quinta-feira, 8 de julho de 2010

Santa Maria da Boa Vista, 20/11/2009

Sul: 08º 47' 30” – Oeste: 39º 49' 42” – Altitude: 374 metros

Curaçá foi uma grata surpresa para mim: um grupo de jovens me indicou uma pousada, pois a do amigo de Avelar ficara para trás; é fora da cidade e não daria para eu voltar remando contra a correnteza. Estou cansado e faminto demais para isso! Cheguei às 17 horas, depois de 11 horas remando sem parar, com vento muito forte e as ondas e maretas me fustigando! O barco, às vezes, nem saía do lugar! Fora as pedras no caminho...

Encontrei a pousada e decidi ficar lá. Ainda teria que trazer a canoa e as tralhas e tem uma ladeira de uns 300 metros! Mas a sorte mais uma vez estava ao meu lado: Wallace, sobrinho da dona da pousada se ofereceu para me ajudar, e arregimentamos a turma lá da praia também! Em duas viagens levamos tudo.

Convidei a turma para tomar uma cerveja e conhecer a cidade, muito pequena, mas bem cuidada, com praças bonitas, um teatro muito antigo e uma igreja que tem sua história... contam que um morador da cidade fora excomungado por ter assassinado o padre! E a maldição era que o sangue do padre teria que ser lavado pelas águas do rio; mas as cheias nunca atingiram o páteo da igreja e suas escadarias! Agora dizem que será construída uma represa que irá inundar parte da cidade e a maldição será cumprida... o curioso nessa história é que toda cidade pagou pelo crime cometido, em vez de ser punido apenas o assassino!

Hoje pela manhã saí para fotografar a cidade, que possui casas centenárias bem cuidadas. Depois voltei à pousada, transportei o barco e as tralhas de volta para o rio com a ajuda de Wallace, e parti às 08h00. Meu trajeto hoje seria curto: apenas uns 35 km. Mas logo encontrei um canal na margem direita do rio e decidi explorá-lo. Estava bem preservado, com muitos pássaros e rica e densa vegetação, mas não havia ninguém... achei que me levaria a uma lagoa. O canal tinha uns três quilômetros de extensão e, para minha decepção, terminava de repente!

Segui adiante, mas apesar do pouco vento, as águas continuavam agitadas e logo me cansei. O sol estava forte e, mesmo com o bloqueador, minha pele ficou vermelha e ardendo. A paisagem era magnífica! Água límpida e verde esmeralda, vegetação preservada nas margens e ilhas, e muitas pedras! Dessa vez não havia corredeiras, mas as pedras submersas e os “stonebergs”1 exigem atenção constante. Deve ser fantástico mergulhar aqui!

Mesmo com toda essa beleza à minha volta, estou cansado dessa viagem, que se prolongou por muito mais tempo do que era previsto. Acho que estou um pouco debilitado também...

Cheguei cedo a Santa Maria da Boa Vista. Devia ser duas horas da tarde quando encostei meu barco nas areias da praia. Muitos vieram me perguntar de onde eu vinha, o que eu fazia... um povo simpático e hospitaleiro! A praia tem um quiosque enorme, com muitas mesas e dá para se sentir à beira-mar! Pedi uma refeição.

Liguei para o assessor do prefeito, Adelmir, que prontamente disse que iria me encontrar ali mesmo. Pedi um tambaqui e uma água de côco. Curioso é que o tambaqui é um peixe da amazônia e fora introduzido no São Francisco quando da construção da represa de Sobradinho. Foi um erro fatal, pois esse peixe é um predador e contribuiu muito para a redução das populações de outros peixes nativos, hoje quase extintos nessa região.

O peixe demorou tanto para ficar pronto que não pude comê-lo! Chegaram o Adelmir, o prefeito e o presidente da câmara de vereadores, além de vários assessores e amigos.

Conversamos bastante e Adelmir colocou-me ao vivo na rádio local para uma chamada de entrevista que darei amanhã e será colocada no ar na segunda-feira, depois que eu tiver partido.

Levaram-me para uma pousada ótima, com ar condicionado, tv e frigobar, com tudo pago pela prefeitura, inclusive as refeições! Hoje jantaremos juntos e amanhã sigo para Cabrobó. Esse trecho do rio é o seu ponto crítico, tanto pelas plantações de maconha e a presença de traficantes nas ilhas, como pelas inúmeras corredeiras e seus famigerados “panelões”; dizem até que existe um redemoinho gigante, do tamanho do Maracanã, segundo já me alertara o Junior em seus relatos de viagem de 2004. Vamos conferir...

Recomendaram-me a ir sempre beirando a margem esquerda do rio, pernambucana, para fugir das piores passagens. E também reforçaram a recomendação de não aportar nas ilhas! Com isso perderei a visita à comunidade de Riacho Seco, para a qual eu fui convidado ainda na praia. Paciência, não vou me arriscar ainda mais nessa viagem, depois de tudo o que me aconteceu.

1 Stonebergs – neologismo associado aos “icebergs”, enormes formações de gelo que flutuam nos mares, com pouco mais de 10% de seu volume fora d'água e o restante submerso, representando grande ameaça à navegação. “Stoneberg” = “iceberg” de pedra!

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