quinta-feira, 8 de julho de 2010

Pronunciamento no encontro da CPT

22 de outubro de 2009, 09h00

Seminário de Avaliação da Comissão Pastoral da Terra

Sob a estátua de Francisco, nosso mestre, nosso irmão, um pequeno olho d´água, rebento da terra, recém nascido, busca a luz do sol e começa sua jornada nesse mundo de Deus. Mal sabe aquele filete de água, o seu destino; e, como criança, serpenteia pelos vales das colinas da Canastra, juntando a suas águas as de outros regatos pequeninos como ele. Caminha assim, nos altiplanos do cerrado, até formar volume e criar coragem para lançar-se à aventura de saltar da montanha e descer as encostas dos morros, em direção ao mar. É a Casca Danta, uma das belas cachoeiras que ornamentam nosso país, com seus quase 200 metros de queda pelas rochas, até formar um lago de águas escuras e geladas.

Segui seu curso, caminhando na montanha; desci ao seu lado pelas rochas, e me coloquei em suas águas para descermos juntos daí em diante, unindo meu destino ao seu, entre corredeiras e remansos, cercados de mata virgem e animais silvestres, como gostava o Santo de estar. Suas águas cristalinas correm sobre um leito de pedras arredondadas, seixos roliços de tanto rolar pelos séculos, desde a montanha. Novos riachos depositam suas águas em cascatas prateadas, trazendo consigo a vida de outras matas, peixes, pássaros de toda espécie, num abençoado Jardim do Éden...

Por mais de dez dias, eu, Chiquinho (como o chamam os ribeirinhos) e os animais convivemos nessa terra prometida que os homens, aos poucos, vão devastando, plantando milho onde só havia floresta, criando gado, poluindo suas águas com seus esgotos e agrotóxicos, até que aquela pureza não exista mais.

Quando chega o Samburá, o São Francisco já é quase adulto, mais calmo, águas lamacentas e turvas, quase largo o bastante para não se deixar atravessar às braçadas de um nadador. Se antes as canoas dos pescadores não ousavam descer a montanha, agora surgem às dezenas, plantando caniços nas margens, arrastando redes que cercam os peixes, raspando o fundo do rio, sem chance de sobrevivência para muitos animais.

A algazarra dos pássaros diminui nas margens desnudadas de sua roupagem verde. E a avassaladora força das águas nas cheias leva os barrancos para o meio do rio, arrancando árvores, alargando as margens e tornando raso o leito do rio. Cada vez mais lavouras de monocultura de soja e cana de açúcar, e pastos de brachiaria empobrecem a paisagem, e inundam o rio com produtos químicos, matando seus peixes, que um dia foram grandes e tantos que não faltavam nas mesas dos homens.

Setenta léguas depois, o rio pára, contido pela barragem das Três Marias! Um muro gigantesco contém seu ímpeto e o aprisiona no grande lago azul que se formou a montante. É uma falsa pureza esse azul... todo barro que corria junto às águas, agora se assenta no leito da represa, e os peixes de correnteza já não podem mais caçar. Em suas margens, a escassa vegetação já não abriga a vida. Apenas ranchos e clubes de pesca dos homens, que para ali se dirigem apenas para se divertir.

E, ao lado da barragem, o símbolo da ambição desmesurada dos homens se instalou, trazendo consigo a morte. Uma indústria de metais, que nas margens desse rio bendito deposita seus dejetos, produtos químicos e metais pesados, que nas cheias maiores escorrem para as águas, dizimando peixes aos milhares, e contaminando seu leito.

Depois disso, é muita tristeza, trazida pelas mãos dos homens; além dos resíduos industriais, esgotos urbanos e agrotóxicos! Um rio inteiro de esgotos da capital mineira é despejado no rio, depois de Pirapora: o rio das Velhas! Melhor seria chamá-lo o rio das Mortes!

Às vezes o rio é tão raso que quase dá para atravessá-lo a pé, caminhando... e, no entanto, muito de sua beleza resiste e permanece: os mais belos crepúsculos e ocasos, o sol tingindo o céu com todos os matizes de cores, um espetáculo emocionante!

Mas as queimadas e a motoserra não nos deixam esquecer a perversidade do homem, movido pela ganância de roubar do rio sua roupagem de vida. Para que? eu me pergunto... se aquilo que dele roubou para aumentar sua plantação o rio irá tomar de volta nas enchentes? Porém, o rio se alarga ainda mais, e agoniza lentamente, levando, nesse lamento, a vida que abrigava em seu manto sagrado...

É preciso fazer alguma coisa! O rio não pode morrer! Pois ele acolhe também um povo simples, honesto, generoso, o verdadeiro ribeirinho, que há séculos se instalou em suas margens e ali criou sua história de lutas e sofrimento, mas também de respeito pacífico pelo rio São Francisco...

É desse povo, quilombolas, indígenas, pescadores, pequenos agricultores, que sairá o grito de redenção:

Salvem o rio São Francisco!
Salve o nosso Velho Chico!
São Francisco Vivo: Terra, Água, Rio e Povo!

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