quinta-feira, 8 de julho de 2010

Porque hoje é sábado, 7 de junho de 2009 – 07h30

Mais um belo dia de sol, bastante frio. Deveria ter trazido luvas... pela manhã, depois de lavar a panela e preparar meu café da manhã, minhas mãos e pés estão sempre congelados!


Curioso como todos os hábitos adquiridos durante a vida inteira precisam ser revistos, adaptados, substituídos ou até mesmo abandonados... já não servem de nada por aqui.

Todos os dias, depois de remar muito, preciso procurar um terreno, "construir minha casa", fazer comida, lavar roupa e dormir... pela manhã essa "casa" deverá ser desmontada e tudo volta a seu ciclo natural. Essa é minha nova rotina!

Neste ambiente, nossos sentidos precisam ser aguçados rapidamente, ampliados, aperfeiçoados, pois deles dependem nossa segurança e sobrevivência. A intuição selvagem precisa ser recuperada, pois nem mesmo os cinco sentidos são suficientes para resistir a esse mundo ancestral e admirável. É preciso "perceber", antes de ver, ouvir ou sentir.

Ouvir o cantar dos pássaros não é simplesmente um deleite ou prazer; muita informação relevante está embutida nesses sinais sonoros: “o dia está terminando”; “você está invadindo meu espaço”; “existe algum perigo à sua frente, cuidado!”...

A revoada dos pássaros, o silêncio da mata, o grito estridente de uma coruja podem significar um perigo iminente: ataque de um predador, inundação, “homem à vista”!

O sol nos mostra o leste todas as manhãs e, embora todos saibam disso, em nossa visão cristalizada e inerte, ele não precisa nascer nas cidades para sabermos onde fica o Leste, pois em nossas paisagens urbanas a orientação do sol não tem relevância para nossa vida.

Aqui, cada curva do rio altera nossas coordenadas e, depois de passar o dia inteiro seguindo o serpentear de suas águas, à direita ou à esquerda, retornando ao princípio, às vezes, perdemos facilmente nossas referências e, ao fim do dia, já não mais sabemos onde estamos, onde fica o Norte, de onde viemos, quanto navegamos. É claro que, a qualquer momento, podemos olhar a bússola, mas sempre acordamos com os raios do sol a nos dizer onde fica o Leste. As distâncias percorridas no rio não têm nenhuma importância...

As águas do rio nos passam informações constantemente e precisamos reagir a essas mensagens, fugindo dos troncos e pedras submersas, desviando-nos dos redemoinhos, escolhendo os melhores lugares para acampar, protegendo-nos dos perigos. A coloração e turbidez das águas indicam sua profundidade, os sedimentos que o rio transporta consigo...

Agitação na sua superfície pode significar maior velocidade das águas. Depois de uma curva poderá haver um redemoinho, uma pequena praia, cascalhos acumulados no lado convexo, uma corredeira. O barqueiro precisa estar sempre atento a essas mensagens.

Aqui não existem novelas, noticiários, filmes, documentários, internet. O mundo congelou na data em que parti, deixando-me perplexo e desinformado. Já não sei se a bolsa caiu, o banco fechou, o político roubou, o dólar despencou, o petróleo foi derramado no mar, as queimadas destruíram milhares de metros quadrados de floresta e deram lugar a monótonos pastos...

Para dizer a verdade, tudo isso aqui nada vale, pouco importa. No mundo civilizado, este é o alimento da imprensa, a vida dos especuladores, a riqueza dos avarentos... a vida tem sua própria rotina para os seres vivos que aqui habitam. Alguns animais se movem, caçam e se alimentam à luz do dia. Outros fazem da noite seu campo de batalha para a sobrevivência, aproveitando-se da escuridão para caçar e acasalar.

Porém todos, assim como eu estou aprendendo, ficam em alerta o tempo todo, até mesmo enquanto dormem; isso pode ser a diferença entre a vida ou a barriga de um predador.

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