quinta-feira, 8 de julho de 2010

Preparação

Minha preparação física vem sendo feita durante os últimos 10 anos em que me dedico a vários esportes da Natureza: mergulho equipado (SCUBA1), trekking2, hiking3, mountain bike4, escalada em rocha, espeleologia5... eu os complementei durante o ano de 2008 com práticas de musculação e corridas diárias de até 10.000 metros, em esteiras da academia ou no parque (“Curupira6) da minha cidade.


Vivendo 24 horas focado nesse projeto, busquei o conhecimento em livros e sites que tratavam do rio São Francisco e da região do semi-árido brasileiro. Eram informações para um leigo, mas intensas e diversificadas: as viagens de Teodoro Sampaio pelo rio São Francisco e a Chapada Diamantina, as análises da potencialidade do semi-árido brasileiro, feitas por Manoel Bonfim Ribeiro, o lirismo poético de Carlos Rodrigues Brandão, construindo suas próprias lendas sobre o rio São Francisco, “o meu destino”, a viagem às nascentes do Velho Chico realizadas por Auguste de Saint-Hilaire...

Para minha estranheza e decepção, muito pouco se escreveu sobre nosso grande rio em seus 500 anos de história. Ao menos que eu saiba e tenha tido acesso em minha pesquisa. Caberia, portanto, mais uma versão, a minha, para colaborar com o entendimento das suas mazelas e atrocidades, vítima que foi de uma exploração descontrolada e predatória, desde a extinção de grande parcela de mata ciliar durante a época da navegação a vapor do início do século passado, até a construção das represas, causando enormes impactos ambientais, a despeito dos seus benefícios indiscutíveis.

Assim, já podia levar em minha bagagem um pouco de conhecimento sobre o que viria a constatar nessa incrível viagem: redução da oferta de peixes em toda sua extensão, desaparecimento de muitas espécies animais e de sua flora, desabamento de barrancos e assoreamento do rio, com a conseqüente diminuição de sua profundidade média, redução da oferta de água de seus afluentes, muitos deles extintos pela eliminação da mata ciliar que os protegia, contaminação das águas dos rios com agrotóxicos e esgoto urbano... um extenso rol de problemas a serem comprovados, discutidos, avaliados.

Porém, muitas surpresas haveria, certamente, em meu caminho! A diversidade biológica ainda impressiona a todos que percorrem esse caminho mágico: aves em grande quantidade e variedade, onças negras, pardas e pintadas, lobos-guará, capivaras, peixes, tartarugas, quatis, jacarés, macacos...

Afora essas questões ambientais, está o homem: sua presença altera tudo, seja pela destruição que causa, seja pela diversidade de profissões que desenvolveu ao longo do tempo, em suas margens: barqueiro7, lavrador de áreas de lameiro8 (vazanteiro9), pescador, brejeiro10, carvoeiro11, garimpeiro, artistas de teatro mambembe12, caixeiro viajante13, artesão, vaqueiro, comerciante de todo tipo de produto (inclusive através de práticas freqüentes de escambo14)...

É necessário e urgente que se tomem ações efetivas de revitalização do rio São Francisco, sem demagogia e sem interesses eleitoreiros. Só quem viveu um pouco em seus domínios pode compreender a essência e a profundidade desse apelo, pelo entendimento do gigantismo dessa nação chamada “São Francisco”.

1 SCUBA – Self-Contained Undewater Breathing Apparatus (equipamento de respiração sob a água compreendendo o cilindro de ar, regulador de pressão do ar e colete equilibrador).

2 Trekking – atividade esportiva de percurso de trilhas a pé, geralmente com duração de mais de um dia.

3 Hiking – atividade esportiva de percurso de trilhas a pé, de curta duração e sem pernoite.

4 Mountain Bike – descida de montanha com o uso de bicicletas preparadas para esse tipo de atividade.

Espeleologia – estudo multidisciplinar do meio ambiente das cavernas, grutas e abismos.

6 Curupira é uma figura do folclore brasileiro. Ele é uma entidade das matas, um anão de cabelos compridos e vermelhos, cuja característica principal são os pés virados para trás. (Wikipédia).

7 Barqueiro – proprietário de barcos, é também o comerciante e capitão da embarcação. Costuma fazer o transporte de mercadoria entre as cidades ribeirinhas, adquirindo-as e vendendo-as nas feiras livres.

8 Lameiro – área de terreno alagável, enriquecido pelo barro trazido pelas cheias dos rios. Embora utilize áreas de preservação permanente às margens dos rios, esse tipo de lavoura não costuma causar impactos significativos no meio ambiente, pois explora áreas já alagáveis, sem provocar desmatamento.

9 Vazanteiro – lavrador que trabalha as áreas de terreno alagáveis, durante o período de vazante dos rios.

10 Brejeiro – lavrador que vive e trabalha em terras alagadas, de brejos situados nas proximidades do rio São Francisco. A região de Barra até Xique-Xique possui muitas terras habitadas por esses trabalhadores.

11 Carvoeiro – atividade ilegal de produção de carvão vegetal a partir de lenha retirada da Caatinga e do Cerrado. Muitas indústrias de transformação, principalmente mineradoras, ainda utilizam esse combustível em suas fornalhas, causando grande devastação e desmatamento em áreas de preservação, além de exploração de trabalho escravo e de mão de obra infantil.

12 Mambembe – teatro itinerante, similar aos saltimbancos da Idade Média, que percorre o sertão em caminhões, apresentando peças de gosto popular e atividades circenses.

13 Caixeiro Viajante - é uma profissão antiga, de uma pessoa que vende produtos fora da região onde eles são produzidos. Antigamente, quando não havia a facilidade do transporte entre as cidades, os caixeiros-viajantes eram os únicos a comercializar produtos entre diferentes regiões fora das grandes cidades. (Wikipédia).

14 Escambo – antiga prática de troca de mercadorias, muito comum na Idade Média, quando não havia moeda impressa ou cunhada, nem dinheiro circulante. Ainda é muito usual nos vilarejos do Sertão Nordestino.

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