quinta-feira, 8 de julho de 2010

Paratinga, Tema recorrente, 29/10/2009 – 06h28

Cheguei a Paratinga no dia 27 de outubro. Juliano e Gutinho me esperavam no porto. É um lugar meio estranho, com um grande edifício reformado acima de uma longa escadaria que vai até a margem do rio. Nas proximidades existe muita areia e é difícil navegar em linha reta. Errei o caminho e fiquei preso em um banco de areia, mas consegui me desvencilhar e corrigir o erro.

Estavam os dois ansiosos desde o dia anterior, pois não dei mais notícia e meus celulares estavam desligados. Nessas situações a imaginação constrói estórias, geralmente com desfechos trágicos, muito distantes da realidade. O fato é que não fui mais importunado.

Conseguiram uma carroça que levou a canoa e minhas tralhas para uma pensão simples no centro da cidade. Para mim estava ótimo, e poderia descansar e comer bastante, tomar um banho de chuveiro e sabonete, e conversar com pessoas amigas; é disso que preciso.

Assim que me acomodei, ligamos para Bom Jesus da Lapa e conversei com o Samuel e a Marilene. Eles decidiram vir até Paratinga e os esperamos para o almoço. Conversamos muito, vieram muitas alternativas de motivações e de suspeitos, mas não chegamos a nenhuma conclusão. Decidi não entrar em outras comunidades e seguir direto para Barra; só passaria por Passagem, na frente de Ibotirama, para acompanhamento e controle de meus amigos.

Combinamos que eu enviaria dois sinais de Spot por dia; um ao meio-dia e outro à noite. Incluiria o Samuel na lista de receptores do sinal para que pudesse me monitorar.

Almoçamos na pensão e eles voltaram todos para Lapa. Gutinho ficou responsável por me acompanhar na cidade e me dar todo apoio de que necessitasse. Visitei sua família, que me recebeu com todo carinho. Sua mãe disse que faria orações diárias para que eu chegasse bem ao final de minha jornada. Senti-me protegido e feliz.

Estou aprisionado pelo tempo. Choveu todos esses dias e, esta noite foi um temporal que desabou sobre Paratinga. Era tanta água que eu tive que mudar a cama de lugar várias vezes. A pensão ocupa uma casa antiga, com mais de cem anos, sem forro e um telhado todo esburacado. Durante o dia dá para ver o céu pelas frestas das telhas... acordei cedo, ou melhor, quase não dormi.

Estou preocupado com minha situação, pois não pretendia ficar tanto tempo em Paratinga. O tempo passa lentamente e leva consigo minha disposição para dar prosseguimento à viagem. Preciso ir embora!

As informações sobre a travessia de Sobradinho são contraditórias: uns dizem que é possível navegar bem próximo à margem direita em todo percurso; outros dizem que mesmo o trecho entre Barra e Xique-Xique é difícil; existe um lugar chamada Mocambo do Vento (ou algo parecido) onde é muito difícil passar.

E assim fico por aqui, gastando o que não tenho, sem nada para fazer, com um futuro incerto pois a temporada de chuvas está para começar e prosseguirá até fevereiro.

Hoje apareceu uma aranha caranguejeira1 na sala da pensão; acordei com a algazarra do pessoal tentando matá-la. Acabaram colocando fogo na pobre coitada; tinha o tamanho de minha mão e veio se abrigar da chuva. Disseram-me que é comum esse tipo de “caranguejo peludo”, que entra nas casas na época das chuvas.

Segundo comentam, existem muitos jacarés, de até três metros de comprimento, nas margens do rio e em toda extensão do lago de Sobradinho. Eu não vi nenhum, assim como onças e outros bichos exóticos, como o Nêgo D'água, um misto de gente e de surubim!

Contam que é um ser baixinho e forte, com as costelas nas costas e a coluna vertebral no peito, o corpo coberto de escamas, e cuja diversão seria apavorar os pescadores, virando suas canoas para atormentá-los. Curioso é que muita gente acredita nessas lendas como se fossem reais! Um hóspede da pensão chegou a me dizer que se a avó dele contou, é porque era verdade! Interessante é que todos falam dessas lendas com um certo medo, como se, embora inverossímil, devessem ser tratadas com o devido respeito. Afinal, foram seus antepassados que lhes contaram, e eles nunca mentiriam!

Fiquei por aqui, mas não pude visitar as grutas onde existem pinturas rupestres, além de outra manifestação artística ancestral, espécie de figuras em baixo-relevo, esculpidas nas rochas. O local é bem distante e só pode ser atingido a pé, a cavalo, de motocicleta ou em veículo traçado 4x4. Com esse tempo instável não há possibilidade de chegar até lá.

Assim, não visitei Peruaçu, nem Pains, nem Bambuí nem as grutas de Paratinga. Terei que retornar um dia só para conhecer esses lugares fantásticos, plenos de sinais de nossos antepassados, desconhecidos da maioria dos brasileiros.

Há um consenso entre os ribeirinhos que o mangue, o calumbi e o capim d'água seriam as espécies nativas mais indicadas para contenção dos barrancos e para iniciar um projeto de reflorestamento das matas ciliares.

Digo isso porque tive tempo de sobra para conversar com os moradores de Paratinga acerca das condições do rio. Comentei que existem quilômetros de barrancos completamente despojados de sua veste de matas, ruindo dia e noite sobre o rio, e provocando seu assoreamento.

1 Tarântula ou caranguejeira é uma aranha da família Theraphosidae que se caracteriza por ter patas longas com duas garras na ponta, e corpo revestido de pelos. (Wikipédia)

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