quinta-feira, 8 de julho de 2010

ULYSSES


Poderia dizer que meu barco foi batizado de "Ulysses" em homenagem ao grande herói grego da Odisséia de Homero. Seria um nome forte e expressivo!


Poderia relacionar minhas aventuras às fantásticas provações por que passou Ulysses de Tróia, em sua viagem de retorno a Ítaca. Seria uma metáfora incrível!

Poderia mesmo imaginar que minhas dificuldades seriam grandes o bastante para associá-las aos perigos enfrentados por Ulysses, em sua odisseia. Uma comparação enriquecedora...

Mas o motivo que me levara a batizar minha canoa de "Ulysses" é outro: o nome de meu pai! Ulysses teria sido um homem comum, não fosse seu caráter irrepreensível, sua generosidade desinteressada, sua paixão pelos seus filhos e por sua mulher, sua vida impecável, singela e edificante, seu conhecimento holístico e investigativo da Vida, seu espírito iluminado e sábio...

Meu pai foi meu grande referencial a todos que o conheceram nesta vida e continua sendo meu Norte e meu Destino. Sem ele eu não seria ninguém, ou talvez trilhasse outros caminhos e me desviasse da senda da Justiça e do Bem.

Ele não escreveu nenhum livro, mas deixou milhares de páginas escritas em minha memória... suas palavras sempre foram altruístas, idealizadas para converter pensamentos, para gerar ações positivas, para produzir efeitos duradouros nas almas que tiveram o privilégio de conhecê-lo.

Ulysses foi uma unanimidade... dizem que a unanimidade é burra, mas não neste caso! Ninguém que o tenha conhecido poderia ter um pensamento mau para esse Homem essencialmente bom.

Quando eu remar "Ulysses" terei a companhia de meu pai. Foi ele quem me ensinou a remar, ainda jovem; era uma canoa pequena, uma “catraia” daquelas em que os remos estão fixos no centro do barco, fáceis de manobrar. Remávamos contra a correnteza, no rio Pardo, perto de Ribeirão Preto e, quando nos cansávamos, ao fim da tarde, deixávamos o barco voltar lentamente, sentindo a brisa vespertina, observando o por do sol, ouvindo os pássaros, o pensamento voando para bem longe, até o limite da nossa imaginação...

Quando estiver cansado, em minha longa jornada, eu me lembrarei que ele, o meu pai, trabalhou dos doze aos setenta e oito anos de idade, incansavelmente... e nunca se queixou de nada!

Quando me sentir solitário, eu me lembrarei de meu pai, que perdeu sua mãe aos dois anos de idade, e seu pai aos seis, vivendo com sua tia em uma pensão simples do interior, para quem fazia a entrega de marmitas.

Quando minhas forças me abandonarem, em me lembrarei daquele que dedicou cada esforço de sua vida para nos dar conforto, segurança e oportunidades de aprender, mesmo quando suas próprias forças já o haviam abandonado... e ele, mesmo assim, perseverou até o fim, debilitado pelo câncer que o levou, definitivamente, de nosso convívio.

Por isso, meu barco se chamará "Ulysses", nome de meu pai, meu companheiro, meu amigo, meu grande mestre, a quem dedico a minha própria vida!

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