quinta-feira, 8 de julho de 2010

Último dia nas corredeiras, 10/06/2009 – 19h15

Sul: 20° 20´ – Oeste: 46° 08´ – Altitude: 698 metros


Ainda não foi hoje que alcancei o Samburá... parece que todo meu destino está vinculado ao encontro desse rio. De certa forma, está mesmo, pois minha expectativa é de que a junção dos dois rios coincida com a mudança da topografia, trazendo terras mais planas e menos corredeiras a serem transpostas. Preciso acreditar nisso!

Minha motivação caiu a zero. Como não posso mais me arriscar descendo as corredeiras, puxar a canoa ou fazer portagens passou a ser meu único meio de locomoção. Em uma das portagens caí de uma pedra de quase dois metros de altura, me estatelando na água. Só que não havia apenas água, mas pedras pontiagudas, que me feriram as mãos e os braços.

No começo da viagem cortei um dedo com o canivete e o corte permanece aberto até hoje. Isso porque os curativos duram muito pouco em contato com a água e logo se desmancham. Sempre que esbarro o dedo em alguma coisa, ele volta a sangrar. Receio uma infecção pela falta de atendimento. Já nem sei mais o que é ferimento e o que são picadas de insetos!

Hoje perdi definitivamente todos os meus mapas, que caíram na água, por um descuido meu, ao tentar passar a canoa entre duas pedras, por onde passava a corredeira em um de seus lances mais agitados. Nem tentei recuperá-los, pois logo se espalharam pela água e foram levados pela correnteza. Já não tinham mais serventia mesmo...

Diante de tantos desacertos e sem perspectivas de chegar logo a Iguatama, se hoje houvesse uma opção de retornar à civilização, certamente eu abortaria a expedição.

De repente está ficando surreal demais essa viagem! Estou aqui, fazendo os maiores esforços para progredir 2 ou 3 km por dia e ninguém, exceto os meus poucos amigos, sabe de meu projeto e de minhas intenções. Se, apesar de ter enviado dezenas de e-mails a autoridades, imprensa e público especializado, ninguém se interessou pelas minhas idéias, não seria aqui, no meio do nada, que notariam minha ausência!

Este local onde acampei hoje é bonito. Muita vegetação em ambas as margens, pássaros... a garça cinzenta reapareceu, assim como o casal de gaviões. O rio tem muitos peixes, que saltam a todo instante, fazendo um barulho, como uma salva de palmas.

Como havia pouco espaço, montei minha barraca em uma pedra estreita e comprida, onde também atraquei minha canoa. De ambos os lados da pedra sobrou parte da barraca, que parece se equilibrar no ar. Para não cair na água enquanto durmo, coloquei as pás dos remos sob ela e os cabos apoiados no barranco. Parece uma favela...

Parei cedo; eram três da tarde. Mas logo à frente há uma nova corredeira e meus músculos e minha mente já pediam um repouso. Penso constantemente em minha família. Questiono se tenho direito a essas aventuras enquanto cada um luta pela sua vida à própria maneira. Porém, preciso disso como do ar que respiro!

Talvez eu não faça diferença nas suas atividades cotidianas, pois cada uma estruturou sua vida conforme sua própria capacidade de sobreviver. Mas elas me fazem muita falta. Em anos passados, acostumado à solidão, eu não questionaria essas ausências... nem elas! Porém hoje, nem sei porque, eu me sinto muito só, abandonado, infeliz.

Lá fora, grilos cricrilam, peixes saltam e uns poucos pássaros gorjeiam nas árvores. Ao fundo, o som das águas na curva do rio e a corredeira que terei de enfrentar ao amanhecer. Paisagem bucólica, propícia à meditação e às reflexões existenciais...


Tenho me alimentado bem: duas canecas de leite pela manhã, uma com granola e mel, outra com “ovomaltoddy” e mel; durante o dia, apenas refresco artificial e, de vez em quando, sementes e castanhas; à noite, porção dupla de macarrão ou arroz, enriquecidos com tomate seco, pimenta, azeite e gengibre; às vezes, umas poucas fatias de salame, enquanto durar.

É curioso que, estando só e em contato com a Natureza, cheguei a imaginar que meus pensamentos me permitissem “viajar” pela Filosofia, pelo Misticismo, e me trouxessem novas idéias. No entanto, talvez devido à constante busca pela sobrevivência, estou vazio...

Tenho muito pouco sono e, quando adormeço, meu sono é leve e interrompido. Todos os dias são iguais, as rotinas são as mesmas, não há rituais nem simbolismos, não há notícias, dialética ou confabulações. Por isso, suponho, meu cérebro está parando!

Se ainda fosse adepto do Zen-Budismo, esse seria o momento de buscar a Iluminação. A meditação Zen pretende que a mente se esvazie de qualquer idéia para que a verdadeira percepção do Uno e do Todo se manifestem e clareiem o nosso entendimento.

Porém, rotulei-me Agnóstico, por preguiça ou por ausência de melhor definição. Procurei demais, por muitos anos, o entendimento das razões metafísicas e espirituais que justificassem nossa presença neste mundo; porém, só encontrei contradições.

Não sei o que fazer de meus próximos 20 ou 30 anos, se viver tanto. Talvez me torne um velho ranzinza, que lê jornal e revistas no banheiro e dorme diante da televisão. Quem não tem crenças ou convicções religiosas não consegue preencher as longas horas dos dias, dos anos que precedem à morte. Preciso voltar a ler... estudar... meditar.

As beatas passam as contas do seu rosário pelas pontas dos dedos enquanto balbuciam, inconscientemente, suas rezas sem sentido, que aprenderam com as mães, também beatas, e que nem sabiam por que faziam isso, até chegar a sua hora. Provavelmente, a igreja teria inventado esse artifício para impedir que elas pensassem... Na falta da fé, que move montanhas, eu prefiro ir às montanhas em busca de minha fé. E “brinco” de intrépido aventureiro para dissimular a chegada da minha própria velhice.

Quando me aposentei por desilusão profissional, sonhei em ter uma casinha à beira do rio, lá em Iporanga, onde fica o PETAR (Parque Estadual Turístico do Alto do Ribeira). Quase cheguei a fechar negócio. Mas, como todo mundo, tenho pavor à solidão...

Não essa solidão escolhida que passo agora... essa é fácil! Mas aquela solidão dos esquecidos, dos abandonados, de quem não tem a quem recorrer na hora final... É mais difícil morrer do que viver. Talvez por ser o único ato definitivo, irrevogável, para o qual não há arrependimento nem remorso.

As beatas se preparam para a morte rezando, com medo do inferno... mas nós, agnósticos, que não cremos no devir, o que tememos? Creio que seja o esquecimento. Quando a última pá de terra cair sobre nosso caixão, o que terá restado dessa vida?

Se formos famosos, talvez o nome de um beco, uma rua, uma praça, um parque... talvez um viaduto, um teatro, um mausoléu ou cemitério... Se formos apenas mais um figurante neste teatro da vida, nada ficará que revele nossa passagem por aqui.

Ainda que tenhamos escrito um livro, pintado um quadro, composto uma música ou despertado da pedra um ser imaginário, ainda assim, se nossa obra não for reconhecida, ou mesmo sendo, talvez só nos reste um mísero espaço nas estantes de um museu!

É muito mais fácil ser igual àquela beata do que ser ateu ou agnóstico! Elas – as beatas – não questionam as razões do existir e não temem a solidão póstuma, pois certamente haverá uma horda de seres no lugar que lhes for reservado no seu céu ou purgatório, que o inferno foi reservado somente para nós! Para senadores, deputados e vereadores deve haver outro!

Passamos a vida dialogando com nossos botões, ou com outros seres, descrentes como nós, questionando sempre as mesmas e irrespondíveis indagações: “de onde vim?”, “para onde irei?” e “por que estou aqui?”... Certamente não haverá respostas, seja para os tolos, seja para os intelectuais, filósofos, cientistas...

Se existe um teorema que nunca, ninguém solucionará, é esta simples trilogia... no entanto, cá com meus botões, nada me agrada mais pensar, discutir ou contestar...

Seria por isso que estou aqui?

No entanto, nem São Francisco, o Velho Chico amante dos animais, está disposto a discutir comigo... e passo noites e dias, a procurar, como o filósofo com a lanterna na mão, as razões do existir. Esse tem sido o meu passatempo nesta vida...

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