captar mensagens dos lugares mais remotos e compartilhá-las com aqueles que vivem seus dias nas cidades, no conforto da civilização, e nada sabem a respeito do mundo selvagem...

Não há paralelo entre eles. Muitos buscam a aventura apenas como esporte de desafios extremos e sua realização está apenas na superação de seus limites pessoais.

Eu, assim como tantos outros, quero deixar minha marca, meu rastro, não nos caminhos que percorri, mas no coração das pessoas, para que, um dia, não seja mais necessário lutar pelo óbvio: salvar o planeta da devastação e do descaso dos homens.

O dia e a noite são longos, longe da civilização. Percebemos o tempo, o passar das horas de maneira diferente, pois nada nos distrai da simples presença neste ambiente sutil. Só existe um mundo, onde estamos presentes e ao qual pertencemo,; e tudo se passa linearmente...

O cair de uma folha sobre as águas do rio nos atrai a atenção no silêncio da noite. O som de um animal, seja um simples grilo ou um mamífero qualquer, não está isolado do meio, mas integrado a esse panorama complexo e desconhecido.

A tecnologia e a mídia nos distraem de tal modo que, mesmo não fazendo quase nada por dias e meses, a vida civilizada transcorre tão rápida quanto o nosso envelhecer. Tão rápida até que, mesmo estando velhos, ainda nos percebemos jovens, e recusamos a hipótese de mudar nossos hábitos e os adequarmos à realidade de nossos corpos cansados.

Talvez por isso, mesmo que a longevidade dos homens tenha se multiplicado por três em menos de três séculos, não sabemos o que fazer deste excedente que nos foi concedido.

Ao nos retirarmos da vida profissional ativa, ainda faltando um terço do tempo para morrer, já nos entregamos ao ócio e à preguiça, perdendo o encantamento pelas infinitas possibilidades do vir a ser... ficamos parados, olhando para o futuro que não existe...

E lá, no fundo de nossas almas, chegamos a pedir, discretamente, que essa vida se acabe, para que possamos, finalmente, descansar e esquecer...

Não precisa ser assim. Basta que encontremos novas bandeiras para levantar, novos propósitos pelos quais lutar, e voltaremos a ser felizes e a nos sentir úteis.

1 Big Wall – literalmente, “paredão”, são rochas de mais de 500 metros de altura que escaladores demoram dias para superar; exigem muita técnica, força muscular e autocontrole físico e emocional.

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