quinta-feira, 8 de julho de 2010

Três Marias, em um hotel à beira-rio 20/06/2009 – 22h00

Sul: 18° 13´ – Oeste: 45° 15´ – Altitude: 573 metros

Na segunda-feira, dia 22 de junho, retornarei a Belo Horizonte, deixando minha canoa no hotel onde me hospedara.

Eu a trouxe de caminhão para Três Marias, quebrando um compromisso que assumira de não fazer transposição de caminhos, seguir somente pelos meus próprios meios, e não desistir jamais de meus objetivos! O que aconteceu, então?

Não soube compreender nem explicar...

O fato é que falhei... não poderia ter sido influenciado tão facilmente por pessoas que nem conheço. Não deveria ter mantido contato externo, pois não havia risco nem urgência. Expedição de aventura implica riscos, e eu estava preparado para enfrentá-los, mas desisti.

Sim, pois um hotel confortável é tudo o que eu não poderia ter em meu caminho. Voltar ao desconforto do rio, acampamentos e comida preparada em um fogareiro são coisas difíceis e exigem tenacidade, determinação, coragem, auto-confiança e crença inabalável nos objetivos, deles não nos afastando. Sei que será difícil o retorno.


Na quinta-feira, dia 18 de junho, me encontrei com um grupo de pescadores que me convidou a almoçar. Aceitei, e eles me alertaram sobre o que estava por vir na entrada da represa de Três Marias. Segundo eles, experientes pescadores, na entrada do lago havia uma grande corredeira, muito forte e difícil de ser vencida.

Recomendaram-me que não fizesse esse trajeto, pois meu barco não suportaria. Mesmo com barco a motor eles disseram que era difícil entrar na represa!

Acabei pernoitando no acampamento deles e obtive mais informações e subsídios para a minha decisão. Eles haviam pescado muitas piranhas, um pintado (surubim) e um grande dourado. Convidaram-me a ir a seu rancho antes de prosseguir.

Na sexta-feira pela manhã saí cedo e cheguei ao rancho perto do meio-dia. Almocei com eles e decidi que não faria a entrada na represa. Segui remando até uma ponte próxima às corredeiras e contratei um pequeno caminhão para levar-me até Três Marias, onde cheguei às 21h00.

Passei a noite meditando sobre tudo o que acontecera desde o início da expedição. Minha maior preocupação tinha sido superar obstáculos! As questões ambientais foram deixadas de lado em função das inúmeras dificuldades encontradas. E, nos últimos dias, minhas atividades se resumiam em remar, cada vez com mais vigor, para cumprir um cronograma que nada tinha a ver com meus objetivos e propósitos nesta expedição.

Encontrara poucas pessoas, tomara poucos depoimentos, fotografara poucas cenas, e nenhuma fora do leito do rio, perdi algumas oportunidades de conhecer lagoas de reprodução que estavam a poucos metros das margens... e, para completar, estava consumindo meus parcos recursos financeiros e comprometendo seriamente a expedição. Tudo em função de um cronograma sem sentido.

Além disso, fui informado por um habitante de Três Marias que a uns 10 km da cidade havia uma perigosa corredeira, a Cachoeira Grande. Depois, um pouco adiante, havia outra, a Cachoeira Criminosa, uma enorme pedra que obstruía a passagem, sem ser percebida por quem desce o rio! Era emoção demais para quem buscava relacionamentos e informações sobre o meio ambiente, como eu! Pelo menos foi assim que eu pensei, a princípio.

Por tudo isso, decidi interromper minha viagem, reavaliar meus objetivos, buscar apoios financeiros e retomar a intenção de fazer essa expedição com propósitos preservacionistas.

Portanto, essa é minha decisão: não farei mais corredeiras, não passarei por trechos perigosos, pois não estou fazendo rafting ou canoísmo como esporte, mas sim canoagem, como meio de locomoção para conhecer o rio São Francisco e as comunidades que vivem em seu entorno, que dependem de suas águas para sobreviver! Creio ser essa a melhor atitude, antes que todos os objetivos da expedição estejam comprometidos.

Um comentário:

Rodrigo Antonio de Oliveira disse...

Apesar do seu tom de frustração e de derrota, dou-lhe parabéns pela coragem e pela iniciativa de narrar uma aventura como esta. Confesso que fiquei com inveja. Sou nascido em Dores do Indaiá. Tenho uma relação com o rio São Francisco e com seus afluentes da margem esquerda da região de Dores do Indaia desde a infância. Hoje não moro mais lá, mas sempre que posso vou acampar às suas margens e pratico a velha pescaria de barranco. Foi um prazer ler seu relato. Mais uma vez parabéns.