quinta-feira, 8 de julho de 2010

Quilombo “Barra do Parateca”, 12/10/2009 – 23h51

Sul: 13º 56' 09” – Oeste: 43º 37' 44” – Altitude: 440 metros

Saí de Malhada às 07h00. Jojô (educomunicadora1 da CPT2) e Wilson (seu marido) cuidaram de mim como a um parente próximo ou um grande amigo! Ontem almocei na casa deles e me serviram com todas as atenções... pessoas inesquecíveis!

À tarde estive no quilombo Tomé Nunes e falei com a comunidade. São pessoas muito especiais. Não poderia imaginar a vida em um quilombo; o sofrimento, o abandono, o descaso das autoridades, a violência dos fazendeiros tentando expulsá-los da terra onde nasceram seus avós e que lhe são de direito histórico e de justiça social.

Como se não bastasse sua origem humilde, descendentes de foragidos da escravidão, sem nenhum conforto, humilhados por aqueles que deveriam defendê-los. Nem mesmo a titularidade das terras que ocupam conseguiram do poder público, e vivem sob constante ameaça de despejo. Então, para que serve a certificação de quilombolas?

Nem à água tratada ou a qualquer benfeitoria urbana essa gente tem direito! Vivem por sua conta, lutando pelos direitos mínimos de dignidade de seres humanos que a Constituição Federal deveria lhes assegurar!

Contaram-me suas histórias e suas lendas,.. o Encanto! O que seria isso? Um mito? Um temor constante de ser levado pelo rio por criaturas misteriosas? A materialização do inexplicável? Talvez seja o conjunto de temores que levam nossos sentidos a transformar a fantasia em realidade... sim, o Encanto existe, ao menos na imaginação.

E a pescaria do peixe mais fantástico que jamais existiu? Reminiscências do passado, quando o rio era generoso e os homens menos perversos com a Natureza... conheci Maria Clara, uma velhinha negra e simpática, cheia de energia, cujas estórias nos prendem de perplexidade e emoção! Que mundo é esse que eu nem imaginara existir?

Maria Clara ainda era criança e seu pai costumava levá-la às pescarias... era filha única, situação incomum para as famílias de classe social mais humilde... naquele dia eles foram em um lugar habitual, mas havia um outro pescador lutando com um peixe desesperadamente. Ficaram observando o esforço daquele jovem robusto, que sequer os viu chegar, absorto que estava em não perder seu peixão! Puxava a linha até a vara se curvar a ponto de arrebentar; então soltava e deixava que o peixe corresse um pouco, para retesar novamente a linha. Ficou assim durante horas, e o peixe não demonstrava cansaço, ao contrário do pescador, que se impacientava cada vez mais.

De repente, um puxão mais forte e desajeitado e o peixe salta fora d'água, exibindo seu espetacular brilho prateado contra o sol vespertino; cai num estrondo imenso e a linha se arrebenta e o peixe foge! O jovem pescador se desespera, grita, vocifera, amaldiçoa a tudo e a todos pela perda de seu maior troféu jamais conquistado! Vai-se embora...

Maria Clara e seu pai desistem de pescar por ali; certamente, aquela luta espantara não apenas o enorme peixe, mas também assustara qualquer outro animal que por ali estivesse. Seguem rio acima, margeando o barranco, em silencioso respeito... logo adiante, seu pai decide que é a hora de parar; esgueiram a canoa para um pequeno remanso e ele amarra a proa da embarcação em um tronco, manobrando a canoa para deixar a popa o mais afastado que pode do barranco. Senta-se e prepara a isca...

Pelo anzol, Maria Clara imagina que o pai quer encontrar aquele peixe enorme. Ele ajeita com cuidado a isca, um mandi bem crescido, corta-lhe as barbatanas e lança a linha grossa para bem longe, rio abaixo, perto demais do barranco e de um enrosco que se formara com as últimas chuvas. Ele sabia o que estava fazendo.

Ficaram ali por um tempo que ninguém sabe contar; quando esperamos por alguma coisa, nossa percepção do tempo se torna aguçada, e o dia, as horas, os minutos e segundos se arrastam, como se quisessem que nada se modificasse ao seu redor.

De repente, um estrondo nas águas, e o peixão surge das espumas e se lança no espaço, bem à sua frente! Maria Clara não se conteve e gritou... um misto de encanto e pavor, medo e admiração por aquela vida magnífica que se contorcia na ponta do anzol de seu pai! Foram segundos eternos! Ficaram os dois, pai e filha saboreando esse instante de desarmonia do Universo, onde presa e predador se confundem, e ninguém sabe o desfecho da história... o peixe se soltou e foi embora, não antes de jogar-se novamente, livre, quase sobre a canoa, diante do espanto e terror deles...

Um silencioso respeito se seguiu àquela cena fantástica... ninguém ousava quebrar o Encanto, que durou uma eternidade de alguns segundos, até que fossem embora, felizes! Maria Clara percebeu que seu pai deixara a ponta do anzol um pouco aberta para permitir que o peixe se soltasse, mas nada falou. Ambos tiveram seu Encanto...

Hoje remei forte por 9 horas e percorri cerca de 60 quilômetros, chegando a Barra do Parateca, um quilombo extrativista. Os mesmos problemas de terras e de fazendeiros gananciosos e cruéis, que querem lhes tirar as terras com o apoio da Lei!

Seus líderes já foram presos e ameaçados de morte por capangas dos latifundiários; suas lavouras de lameiro (são vazanteiros) foram destruídas pelo gado, soltos propositadamente sobre as plantações... seus acampamentos colocados abaixo pelas mesmas motoserras dos fazendeiros que destroem as matas ciliares... e até mesmo juízes “seduzidos” pelo poder e dinheiro tentam expropriá-los de seus bens...

Fiz minha palestra em um templo evangélico adventista para cerca de 50 pessoas... falei do rio, de suas mortes possíveis, da escassez de águas no mundo, da poluição e da responsabilidade de cada um por esse nosso mundo. Falei do trágico planeta que o futuro nos reserva se continuarmos a maltratá-lo assim. Dialogamos bastante....

Fui recebido na comunidade pelo Elson, um líder nato com grande capacidade arregimentadora de opiniões. Eles possuem um sistema de alto-falantes, que serve para divulgar eventos, como o meu, e também notícias e alertas de invasões.

Lamentavelmente, no mesmo local onde cultivam suas hortaliças, um enorme barranco de uns 5 metros de altura e cerca de 70 metros de largura desde o rio, existe uma grande quantidade de lixo jogado pelos moradores. São garrafas pet, latinhas, lixo orgânico, papel, de tudo o que se possa imaginar. Em minha palestra fiz questão de chamar a atenção desses moradores para o descaso com o meio ambiente.

Estou hospedado na casa de dona Maria, mãe do pastor Alex, e parteira da comunidade. Diz ela que já realizou quase 200 partos e trouxe ao mundo 179 crianças, pela magia de suas mãos e pela sabedoria de sua vida dedicada às mulheres.

É uma casa ampla e confortável, com três quartos e um grande salão anexo, onde serve refeições caseiras. Deixou-me à vontade e até a acompanhei em uma oração para as crianças e em defesa do Meio Ambiente, que ela fez questão de incluir...

No quintal existe uma criação de galinhas caipiras e d'Angola, e de patos, que convivem curiosamente com os jegues, os porcos e as cabras. Algumas árvores frutíferas, um pouco de ervas plantadas em um pequeno viveiro protegido dos animais.

1 Educomunicadora – denominação dada pela Comissão Pastoral da Terra a seus voluntários que se dedicam a orientar os povos das comunidades sobre seus direitos constitucionais e sociais.

2 CPT – Comissão Pastoral da Terra, órgão da Igreja Católica, que se dedica a apoiar e orientar as comunidades e os movimentos sociais de luta pela posse da terra e pela reforma agrária.

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