quinta-feira, 8 de julho de 2010

Pão de Açúcar, 03/12/2009 – 17h05

Sul: 09º 44' 38” – Oeste: 37º 30' 04” – Altitude: 13 metros

Ontem pela manhã visitei a parte histórica de Piranhas, cidade das “volantes”, milícias que perseguiam o bando de Lampião, que acabou cercado na gruta de Angicos e foi morto com seus cangaceiros, ao lado de Maria Bonita, e decapitado.

Alguns casarões antigos, bem conservados, como a estação ferroviária, que hoje abriga o Museu do Sertão e a Secretaria de Turismo, a igreja matriz, o cemitério cercado bem no alto do morro, e quase todas as casas simples, caiadas ou pintada em cores vibrantes, tornam Piranhas uma cidade belíssima! A beira-rio, alguns restaurantes e quiosques lembram as cidades praianas do nordeste e mostram a paisagem magnífica de um rio acidentado e repleto de pedras e corredeiras.

Fui ao mirante, uma construção piramidal, de uns três metros de altura, onde se chega por uma escadaria caiada, com luminárias em globo, de algumas dezenas de degraus. De lá se contempla o rio a montante1, a pequena praia e o rio a jusante2. Desse ponto percebe-se com clareza a grande concentração de pedras no leito do rio, que tem profundidade de mais de 80 metros! Também pode-se observar os telhados das casas, a sinuosidade das ruas contornando as encostas, e a pequena capela, construída em local oposto a esta colina.

Depois percorri a pequena cidade, visitei o largo da igreja matriz, que estava fechada, e ouvi um som de metais vindo de um conservatório musical. É a primeira manifestação cultural que percebo em toda extensão do rio... é lamentável a distância entre os grandes centros culturais do país e o sertão.

Em seguida subi as escadarias que davam na capelinha do morro; em certo patamar havia uma árvore retorcida e antiga, um umbuzeiro3 muito bonito. De lá tirei algumas fotos da cidade. No alto, a capela estava fechada, mas pude contemplar a ponte que liga Piranhas a Canindé de São Francisco, em Sergipe. Dali não era visível a barragem de Xingó.

Ao descer as escadarias sentei-me em uma mesa de bar com vista para o rio São Francisco e pedi uma cerveja bem gelada, pois o calor era intenso e fiquei exposto ao sol por muitas horas. Pouco depois chegou um grupo de crianças acompanhadas de sua professora; montaram estantes de pintura e sentaram-se, desenhando a paisagem que percebiam de seu ponto de vista.

Fiquei emocionado com aquela segunda manifestação artística da cidade e não me contive; pedi autorização da professora e fotografei as crianças, as telas e o rio em perfeita harmonia... filmei um curto depoimento e fiquei apreciando a cena inesquecível por um tempo considerável, admirado das possibilidades humanas, desde que haja boa vontade, dedicação e amor. Isso não exige recursos substanciais...

Comi uma muqueca de surubim, peixe que não é muito apreciado pelos abastados em suas mesas, por viver na lama do fundo do rio, algo inaceitável pela “nobreza”. Eles têm a própria lama para se chafurdar! Estava uma delícia... eu havia comido este mesmo prato em São Francisco e no restaurante, logo que cheguei à barragem de Xingó.

Àtarde visitei as instalações da hidrelétrica de Xingó; quem me acompanhou foi Lázaro, amigo de Willams. A usina produz cerca de três gigawatts de potência em seis turbinas, e tem tecnologia das mais avançadas do mundo. Existe a previsão de se construir mais quatro turbinas, elevando a produção para 5.5 gigawatts! Existem projetos de construção de outras hidrelétricas em Riacho Seco, próximo a Santa Maria da Boa Vista, e outra entre Orocó e Cabrobó, nas imediações da captação de águas do projeto de Transposição Eixo Norte. Também está prevista uma hidrelétrica próxima à cidade de Pão de Açúcar. Com tudo isso, o rio São Francisco ficará definitivamente encaixotado em celas de concreto!
lago de Xingó, onde se localizam seus famosos canyons, pelos quais passei remando, tem profundidades de até 120 metros. Como ele é menos espalhado e mais profundo, dizem que causou menor impacto ambiental e sofre menos variações de extensão nas diferentes estações sazonais.

Saí de Piranhas pela manhã; quem me levou ao rio foi o próprio Willams, em uma caminhonete de um amigo dele. Fiquei muito grato a ele por tudo o que fez por mim, viabilizando meus planos para Xingó e tendo a oportunidade de conhecer essa bela cidadezinha histórica e hospitaleira. Se tivesse que escolher uma cidade para morar no São Francisco, Piranhas seria uma das mais cotadas! É um lugar muito bonito!

Passei um enorme sufoco ontem, durante boa parte do dia; primeiro foram as “panelas”, espalhadas por toda extensão do rio naquela região; depois, as “maretas” (ou “riolas”, como eu as chamo; se no mar são marolas, no rio deveriam ser riolas!). Além disso, o vento intenso e forte me fustigou durante horas. Mesmo assim cumpri meu objetivo de chegar a Pão de Açúcar. Na verdade, optei por parar em uma prainha, a primeira desocupada depois de Piranhas. Aqui existem muitas bombas de recalque para irrigação e, quando não são elas, são portos de ranchos ou os aguapés que impedem o acesso ao barranco.

Aqui montei meu acampamento, preparei um risoto de quinúa e dormi muito bem. A canoa está fazendo muita água e terei que substituir os remendos de silver tape, que cada vez duram menos tempo. Sorte estar no final da expedição... o buraco que fica na popa aumentou, captando a água que é arrastada pelo fundo do barco. A fenda se abriu, mas terá que agüentar até Piaçabuçu, mesmo que eu tenha que refazer os remendos com mais freqüência ou esgotar a água a cada parada.

1 Montante: diz-se do trecho de rio acima do ponto de visão, em direção à nascente.

2 Jusante: diz-se do trecho de rio abaixo do ponto de visão, em direção à foz.

3 Umbuzeiro: árvore típica da caatinga, que pode sobreviver às mais severas estiagens, pois armazena água em suas raízes e produz um fruto saboroso e muito apreciado no nordeste.

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