quinta-feira, 8 de julho de 2010

São Romão, 30/09/2009 – 20h00

Sul: 16º 22' 12” – Oeste: 45º 04' 06” – Altitude: 477 metros


Cheguei ontem a São Romão, às 16 horas. Esse trecho foi muito cansativo devido ao calor excessivo; a sensação térmica é acentuada pela evaporação das águas do rio. Imagino que estava próximo dos 50º C. Por duas vezes parei sob a sombra das árvores para retomar o fôlego! Bebi dois litros de água só durante o trajeto, e não foi suficiente para repor os líquidos perdidos pela transpiração.

Encontrei uma praia de areia semelhante àquela existente em Ibiaí: cobria metade do rio e deixava quase inavegável boa parte ao seu redor. Parei para me banhar, mas a água estava quente, por ser tão rasa; e o leito do rio era coberto de lama...

Fiquei em silêncio na maior parte do percurso: a mata inexistente, poucos pescadores e quase nenhum pássaro. Já próximo a São Romão, assim como nas proximidades de Ponto Chic, muitos clubes de pesca e também muitos ranchos.

Eu deixei de relatar um fato interessante: na véspera da chegada a Ibiaí acampei próximo a um pescador. Enquanto eu montava a barraca ele se aproximou e perguntou o que eu fazia no rio e quais os motivos de minha viagem. Ficou admirado de eu estar fazendo isso em defesa de um rio que eu nem mesmo conhecia, e disse que alguém precisava mesmo lutar para protegê-lo. Pareceu-me um homem simples e bom.

No dia seguinte, depois que levantei acampamento, remei até o local onde ele pernoitara, me despedi e segui viagem. Para minha surpresa, cerca de uma hora depois, ele me alcançou. Disse-me que morava com sua mulher em uma ilha antes de Ibiaí, e seguimos conversando, em seu linguajar simples, até que avistamos a ilha.

Ele se adiantou e desembarcou na ilha; percebi que havia muitas casas, todas bem simples, com pequenas plantações à sua volta. Segui viagem e, um pouco adiante ele volta a me alcançar e passa a seguir em marcha lenta ao meu lado, repetindo com freqüência que tinha muita água para eu percorrer; parece que não se conformava com minha determinação. Como eu, na minha idade, abandonara tudo para seguir essa longa jornada? E dizia que, pelo menos nesse trecho, ele me fazia companhia! Fiquei muito sensibilizado com esse gesto!

Dei-lhe algumas castanhas; ele provou e guardou as restantes, dizendo que era para sua mulher... mais uma vez me senti tocado por esse gesto de sensibilidade de um homem que, por suas origens e profissão, deveria ser rude. Peguei o pequeno frasco que tinha em mãos e dei-lhe como retribuição. Distanciei-me dele e segui adiante.

Mais uma vez o encontrei, já próximo a Ibiaí, jogando sua tarrafa. Tirei umas fotos até conseguir obter o momento exato em que a rede se abria no ar. Pessoas simples e humildes nos ensinam lições de generosidade e desprendimento.

Hoje passei o dia fazendo algumas compras e fotografando a pequena cidade de São Romão. Pela manhã passei na prefeitura e conversei com a secretária de turismo, mas ela se mostrou pouco interessada em meu projeto; estava ocupada demais para me dar atenção. Passou-me para um assessor de agricultura, que em quase nada pode me ajudar. Soube, por ele, que o desastre ecológico provocado pela indústria de mineração (Votorantim) em Três Marias aconteceu em fevereiro de 2004; a indústria acumulava há anos resíduos químicos na lagoa, próximo ao rio e, naquele ano, as chuvas foram fortes.

Quando a usina abriu suas comportas devido ao grande volume de águas do reservatório, o lago foi atingido e todo resíduo químico foi lançado ao rio, provocando a morte de milhões de peixes, que apareceram boiando por quilômetros rio abaixo, passando de São Romão! Os pescadores, revoltados, penduraram as carcaças de grandes peixes, surubins, dourados, piranhas... nas árvores das margens do rio.

Dizem alguns que a introdução do pacu-caraça, espécie estranha ao rio São Francisco, foi uma tentativa inútil daquela indústria de abafar o escândalo e repovoar o rio. Só que esse peixe é um predador, e acabou agravando o problema e levando quase à extinção várias espécies que já estavam ameaçadas! O pacu-caraça, peixe de qualidade inferior ao dourado e ao surubim, continua proliferando nessa região, e impedindo até hoje, que as populações daqueles peixes se recuperem da catástrofe. Abaixo da represa, desde então, já não se encontram grandes espécimens de dourados e surubins, como acontecia no passado. E a lagoa de rejeitos continua lá!

Comprei um guarda-sol e umas peças para que o Joaquim, da oficina mecânica, pudesse instalá-la em minha canoa, utilizando uma coroa de caminhão para servir de contrapeso sem precisar furar a fibra do barco. A idéia dele foi ótima!

Soube que ele dá manutenção nas barcaças que fazem a travessia do São Francisco, levando e trazendo mercadorias, automóveis, caminhões... do outro lado do rio passa uma rodovia federal que liga a cidade ao resto de Minas e a Belo Horizonte.

Fotografei duas igrejas do século XIX, além de um casarão reformado e várias casas antigas em péssimo estado de conservação. Embora afirmem que a cidade tem mais de 400 anos, não há nenhuma evidência que eu tenha percebido que confirme isso. A maioria das casas é velha, com telhados e paredes caindo aos pedaços. Às vezes dá para se ver o interior das casas, mesmo com as portas e janelas fechadas. Tem-se a impressão de que a população não dá valor à cidade, menos ainda os governantes!

Também fotografei dois carros de boi; na verdade, carroças puxadas a boi, pois a estrutura do veículo não é a de um carro de boi tradicional, e as rodas são pneus de borracha. Seja como for, é um veículo anacrônico nessa época de tecnologias emergentes.

Ainda conheci Ludmila, dona de uma padaria moderna, talvez a única da cidade. Ela é formada em Turismo, na cidade de Formiga, e fez MBA em Hospitalidade, na Inglaterra, onde morou durante oito anos. Para ela não deve ser fácil viver neste lugar... No entanto, o povo é gentil e hospitaleiro; uma senhora de BH, que conheci nas ruas de São Romão, se interessou bastante pelo meu projeto, e demonstrou ser muito culta e crítica com relação às políticas regionais.

Um comentário:

Daniel Oliveira disse...

Fantástica sua proposta! Há alguns anos iniciei uma viagem da nascente à foz do Velho Chico. Faço tudo aos poucos, porque faço de ônibus. Ao seu modo deve ser incomparável. Já cheguei até Bom Jesus da Lapa. Enfim, parabéns!!!

Daniel.