quinta-feira, 8 de julho de 2010

O rio São Francisco

MapaCPT Bahia

Percebi que isso não me bastava mais e decidi conhecer melhor o contexto do Velho Chico. Soube que é a maior bacia hidrográfica totalmente inserida em território nacional, com mais de 640 mil km²; isso é mais do que a área de cada um dos territórios dos estados de Minas Gerais e Bahia.

Esse grande rio, com mais de 2.800 km de extensão, foi descoberto em 1501 por Américo Vespúcio, navegador italiano (Amerigo Vespuccii) nascido em Florença em 9 de março de 1454, e falecido em Sevilha em 22 de fevereiro de 1512; mercador, geógrafo, cosmógrafo e explorador de oceanos, ele viajou pelo Novo Mundo com Cristóvão Colombo, escrevendo sobre estas terras a oeste da Europa.

Vivem, em sua área, cerca de 15 milhões de pessoas em mais de 500 municípios, e dele tiram seu sustento, para subsistência ou consumo. Muitos ainda pescam para sobreviver; alguns ainda caçam em suas matas, mas ninguém pode prescindir de suas águas. A vazão média do rio em sua foz é de 2.700 m3/s, ou seja, dois milhões e setecentos mil litros de água são despejados por segundo no oceano Atlântico! É muita água! Mas já foi muito mais, nos tempos do Descobrimento... mais de cinco vezes isso, conforme estudos recentes de especialistas!

Possui cerca de 160 afluentes, dos quais 100 são perenes e, destes, a maioria nasce e desagua no São Francisco dentro do estado de Minas Gerais. São, no entanto, milhares de outros pequenos cursos de água, drenando as montanhas e contribuindo para a formação e perenização do Velho Chico.

Desde a década de 1950 o Velho Chico vem sendo aprisionado em barragens, cujos objetivos são de regular sua vazão e assegurar a produção de energia elétrica, que abastece mais de 80% das necessidades do Nordeste. Em termos de precipitação pluviométrica, a bacia do São Francisco tem variações de 1.500 mm/ano, no Alto São Francisco (predominantemente em Minas Gerais), a 300 mm/ano na região do semi-árido.

Nesta região, onde as chuvas são poucas e os rios perenes também escasseiam, 75% do volume das chuvas se evapora e apenas 25% contribui, efetivamente, para a manutenção do volume de águas do São Francisco. Isso, sem falar na evaporação da própria água que o rio transporta em seu longo percurso, das bombas e canais de irrigação que retiram volumes expressivos de água do rio, e das represas, onde o índice de evaporação está relacionado com a extensão em área desses grandes lagos artificiais. A perda de águas, portanto, é crescente a partir do seu último afluente perene: o rio Grande, que encontra o São Francisco na cidade de Barra, na Bahia. Daí em diante, é só perda de água, na estiagem, sem outras fontes de reposição.

Suas represas são Três Marias, em Minas Gerais, Sobradinho e Luiz Gonzaga entre a Bahia e Pernambuco, e Xingó entre a Bahia, Alagoas e Sergipe. Suas principais hidrelétricas são Três Marias, Sobradinho, Paulo Afonso (I, II, III e IV), Itaparica, Moxotó¹ e Xingó, e geram cerca de 10 mil megawatts de potência (Itaipu gera 14.000 MW). Hoje, Três Marias é mais importante como reguladora da vazão do rio do que como produtora de energia.

Em termos de volume útil armazenado, Sobradinho possui cerca de 34 bilhões de metros cúbicos de água, mais do que o dobro de Três Marias e 14 vezes mais que Itaparica. Em termos de comparação, a baía da Guanabara tem apenas 3 bilhões de metros cúbicos de água. Até 2007 Sobradinho era o maior lago artificial do mundo. Atualmente, é o segundo maior do mundo, um gigante cujas águas deixaram submersas cinco cidades da Bahia.


"Adeus, Remanso, Casa Nova, Sento-Sé.

Adeus, Pilão Arcado, vem o rio te engolir.
Debaixo de água lá se vai a vida inteira.
Por cima da cachoeira o gaiola vai, vai subir.
Vai ter barragem no salto do Sobradinho,
e o povo vai-se embora com medo de se afogar.
O sertão vai virar mar.
Dá no coração
o medo que algum dia
o mar também vire sertão"

— Guttemberg Guarabyra

Dizem que o Rio São Francisco, o Velho Chico ou Opará (seu nome indígena, o “Rio-Mar”), também conhecido como o “rio da integração nacional”, tem sua nascente localizada na Serra da Canastra, no sul do Estado de Minas Gerais, próximo a São Roque de Minas. Mas há os que questionam essa informação, pois seu primeiro grande afluente, o Samburá, é o mais extenso, desde a nascente, e tem maior volume de águas quando se encontra com o São Francisco. Por isso se fala em uma nascente histórica, na serra da Canastra, e uma nascente geográfica, no planalto do Araxá, município de Medeiros.

Existe uma divisão geográfica que desmembra a bacia em quatro sub-regiões: o Alto São Francisco, que vai da nascente até a cidade de Pirapora/MG; o Médio São Francisco, de Pirapora até Remanso/BA; o Submédio, de Remanso até Paulo Afonso/BA; e o Baixo São Francisco, que se estende de Paulo Afonso até a foz.

Essa divisão é política e não representa a diversidade geográfica, geológica, social e ambiental da bacia. Em nosso entendimento, para se estudar a bacia do São Francisco, primeiramente, há que se segregar as áreas represadas do curso natural do rio. Também é importante discernir entre os diferentes biomas do Alto São Francisco: a região do planalto da Serra da Canastra, tipicamente uma área de cerrado, localizada em altitudes médias de 1.300 metros; a região de montanha, de matas tropicais, onde o rio desce cerca de 300 metros em menos de 100 km, produzindo corredeiras rápidas, em contraste com o percurso restante do rio, descontadas as barragens, cuja declividade é de cerca de 15 cm por quilômetro!

Finalmente, deve-se distinguir entre as diferentes interferências humanas em cada região, que estão relacionadas às lendas, tradições, formação cultural, etnias, lavouras, costumes... dessa forma, o trecho compreendido entre a barragem de Três Marias e a cidade de Pirapora não pode estar na mesma sub-região do trecho compreendido entre a confluência do rio Samburá com o São Francisco e o início do lago da represa de Três Marias. As diferenças não se resumem à geologia e à biologia, mas à própria presença e concentração humana em cada trecho.

Para melhor compreender o rio São Francisco e ter uma posição sustentável a respeito do projeto de transposição, seria necessário conviver com esse rio em sua intimidade. Havia, no mínimo, uma tremenda contradição entre constatar que o rio está morrendo, e dele retirar tal volume de água. Seria como retirar sangue de um enfermo em estado grave para cuidar de outro doente terminal! Foi justamente essa contradição que me convenceu a prosseguir.

¹ Moxotó – construída na década de 1970 para servir de reservatório de reposição às usinas de Paulo Afonso, atualmente é conhecida como Usina Apolônio Sales, em homenagem ao idealizador da CHESF.

Um comentário:

MIKE disse...

Quando São Paulo ficou sem água apontaram o desmatamento na Amazônia como o principal fator para essa calamidade. Hoje o Distrito Federal está sofrendo do mesmo problema, já que uma das principais Bacias que abastece a região é a do São Francisco, e desconfio que a falta d´água esteja intimamente ligada ao "estupro" do Rio pela manipulação humana. Isso o Governo evita falar. Triste.