quinta-feira, 8 de julho de 2010

Pirapora, 24/09/2009

Remei forte, hoje, e percorri cerca de 50 km em cinco horas! Muitas contradições em meu caminho! Primeiro foi a “mata de cenário”: você olha o rio e vê o verde das matas por quilômetros... de imediato, a alegria de perceber aquela mata preservada.

Porém, ela não resiste a um olhar mais acurado: é tudo mentira! Da mata ciliar, o que restou foram somente os “cílios”! A mata não existe! Somente as árvores que se sustentam na encosta dos barrancos, só fachada para enganar os fiscais! Fiscais? Somente encontrei um barco de fiscalização, que parou no local do acampamento dos pescadores, e foi embora sem fiscalizar nada... Por trás, menos de 10 metros além do rio, é somente a lavoura ou o gado, regados a água tirada do rio por enormes bombas de sucção, muitas delas instaladas dentro do próprio leito!

E o IBAMA, o IEF¹, a Polícia Ambiental? Não vê quem não quer!...

Outros mais descarados arrancaram tudo, até a beira do rio, e continuam desmatando, queimando, destruindo... é um belo e triste cenário... belo porque as árvores sombreiam o rio e dão a ele seu contorno verdejante; triste porque essa mata pobre não sustenta a vida selvagem... não se ouve o canto dos pássaros... tudo vazio...

Alguns chegam a gramar tudo, deixando algumas árvores bem podadas, qual esculturas, plantando paineiras ao redor da bela casa do Senhor Barão!

O calor estava insuportável e tomei uns três litros de água, que não me saciaram...

O rio tem muitas ilhas, centenas delas... algumas grandes, todas baixas... imagino que na temporada de chuvas a maior parte fica submersa com sua bela e diversificada vegetação, mesclada com lavouras de milho, abóbora, mandioca, tomate...

Quase todas as ilhas são habitadas; algumas são concessões da Marinha – comodatos; outras, apenas ocupadas por pescadores, feirantes, vizinhos que moram nas pequenas comunidades ou nas cidades ribeirinhas, e que usam o produto da colheita para consumo próprio, para alimentar o gado ou para escambo.

Nesse trecho, o rio deve ter uns 300 metros de largura, e as águas seguem tranqüilas, suavemente levadas pela pequena declividade do terreno.

Creio ainda não ter contado a história da “Criminosa”, ou "Cachoeira do Ladeiro", como era chamada antes do terrível acidente.

Conta Norberto, o pescador, que um grupo de lenhadores, que cortava as árvores para alimentar as caldeiras dos vapores no início do século XX, agrupava sua carga de troncos sobre as águas do rio antes de conduzi-la pela correnteza até Pirapora.

Naquele dia fatídico os homens tinham bebido além da conta, mas resolveram prosseguir mesmo assim; um deles teve uma paralisia em decorrência de um acidente mas, mesmo assim, os companheiros o acomodaram em uma cadeira sobre a lenha.

O que aconteceu a seguir foi relatado pelo único sobrevivente, curiosamente aquele com paralisia, sentado meio inútil sobre a carga, seguindo à mercê da correnteza e de seus amigos ébrios.

A “cachoeira” do Ladeiro é uma corredeira provocada por enormes blocos de pedra espalhados sobre o leito do rio, provavelmente um desmoronamento de rochas. Quando o rio tem seu volume de águas reduzido, na época da seca, essas pedras ficam perigosamente à superfície sob as águas. Na época das cheias, elas apenas agitam o rio, sem perigo à navegação.

Pois esses lenhadores estavam justamente nessa época perigosa e, desavisados pela bebida, não perceberam o perigo... a “jangada” se esfacelou e os homens desapareceram na turbulência das águas.

Quem teria sido o “criminoso”? A corredeira que sempre lá esteve no curso da história? Ou a “marvada pinga” que turva os espíritos, deixando os homens impotentes para reagir aos perigos?

Assim, a “cachoeira” do Ladeiro passou a ser chamada de “Criminosa”...

Quando me aproximei de Pirapora o rio se expandiu em todas as direções... tornou-se gigante, como a se preparar para as magníficas corredeiras! Um espetáculo majestoso, como um grande lago, cercado das matas “de cenário”, refletindo o verde e o azul celeste, as nuvens brancas desenhadas nas águas em figuras mutantes...

Em seguida, a ponte nova, sem atrativos, mas já deixando entrever a imponência da belíssima ponte férrea “Marechal Hermes”, construída sobre pilares de pedra, parecendo-se com as pontes de nossos sonhos infantis.


Mais de perto vê-se que ela está interditada para veículos e para o trem que lá nunca passou, e passam apenas pedestres, ciclistas e motos, fazendo um barulho constante, intermitente, como os vagões de um trem sobre os dormentes... de certo modo, esse ruído resgata a frustração da ponte que nunca viu um trem sobre sua bela estrutura. Se fecharmos os olhos dá até para imaginar a locomotiva “Maria Fumaça” soltando seus rolos de vapor quente e apitando para avisar a cidade de sua chegada!

Parei antes da ponte velha pois sob o seu esqueleto decadente já se percebe o agitar das corredeiras. Fiquei mais de duas horas esperando o transporte da canoa. Eu havia ligado para um contato fornecido pelo meu amigo Closé. Chegou uma pequena caminhonete cheio de galões de água, onde mal couberam minhas sacolas...


Resolvi aceitar a oferta de um garoto para transportarmos juntos a canoa, ele me indicando o caminho; e nós dois, remando, enfrentamos as corredeiras com o barco vazio... pura adrenalina! As quedas d'água eram pequenas, mas o volume de água era o suficiente para estimular as manobras para desviarmos das pedras, a maioria submersa. Só em um pequeno trecho fomos obrigados a tirar a canoa da água, pois a queda era muito brusca e as pedras não permitiam manobras evasivas eficientes.

Foi sensacional! Chegamos ao vapor Benjamin Guimarães, um velho navio trazido da Amazônia, depois de fazer carreira no Mississipi no final do século XIX. Fiquei hospedado em um dos camarotes, bastante simples e pequeno, apenas com uma beliche, uma pequena estante e uma pia; o banheiro ficava na popa, ao fundo do bar.

Esse vapor, cujas caldeiras se alimentam de madeira (muita madeira!), junto com tantos outros, ajudaram a dizimar a mata ciliar no trecho compreendido entre Pirapora, MG e Juazeiro, BA, uma extensão de mais de 1.300 km. Eram cerca de trinta e cinco vapores que transportaram passageiros e carga durante quase meio século.

Hoje, o Benjamin Guimarães faz passeios turísticos entre Pirapora e Januária, passando pelas cidades desse trecho mineiro, e utiliza eucalipto para aquecer sua caldeira... melhor? Não sei... as “florestas” de eucalipto e de pinus são cultivadas onde antes havia matas nativas, de grande diversidade biológica, e hoje não tem habitantes, sejam os pássaros ou qualquer outro tipo de animal, que não consegue subsistir em matas homogêneas e pobres de alimentos.

¹ IEF - Instituto Estadual Florestal: órgão das Secretarias Estaduais do Meio Ambiente, responsáveis pelo monitoramento e fiscalização das áreas florestadas em unidades de conservação estaduais e áreas de preservação permanente (APP´s)

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