quinta-feira, 8 de julho de 2010

Próximo da comunidade de Juá, 31/10/2009 – 17h57

Sul: 11º 42' 06” – Oeste: 43º 22' 33” – Altitude: 410 metros

Consegui sair de Boa Vista do Pixaim às 08h30, quando o céu se abriu um pouco. Aléssio me ajudou com o barco e as tralhas, levando-me de volta ao ponto de desembarque. Levarei gratas lembranças dessa família simples, solidária e admirável! Fico me perguntando como essas pessoas são generosas tendo tão pouco para oferecer sob o ponto de vista material... no entanto, nem se importam que somos estranhos, que estamos incomodando, invadindo sua privacidade, consumindo seus poucos recursos!

Não tinha expectativa de chegar a Morpará, a princípio, porque estava saindo tarde e seriam cerca de 55 quilômetros de remo, com o tempo instável e risco de novas tempestades. No entanto, ao longo do dia, o sol se abriu e fiquei entusiasmado. Ao meio-dia eu já esperava atingir Morpará às 17 horas, e remei com um bom ritmo. Porém, aqui o tempo muda em poucas horas e às três da tarde eu já procurava abrigo, pois o céu se fechou à minha frente, enquanto raios e trovoadas sinalizavam a chegada do temporal.

Encontrei um excelente local, abrigado do vento, em uma praia limpa e protegida, com várias opções de acampamento, a 20 quilômetros de Morpará. Optei por um lugar conservador, mais de dois metros acima do nível do rio, por excesso de precaução.

Apesar de parecer iminente, a chuva só chegou às 17 horas e pude aproveitar a praia, tomar um banho completo e arrumar a barraca de forma segura. Ventou muito e choveu pouco. Em menos de uma hora só restou uma chuva fina... porém, pela noite passada, pode chover forte durante a madrugada.

Amanhã começa o período oficial do defeso e da piracema, com as ressalvas feitas anteriormente. E os pescadores passam a viver apenas do seguro desemprego, do programa “bolsa família” e das pensões dos aposentados, além do cultivo de lavoura e criação de animais em suas propriedades. Alguns também trabalham no comércio, tendo pequenas “vendas” em suas casas.

Em lugar do seguro desemprego, que é conceitualmente paternalista e até humilhante para os trabalhadores, o governo deveria pensar em ações mais efetivas, como o treinamento técnico dessas pessoas para atividades de pesca e também na lavoura e até na qualificação educacional. Muitos pescadores são analfabetos e poderiam utilizar esse período de quatro meses para se preparar e a seus filhos para uma vida melhor.

Também poderiam orientar a população a cuidar melhor de sua terra, não jogando lixo no rio, não despejando esgoto pelas ruas, fazendo campanhas de planejamento familiar e fornecendo os meios para que isso se concretize. Enfim, são muitas as ações que poderiam, efetivamente, mudar o perfil de miséria desse povo.

Se o “bolsa família” e o seguro desemprego ajudaram a dar condições mínimas de subsistência, não mudaram mentalidades. E somente ações de longo prazo poderiam trazer essa população de volta para a realidade contemporânea, saindo do século XIX.

Muitas atividades em mutirão poderiam transformar a paisagem de abandono em que se encontra grande parte de nosso povo. Equipes, como aquelas do antigo e esquecido “Projeto Rondon”, com especialistas multidisciplinares, poderiam percorrer essas comunidades ensinando noções básicas de higiene, prevenção de moléstias, controle da natalidade, preservação ambiental, etc.

O custo social da pobreza é muito maior que qualquer investimento para sua erradicação. Existem técnicas de construção de baixo custo que poderiam ser ensinadas aos líderes comunitários e replicadas a toda população. Uma delas é a Permacultura, que compreende uma série de tecnologias acessíveis e baratas para a construção de moradias, tratamento de dejetos, construção de reservatórios de águas pluviais, plantio, irrigação e fertilização sem produtos químicos, proteção do solo...

Existem organizações não governamentais que replicam esse conhecimento e poderiam ser encarregadas de estabelecer novos núcleos de Permacultura em todas as regiões pobres do país. Com certeza, o custo desses projetos seria bem menor que o da malfadada transposição das águas do São Francisco, e com impactos ambientais positivos, uma vez que são ecológicos!

A criação de animais é um capítulo à parte nesses povoados: patos, galinhas, cães, gatos, porcos, cabras, galinhas d'Angola vivem soltos pelas ruas, fuçando no lixo, bebendo água dos esgotos urbanos e convivendo com as crianças e adultos.

As noções de higiene são precaríssimas! Além da água do rio não ser tratada, muitas casas despejam água servida e esgotos no quintal e nas ruas, contribuindo para aumentar a sujeira e o desmazelo. Sujeira atrai sujeira, e quem não cuida também não se importa em viver nesse ambiente fétido e contaminado.

A tradição de lavar roupas e utensílios domésticos no rio continua uma prática e um folclore regionais. Muitas casas nem possuem água encanada e o banheiro fica em uma fossa atrás das casas.

Assim como as paredes são de barro ou não têm reboco, o piso é de barro ou de cimento, acumulando sujeira e dificultando a limpeza. A presença de todo tipo de insetos, e até sapos e rãs dentro das casas também é muito comum nas cidades e aldeias.

Não existe o hábito de consumo de vegetais crus; apenas a alimentação comum de todo sertão: arroz, feijão, macarrão, abóbora, farinha de mandioca e uma “mistura”1. Em todo percurso que fiz, sempre recebi com gratidão os pratos de alimentos que me ofereceram, e não tenho nenhuma restrição em comer alimentos simples, pois eles são feitos com boa vontade e oferecidos com carinho para todo e qualquer visitante que acolhem em suas casas. Minhas considerações são feitas em função da necessidade de melhorar as condições de nutrição dessas famílias e reduzir a mortalidade infantil e as doenças.

Todos acordam muito cedo, antes mesmo do sol aparecer, aos seus primeiros sinais de luminosidade e com o despertar dos animais. Muitas casas, mesmo as de pau-a-pique, usam antenas parabólicas e têm acesso a dezenas de canais de televisão. Essa é uma contradição e uma ofensa a essas populações pobres, pois os programas “globais” costumar valorizar a riqueza excessiva como um bem maior da humanidade e um mérito extremo a ser conquistado pelos afortunados pelo destino! Uma crueldade!

Nenhuma cidade ou povoado possui vida cultural expressiva: não há cinemas ou teatros, as bibliotecas são precárias, muito pouco diversificadas e vivem “às moscas”, a música é de má qualidade, de um gosto duvidoso e sempre valorizando o sexo e a esperteza.

Enfim, uma sociedade que não estimula o desenvolvimento e a emancipação de seu povo, mantendo todos os habitantes à margem das conquistas tecnológicas, culturais e profissionais. Uma segregação social implícita!

1 O povo ribeirinho chama de mistura as carnes de boi, de porco, de galinha e até mesmo os peixes.

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